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Renato Dorgan (Foto: divulgação)

A ‘nova direita’ no Brasil artificialmente polarizado

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05.08.2026 - 12:25:26

Muito se fala sobre uma calcificação eleitoral no Brasil, reflexo de um mundo onde prosperam somente candidatos da direita radical ou da esquerda progressista em eleições majoritárias — caso das presidenciais.

No período de 2018 a 2024, muitas correntes políticas, midiáticas e de profissionais do marketing político acreditaram que essa certeza imporia nos resultados de pleitos estaduais e até municipais, a ponto de desbancar o discurso por dias melhores ou a busca por alternativas reais nos serviços públicos e na economia.

As eleições municipais de 2024 mostraram, no entanto, que a crença na polarização definitiva era um exagero. Nas capitais, cidades grandes e médias do país, essa dinâmica não prosperou. Os brasileiros irão às urnas em outubro, portanto, sem certezas.

A substituição da direita

A maior parte dos profissionais da política tem consciência de que as redes sociais mudaram drasticamente a relação entre o eleitor e seus representantes. A oportunidade de ser uma voz em meio à multidão criou uma complexidade de informações que reduziu drasticamente o monopólio da verdade pela imprensa e partidos.

Desde que a esquerda nacional teve sua popularidade praticamente devastada pelas revelações de corrupção da Operação Lava Jato — movimento acentuado por uma crise econômica fiscal do governo Dilma Rousseff (PT) —, quem saiu fortalecido não foi a força opositora tradicional do petismo, representada pelo PSDB.

O que ressurge no Brasil é um sentimento de disrupção, capitaneado por paladinos do combate à corrupção e do desmonte das instituições como elas eram. Essa disrupção toma forma em grupos desligados do meio político tradicional, estreitamente agrupados pelo fio do anti-esquerdismo.

Assim surgiram e cresceram MBL (Movimento Brasil Livre) — hoje representado pelo partido Missão –, Partido Novo e outras forças espalhadas por diferentes agremiações, mas agregadas na defesa de costumes conservadores, da matriz cristã, do combate violento à criminalidade e até do saudosismo da ditadura militar. Foi o caldo que gestou a chamada ‘nova direita’ brasileira.

As eleições presidenciais de 2018 alçaram Jair Bolsonaro ao posto de líder único de todas essas correntes e, por consequência de seu caráter majoritário, também ao cargo de presidente da República. Bolsonaro era uma junção do Brasil nostálgico do regime militar com o alinhamento total aos Estados Unidos de Donald Trump.

Ao seu redor, o bolsonarismo se moldou com base na discussão de um imagético ficcional de Deus contra o Diabo, bem contra o mal e conservadorismo versus comunismo. A popularização desse movimento personalista absorveu — ou substituiu — outros grupos da direita e limitou o espaço de políticos do centro à direita que não aderiram a sua linha radicalizada de combate ideológico.

A catarse dessa expressão, contudo, foi interrompida pela pandemia de Covid-19. Com centenas de milhares de mortos pela doença no país, a postura agressiva e negacionista de Bolsonaro, firme opositor do isolamento social e da vacinação, afugentou a maioria dos eleitores moderados e mesmo parte daqueles que haviam aderido à radicalização do grupo do então presidente.

Os resultados de pesquisas qualitativas do instituto Travessia mostraram que a má gestão da pandemia no Brasil deixou, além das sequelas econômicas, um misto de traumas gerados pela perda de entes queridos, problemas psicológicos e perda de esperança em relação ao futuro do país. Na prática, foi a responsável por gestar uma profunda frustração social — antes não admitida.

Lula, Bolsonaro e a frustração

Antes de tudo, é preciso pontuar que a lógica da polarização ganhou tração extrema quando, para surpresa geral, um dos políticos mais desgastados pela onda anti-política voltou à cena.

Condenado e preso pela Lava Jato, Lula deixou a prisão em novembro de 2019 e não tardou a recuperar seus direitos políticos, ofuscando maiores rejeições à atuação de Bolsonaro para construir, na condição de opositor, uma dinâmica que retroalimenta as duas lideranças políticas mais populares do país.

Com Lula à espreita, a direita ignorou as crises do governo e reagrupou-se ao redor de Bolsonaro para garantir que o petista não subisse outra vez a rampa do Palácio do Planalto. A rivalidade entre os dois personagens culminou na eleição mais acirrada da história democrática brasileira — menos de três milhões de votos separaram o vencedor do derrotado —, marcada por ódio, violência e afastamento entre familiares, amigos e vizinhos com base em preferências políticas.

O conflito não terminou nas urnas e se reproduziu na depredação do 8 de janeiro de 2023. Baixada a poeira, restou uma espécie de crise existencial. Excetuando-se as claques apaixonadas, o eleitorado brasileiro está, acima de tudo, descrente da política.

A prisão de Bolsonaro por uma tentativa de golpe de Estado e a má herança de seu governo transformaram-no, para o imaginário do eleitor, em um líder incompleto e instável. Lula, por sua vez, não mudou o Brasil como havia prometido e tem índices de desaprovação elevados — cenário incomparável à impopularidade de seus dois primeiros mandatos.

Em 2024, as eleições municipais revelaram que a calcificação desses dois polos não representa o anseio popular majoritário. A esquerda teve desempenho pífio nas capitais e cidades onde há segundo turno, enquanto o bolsonarismo não prosperou além de acordos com o chamado “centrão”.

O saldo das urnas revelou cansaço da polarização, dos discursos de ordem e da desconexão social perpetrados por ambos os lados. Nas principais cidades do país, os eleitores optaram por governos que funcionavam, políticos de gestão reconhecida e promessas exequíveis. Menos briga, mais entrega.

A lógica apontava para a redução deste processo de polarização. Mas um elemento artificial impede isso de ocorrer. Há uma ‘rua sem saída’, fabricada e imposta, que deixa os brasileiros notadamente desesperançosos e deprimidos com a política. As pesquisas qualitativas evidenciam o desejo de encontrar alternativas à dualidade Lula-Bolsonaro.

Há uma estratégia dos dois polos para dividir a sociedade brasileira entre a direita radical e o progressismo ‘woke’, excluindo outras orientações da equação.

O exagero nas penas aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal aos participantes do 8 de janeiro, a punição severa a Jair Bolsonaro, as provocações de Eduardo Bolsonaro nos EUA, a defesa petista dos regimes da Venezuela e Irã e os discursos inflamados pró-Brics de Lula são exemplos da sopa de factóides e narrativas que retroalimentam as duas forças protagonistas dessa dualidade — e intoxicam o eleitor.

Estrategicamente, lulismo e bolsonarismo duelam para preservar o ambiente de calcificação e restringir a ascensão de alternativas. O que deveria se limitar aos dois grupos ganhou aderência dos marqueteiros políticos, que reduzem discursos de candidatos à mera adesão a um dos lados.

Os grandes grupos de comunicação superestimam as pesquisas estimuladas presidenciais — produzidas em escala industrial desde o final da eleição anterior —, informando a falsa realidade de que Lula e Bolsonaro são as únicas alternativas nacionais. No trabalho em pesquisas de opinião, é nítido o distanciamento nas posições do eleitorado estimulado ou não pela apresentação desses nomes.

O fim dos mitos

Parte majoritária do eleitorado descobriu que Jair Bolsonaro é um homem público despreparado, desequilibrado emocionalmente e não tem postura de liderança — ainda que muitos se identifiquem com seus hábitos e atitudes ‘mundanos’.

Os mais pobres perceberam que a transformação social do início do século não voltará a ocorrer com Lula. O atual presidente é um senhor desgastado, um político profissional, que não se atualizou e não tem plano definido para o país.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, nada mais é do que a atualização de Jair. O senador reproduz o estereótipo do pai com menos carisma e alguma tentativa de moderação. Excluídos do debate, brasileiros almejam melhores condições econômicas, acesso a serviços de excelência, menos corrupção e segurança para a família. A política, por sua vez, entrega pouco mais do que um teatro de arficialidades.

A polarização não é real, mas a farsa se mantém. Além dos marqueteiros e da imprensa, os pesquisadores também são responsáveis por isso. A ânsia pela antecipação de disputas, estratégias e discursos reduz a realidade brasileira a perfis unidimensionais e infactíveis; ao mesmo tempo, ignora complexidades geracionais, demográficas e econômicas fundamentais para compreender quem são os brasileiros.

Por fim, no tribunal de culpados, está a falta de liderança do centro democrático. Ao contrário das décadas em que liderou a transição democrática brasileira e as políticas de superação da inflação, este grupo prefere crer na existência da polarização calcificada e criticar, intra muros, as preferências do eleitorado.

A percepção é reflexo de uma realidade em que a maioria do políticos não conhecem seu próprio povo. Ao encarar um herdeiro de Bolsonaro como única alternativa à esquerda, oferecendo candidatos espelhados no bolsonarismo como ‘terceira via’, os moderados não fazem nada além de viabilizar a direita radical.

A ausência de players como o ex-ministro Ciro Gomes e os governadores do Paraná, Ratinho Júnior, de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, bem como a falta de interesses públicos superiores a acordos governamentais, esvaziou este grupo e adiou novamente a expectativa de um projeto presidencial moderado.

Nos demais grupos refratários a Lula, o medo de se contrapor ao bolsonarismo acovarda a apresentação de qualquer alternativa. Aos poucos, tudo caminha para a construção de uma teia em que a sociedade é mera espectadora da história política do país. Cabe a nós mudar isso — ou lamentar o destino.

Renato Dorgan é cientista político e presidente do instituto Travessia. Faz pesquisas qualitativas para partidos, candidatos e mandatários em todas as regiões do país

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por Renato Dorgan

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