Logo

A memória: de Thamus ao Google

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.08.2012 - 19:56:18

Platão conta que Thoth (ou Theuth), um deus que vivia no Egito, inventou os números e a astronomia. Certo dia, Thoth, entusiasmado com uma de suas criações, a escrita, falava a Thamus, soberano do Egito, sobre os benefícios que ela traria ao povo:

– Eis, oh Rei, uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória, pois com a escrita descobri o remédio para a memória!

Cético, Thamus responde:

– Oh, Thot, mestre incomparável, uma coisa é inventar uma arte, outra julgar os benefícios ou prejuízos que dela advirão para os outros! Tu, neste momento e como inventor da escrita, esperas dela, e com entusiasmo, todo o contrário do que ela pode vir a fazer. Ela tornará os homens mais esquecidos, pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras (…) Quanto à transmissão do ensino, transmite aos teus alunos não a sabedoria, pois passarão a receber uma grande soma de informações sem a respectiva educação! Hão de parecer homens de saber, embora não passem de ignorantes em muitas matérias e tornar-se-ão, por consequência, sábios imaginários, em vez de sábios verdadeiros.

Tal diálogo é relatado pelo filósofo grego na obra Fedro, escrita há mais ou menos 2400 anos. É fácil perceber a atualidade do texto quando observamos as discussões que ocorrem neste exato momento em todo o mundo em relação às inovações supersônicas da tecnologia contemporânea.

Estudiosos, pensadores e pesquisadores das mais variadas áreas do conhecimento buscam provar que a internet, especialmente buscadores como o Google, podem deteriorar a memória das pessoas, assim como os gregos suspeitavam da escrita.

Afinal, já que tudo o que precisamos está na nuvem computacional, será que precisamos armazenar informações no nosso Hard Disk feito de neurônios? E, no caso da subutilização deste HD biológico, não o estaríamos transformando, para seguir na metáfora, em memória RAM?

Um recente trabalho publicado na prestigiada revista Science tenta dar algumas pistas sobre o que ocorre com a cabeça das pessoas em uma sociedade conectada. Em resumo, o estudo “Os efeitos do Google na memória: as consequências cognitivas de ter a informação na ponta dos dedos” revela que, com a facilidade de obtenção de informações, o cérebro simplesmente se despreocupa em retê-las.

Os pesquisadores apontam uma “simbiose” entre seres-humanos e computadores. “Estamos nos tornando dependentes deles no mesmo grau em que dependemos de todo o conhecimento que adquirimos com nossos amigos e colegas de trabalho – e perdemos este conhecimento se não temos acesso a eles”, diz o texto publicado na Science.

No livro “Como a geração Net está mudando o mundo”, do pesquisador canadense Don Tapscott, há um olhar interessante sobre o impacto da internet na nossa forma de ser. Tapscott concluiu que “nos tornamos muito mais digitais” à medida em que equipamentos como os smartphones se popularizam. “A geração atual assiste menos TV e faz outras coisas enquanto assiste”, diz o pesquisador. O resultado é que os n-geners, como ele chama esta geração, é multitarefa.

Essa multiplicidade de atividades, contudo, não é vista com bons olhos por muitos estudiosos do comportamento humanos. Para alguns deles, os jovens de hoje são incapazes de se concentrar e de aprofundar os conhecimentos. Seriam eles vítimas do alto volume de informação sem a devida educação, para voltarmos à preocupação central do Rei Thamus: haveria o afloramento de uma geração de “sábios imaginários”.

Só será possível comprovar as verdadeiras consequências da hiperconectividade com o passar dos anos. Até agora, o que existem são previsões baseadas em fenômenos ainda muito recentes e em constante mutação. Mas, de uma coisa, já temos certeza: a previsão do monarca egípcio relatada por Platão não se concretizou; ao contrário, a escrita só contribuiu para o aprofundamento e disseminação do conhecimento.

Talvez o Google não tenha a mesma capacidade, mas as previsões catastróficas parecem, como diz a canção, coisa de quem ama o passado e não vê que o novo sempre vem.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]