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A liberdade é muito perigosa

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20.03.2013 - 22:14:32

Amavam-se ou acreditavam amar-se ou amavam o próprio amor e concordavam em amá-lo, embora em tudo o mais discordassem. Discordavam, por exemplo, quanto aos animais de estimação. Ela jamais conseguiu convencê-lo a ter um cão. Por mais que argumentasse elencando as qualidades caninas, ele retrucava dizendo que os donos, para saldar tamanha e desinteressada fidelidade, eram para sempre escravos acorrentados às coleiras de seus cães. Tantas obrigações teriam. Seriam levados a passear todos os dias. E como fariam quando viajassem? Eram um solitário casal sem filhos na grande cidade cerrado.
 
Por que não criavam um passarinho? Ele há de morrer de solidão – ela dizia. Compramos logo um casal e eles nos acordarão cantando nas nossas manhãs de domingo. Mas ela cantava um desafinado não. Nada tão triste quanto pássaros em gaiolas, eles que nasciam com asas como destinação, não poderiam nunca exercitá-las. Que crueldade. A prisão não é menos dolorosa a dois. Pois ele lhe dizia que os pássaros por aí vendidos são todos nascidos em cativeiro, nada conhecem além do cárcere do ovo, jamais gozaram da liberdade do voo, por isso não sofrem. Pois se você nasceu com pernas, seria justo que te metessem num lugar apertado onde só pudesse se arrastar com uma serpente? Se ao meu lado deslizasse uma sinuosa cobrinha, eu bem que gostaria. E as discussões sempre acabavam em ranger de dentes e, pouco depois, no ranger dos pés da cama.
 
E foi assim por sete anos, sete anos servidos de ração àquele amor guloso e imperfeito como são todos os amores, como é tudo que vem do peito humano. Até que um dia, tendo ido os dois ao aniversário do filhinho de um casal de amigos, ganharam um souvernir um pouco estranho. Como a festa tivesse sido decorada com a temática de peixes e animais marinhos – Procurando Nemo era o tema mais procurado naqueles tempos – cada um dos convidados levou pra casa um peixinho colorido caprichosamente ensacado e umedecido.
 
Ela voltou pra casa aborrecida, segurando o incômodo saquinho, adornado com uma foto do rostinho sádico do menino aniversariante, e ao mesmo tempo consolada por não ter sido o tema da festa a Galinha Pintadinha. Depositou a desgraciosa lembrancinha no vaso de cristal da Bohemia que haviam ganhado de presente de casamento. No dia seguinte, porém, amanhecendo melhor de humores, contemplou da transparência as cores do peixinho. Afeiçoou-se a ele e se animou com a ideia de comprarem um bonito aquário.  Pois ornaria muito bem a sala clean. Aquários não pesam e poluem o ambiente. Combinaria com a mesa de metal e vidro, com o blindex das janelas e até com as telas que valorizavam as paredes vazias.
 
Qual o que?! Pois se você acha injusto manter seres que voam entre grades, considera menos cruel confinar um ser que nada? O oceano não é infinito como o céu, mas também é vasto. Não é a mesma coisa, não venha dizer isso. Com a transparência do vidro, os peixes creem que tudo lá fora é mar ou rio. Ah, não me diga – ele debochava. Experimente deixar esse vaso sem uma tampa por mais algumas horas. Quando criança, você ganhou peixinhos de presente na escola? Na minha era costume dar pequenos animais indefesos aos alunos que tinham boas notas. Todos os anos eu levava pra casa a minha cota de orgulho e morte. Feliz da vida – as crianças são sádicas ou desmemoriadas – eu o colocava num balde, adormecia e logo ao acordar ia conferir meu prêmio merecido, já não o encontrando ali. Mais adiante, dava com a espinhazinha ressequida no cimento frio e, sem remorsos, alimentava o gato. O pobre peixinho dourado havia saltado do balde à procura do curso de água mais próximo, no caso o ralo do banheiro ou da cozinha. Peixes presos vão atrás da corrente e cometem suicídio. Ora, você é um tolo. Eles não perseguiam a liberdade, apenas buscavam fora daquele balde o oxigênio que já tinha se esvaído. Num aquário verdadeiro, a água é continuamente oxigenada.
 
Demoraram boas horas em tal discussão em torno do nada e do mesmo. Ao final, ela já havia gritado, esperneado, se trancado no quarto, pedido a separação, estava prestes a ir embora. Depois de bater em vão à porta, ele assentiu que comprassem um aquário, o maior, o melhor, o mais caro deles, onde poderiam criar não só aquele solitário peixinho, mas uma fauna aquática inteira. Que tal um polvo, minha sereia? Finalmente, ela, vitoriosa, se dignou a torcer a maçaneta. Sim, você tem razão. Não é justo manter o pobrezinho preso. Vamos libertá-lo. Será que é de água doce? Com certeza. Mas a festa não era sobre as criaturas do mar? Sim, só que isso é só um detalhe. Peixes cativos não são tão exigentes com o sabor da água. E onde vamos soltá-lo? Que tal o lago?
 
Colocaram o peixinho mais uma vez num saco plástico e lá foram eles para a o grande lago da grande capital cerrado. Ele deixou que ela se ocupasse da libertação. Escolheram o melhor ponto, onde as águas estavam mais claras. Uma mãozinha segurava o saquinho, a outra apertava firme a dele. Antes de despejar seu conteúdo, eles se olharam profundamente nos olhos, como que num ritual que renovasse as promessas de união. Delicadamente ela entregou ao animalzinho a seu novo e definitivo lar. Mas eis que segundos depois de mergulhá-lo na natureza vasta, antes que se pudessem mover as frágeis nadadeirazinhas, para o reconhecimento do território de sua liberdade, veio uma grande carpa e o comeu.

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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