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A jovem senhora quer viver

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29.10.2012 - 11:38:21

Goiânia, 29 de outubro

Prezado prefeito Paulo Garcia,
 
Como o senhor bem sabe, no último dia 24 de outubro comemoramos o aniversário de Goiânia. Foi bonito ver nas ruas da cidade e também nas redes sociais a movimentação dos goianienses, que não hesitaram em manifestar seu amor pela capital. Entretanto, nem só de alegria foi marcada a data.
 
Muitas pessoas também demonstraram sua insatisfação com vários problemas da cidade. Como bom neurocirurgião preocupado com a saúde de seus pacientes, gostaria de convidá-lo para examinar de perto esta senhora de 79 anos, cuja saúde requer diversos cuidados e atenção especial. 
 
Goiânia está com seus pulmões comprometidos. As frondosas árvores que sempre marcaram suas vias públicas são vítimas de podas e extirpações agressivas, que devastam o belo cenário verde ao qual a população estava acostumada e tornam o clima ainda mais árido e quente do que de costume.
 
O sangue que corre pelas veias da cidade está contaminado. Os rios, córregos e nascentes que a irrigam sofrem com a degradação ambiental. Além de terem suas matas ciliares destruídas, os mananciais também são vítimas da poluição, recebendo toda a sorte de dejetos e até de mesmo de esgoto in natura.
 
As artérias da capital estão obstruídas. Suas ruas e avenidas tornaram-se pequenas para comportar a frota gigantesca de veículos, que já passa de 1 milhão. Padecem aqueles que precisam dirigir seus próprios carros e motos, e ainda mais aqueles que dependem de um transporte público precário e defasado.
 
Goiânia caminha a passos lentos, pois suas pernas estão com a mobilidade comprometida. Quem busca formas alternativas e limpas de locomoção, como os ciclistas e pedestres, encontra grande dificuldade para deslocar-se de um ponto ao outro da cidade. Sobram calçadas impedidas e faltam passarelas e ciclovias. 
 
Os braços da cidade também estão imóveis. Ela tenta abraçar quem nela vive, mas não consegue. Cadeirantes, deficientes visuais e uma série de outros portadores de necessidades especiais não se sentem acolhidos. Embora tentem usufruir de tudo o que Goiânia oferece, muitas vezes são barrados por falta de acesso. 
 
A violência crescente leva a capital a viver de mãos ao alto. Uma tensão permanente toma conta dos cidadãos, vítimas de assaltos, roubos, sequestros e homicídios cada vez mais frequentes. Some-se a isso o preconceito e a intolerância, que fazem dos gays, travestis e transexuais alvos constantes de agressões. 
 
Da boca da cidade quase nada sai. Artistas de diversas áreas tentam se expressar, mas há pouquíssimos projetos e espaços públicos para isso. Sem suporte nem estrutura, alguns têm a sorte de contar com o apoio de iniciativas independentes, e muitos outros acabam tendo de abafar seu talento.
 
O estômago da capital anda fraco. É que ele tem fome de justiça social e se embrulha todo quando vê crianças e jovens em situação de risco, sem nenhum auxílio. Fica revirado quando presencia a quantidade de pedintes nos semáforos e se depara com idosos e dependentes químicos abandonados, vivendo em situação de miséria. 
 
A espinha dorsal de Goiânia está lesionada. O Plano Diretor, que define as diretrizes básicas da cidade, sofre alterações constantes, que geralmente não são adotadas para atender às necessidades da população como um todo, mas para favorecer determinados grupos econômicos.  
 
A memória da cidade anda cada vez mais fraca. O Centro, maltratado, sujo, com seus prédios de arquitetura Art Déco destruídos pelos pichadores e vândalos, expõe o descaso com a história de Goiânia. O bairro de Campinas também não foge à regra e vê, aos poucos, seu patrimônio histórico ser transformado em pó. 
 
O pulso de capital ainda pulsa, apesar de toda a precariedade e falta de estrutura das unidades de saúde. Milhares de pessoas doentes enfrentam filas gigantescas em busca de atendimento médico e de remédios, sem a garantia de que terão suas demandas satisfeitas. O risco de voltar de mãos abanando para casa é grande.
 
No coração da cidade estão seus moradores, que apesar de todos os pesares, não deixam de amar Goiânia e de acreditar que ela pode ser uma capital mais justa e igualitária. Gente que não perde o entusiasmo nem a esperança de viver numa cidade mais acolhedora e humana.  
 
Sei que vários desses problemas não surgiram na sua gestão, prefeito. Sei também que o senhor não é nenhum super-herói, mas apenas um médico que foi escolhido para administrar Goiânia. Assim sendo, a única coisa que peço é que o senhor cumpra o Juramento de Hipócrates e ajude a salvar nossa cidade.
 
Em 2013 Goiânia completará 80 anos. Apesar da idade avançada, ela ainda conserva a alma renovada, cheia de sonhos e de planos. Conto com o senhor para fazer o melhor por esta jovem senhora. Ela não escapou das marcas do tempo, mas quer, com toda força, continuar a viver.  

Atenciosamente,

Fabrícia Hamu  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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