Logo

A excrescência do voto secreto

WhatsAppFacebookLinkedInX
06.06.2012 - 12:07:29

 

Com a iminente votação do processo de cassação do senador goiano Demóstenes Torres, os líderes partidários do Senado resolveram voltar ao debate sobre o voto secreto na casa. Não há nada mais absurdo do que a manutenção desse regime de consulta para um sistema democrático calcado na representação. O eleitor precisa conhecer quais foram as opções de quem colocou no Congresso para saber se está bem representado. É necessário ser publicizado os votos do eleito para ver se aquele cara lá em Brasília está falando a língua de quem o deu suporte, se está pensando mais ou menos como ele. Sem essa possibilidade, o sistema de representação não se sustenta.

 

Os políticos sabem que isso é importante. Quando perguntados, 90% dos senadores dizem ser favoráveis ao voto aberto. No entanto, há dois anos a proposta de fim do sigilo mofa nas gavetas do Senado. A razão? Sei lá, me pergunte algo mais fácil. Mas suponho duas possibilidades antagônicas: 1- eles não aceitam nenhum tipo de pressão do Executivo e querem manter sua independência perante esse poder; 2- o espírito corporativo reina e eles não querem que o eleitor saiba que o interesse público é o último na fila de demais interesses que disputam espaço naquela casa. Qual das duas opções você considera a mais plausível? Pois é.

 

Como um dos senadores goianos está na marca do pênalti, devemos pressionar os outros dois para que apoiem o voto aberto. É notório que Demóstenes deposita toda sua esperança na votação fechada. Ele acredita que pode salvar seu mandato se seus pares não tiverem que mostrar a todos o que pensam. Foi o que aconteceu com a deputada federal também goiana, embora eleita pelo Distrito Federal, Jaqueline Roriz. Seu argumento objetivo era de uma fragilidade constrangedora: o recebimento de 50 mil reais em dinheiro vivo do delator do escândalo que ficou conhecido como “mensalão do DEM”, Durval Barbosa, havia acontecido antes de sua eleição para a Câmara Federal. Logo, ela não poderia ser penalizada por algo que antecedeu sua posse no cargo público. É claro que isso não colou. O que convenceu os deputados a salvarem o pescoço da parlamentar foi o corporativismo. A galera reflete e conclui que se começar a caçar todo mundo, daqui a pouco é a vez dos próprios serem degolados. Esse pensamento é impublicável, lógico. E ele foi a motivação para que Jaqueline conseguisse permanecer com seu mandato.

 

Quanto mais transparente, mais forte a democracia de um país. O acesso a todo tipo de informação pública é direito do cidadão. Promover esse fornecimento, dever do Estado. Logo, o Legislativo deve publicizar como votam seus membros, deixando livre aos cidadãos o entendimento do que motiva cada posição do deputado ou senador. Tomara que dessa vez a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) seja efetivada. Fará um bem danado ao Brasil.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]