Se você pudesse voltar no tempo, mudaria algo na sua vida? Já imaginou como estaria, agora, se tivesse beijado o seu melhor amigo, se aquela paixão arrebatadora da época da faculdade não tivesse acabado, se tivesse passado no vestibular em outra cidade, se não estivesse naquele bar onde conheceu seu marido, se ainda fosse amiga de fulana, se tivesse estudado em outra escola, se não tivesse pedido demisssão do trabalho. Se…
O que faz a vida tão fascinante é justamente essas milhares de posibilidades e portas que se abrem e se fecham todos os dias diante de tantas escolhas.
Fazemos escolhas diariamente, minuto a minuto e a cada uma renunciamos a alguma coisa para ganhar outra.
Muitas vezes erramos, ou achamos que erramos, mas a verdade é que nunca saberemos quais foram as perdas e ganhos de cada escolha. A verdade é que, na vida, não existe certo ou errado. Existem, somente, caminhos.
No seu livro ‘O mundo pós–aniversário’, a escritora Lionel Shriver fala, maravilhosamente bem, sobre o tema. O livro conta a história de Irina, uma ilustradora americana que mora em Londres, com o marido. Estão juntos há mais de dez anos e vivem bem. Até que Irina começa a sentir uma grande atração por um amigo de ambos, um jogador de sinuca que é o oposto do seu marido. Toda a história se desenvolve a partir de um único acontecimento: se Irina tivesse beijado ou não o jogador de sinuca.
Para quem adora histórias maniqueístas, essa definitivamente não é uma. A grande sacada da autora está justamente em fugir dos moralismos e lugares comuns. O fato do beijo acontecer ou não é apenas o ponto de partida para um questionamento maior. Tudo na vida tem consequências, incluindo aquilo que não fazemos.
Toquei no assunto porque lembrei de gente que não assume as próprias escolhas. Sempre tem uma desculpa no bolso, não assume responsabilidades, ama culpar o outro. Casou cedo e separou com três filhos nas costas, culpa do ex–marido. Fez direito e não jornalismo, como gostaria, culpa dos pais. Está gorda, culpa da gravidez. Traiu o namorado, culpa do próprio. Deixou o mercado de trabalho, culpa dos filhos.
Tenho muita preguiça de gente assim, que não se assume na vida. Para essas, não existe terapia que dê jeito. E sendo uma pessoa que sempre assumiu minhas próprias escolhas, prefiro não conviver com mal resolvidos e vítimas em geral. Aos 40, posso me dar a esse luxo.