Samuel Straioto
Goiânia – Partidos do Centrão querem votar na Câmara dos Deputados, ainda em 2026, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que adota o voto distrital misto na eleição de deputados e vereadores em todo o país, o que inclui os 17 deputados federais, os 41 estaduais e os vereadores dos 246 municípios de Goiás.
A transição começaria em 2030, com implantação completa em 2034, e mudaria o caminho até a vaga: em vez de depender da soma de votos do partido, metade dos eleitos precisaria vencer em uma região.
O que a proposta prevê?
A proposta substituiria o sistema proporcional de lista aberta usado hoje na escolha de deputados federais, estaduais, distritais e vereadores. O Senado, que adota o voto majoritário, não entra. O debate ganhou força após as eleições de 2026, em que o PL elegeu 121 dos 513 deputados federais e o Centrão perdeu 22 cadeiras em relação a 2022.
A PEC é liderada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Partidos como PP, PSD, União Brasil, Podemos e PSB defendem a alteração, e Motta afirmou que buscará conversar com a federação PT, PCdoB e Rede, além de PL e Novo. Nos bastidores, PL e PT demonstram resistência.
O texto ainda não foi divulgado. As discussões tomam como referência dois projetos aprovados pelo Senado em 2017, de autoria de José Serra e Eunício Oliveira, e as regras podem mudar até a votação. O número de distritos e a forma de desenhá-los também não estão definidos.
| Sistema atual (proporcional) | Voto distrital misto (proposta) | |
|---|---|---|
| Votos do eleitor | Um voto, em candidato ou partido | Dois votos: um no candidato do distrito e outro no partido |
| Como as vagas são preenchidas | Votos dos candidatos e do partido definem as cadeiras da legenda, ocupadas pelos mais votados dela | Metade por distritos, onde vence o mais votado; metade por lista fechada, definida pelo partido |
| Votos de candidatos derrotados | Ajudam o partido a conquistar cadeiras | No distrito, não são aproveitados pela legenda |
| Puxadores de voto | Podem ajudar a eleger colegas de partido | Na parte distrital, a votação não é transferida a colegas |
| Onde vale | Deputados federais, estaduais, distritais e vereadores |
O que pode mudar em Goiás?
Se metade das vagas for distrital, cerca de oito ou nove dos 17 deputados federais seriam escolhidos por região, e os demais pelas listas. Com 5.081.043 eleitores aptos, cada distrito teria, em média, entre cerca de 565 mil e 635 mil eleitores, se a divisão fosse igual.
Em 2026, Goiás registrou 3.604.976 votos válidos para a Câmara. O mais votado, Bruno Peixoto (União Brasil), recebeu 207.537 votos (5,76%), seguido por Adriana Accorsi (PT), com 176.943 (4,91%), e Fred Rodrigues (PL), com 152.343 (4,22%). O quociente eleitoral, calculado dividindo os votos válidos pelas 17 vagas, fica em torno de 212 mil votos, e nenhum candidato o alcançou sozinho. A última vaga ficou com Fábio Sousa (PL), com 43.643 votos (1,21%).
Candidatos com votação concentrada em uma região, como ex-prefeitos e lideranças locais, podem ganhar competitividade. Quem tem votos espalhados por várias cidades pode depender mais da posição na lista do partido.
Para o cientista político Rodrigo Andrade, o modelo pode mudar a lógica das campanhas e favorecer candidatos que já possuem uma relação política consolidada com determinado território.
“Um candidato que construiu sua trajetória em uma cidade ou em uma região específica pode encontrar no voto distrital uma oportunidade de transformar essa presença local em representação política. Por outro lado, quem constrói sua votação a partir de diferentes municípios, sem uma concentração territorial, pode enfrentar mais dificuldades. Isso não significa necessariamente que terá menos votos, mas que precisará compreender como sua votação se encaixa na divisão dos distritos e nas regras de distribuição das vagas.”
Defensores do modelo apontam campanhas mais baratas e maior proximidade entre eleito e eleitor. Críticos citam o risco de enfraquecer minorias políticas, a possibilidade de manipulação dos limites dos distritos e o poder maior das direções partidárias.
Na avaliação de Andrade, a principal preocupação está na maneira como os distritos serão organizados e nos efeitos dessa divisão sobre a representação política em Goiás.
“A discussão não pode se limitar à mudança na forma de votar. É preciso observar como os limites territoriais serão definidos, quais regiões terão representação e se o desenho dos distritos vai garantir equilíbrio entre capital, região metropolitana e interior. Dependendo de como isso for feito, determinadas bases eleitorais podem ganhar força, enquanto outras podem perder espaço. Por isso, é fundamental que a proposta considere a realidade de cada região e não comprometa a pluralidade da representação.”
O que pode não mudar?
A metade das cadeiras ocupada pelas listas continuaria dependendo do desempenho dos partidos. Candidatos populares com base territorial definida também podem seguir competitivos, já que a vitória no distrito depende apenas dos votos da região.
A eleição de 2026 como ponto de partida
Na Câmara dos Deputados, Goiás registrou 3.604.976 votos válidos. O mais votado, Bruno Peixoto (União Brasil), recebeu 207.537 votos (5,76%), seguido por Adriana Accorsi (PT), com 176.943 (4,91%), e Fred Rodrigues (PL), com 152.343 (4,22%). O quociente eleitoral, calculado dividindo os votos válidos pelas 17 vagas, fica em torno de 212 mil votos, e nenhum candidato o alcançou sozinho. A última vaga ficou com Fábio Sousa (PL), com 43.643 votos (1,21%).
Na Assembleia Legislativa, o cenário é mais fragmentado: 16 siglas elegeram os 41 deputados estaduais. O MDB conquistou a maior bancada, com sete cadeiras, seguido pelo PL, com cinco, e por PT e União Brasil, com quatro cada. A mais votada foi Carol do Amiltinho (MDB), com 109.002 votos (3,00%), seguida por Fabrício Rosa (PT), com 81.540 (2,24%), e Issy Quinan (MDB), com 73.433 votos (2,02%).
O quociente eleitoral estadual fica em torno de 89 mil votos, e só Carol do Amiltinho o superou sozinha. Doze dos 41 eleitos receberam menos de 1% dos votos válidos, e a última vaga ficou com Neto Karfan (Novo), com 18.628 votos (0,51%). Ao menos 21 dos 41 deputados foram reeleitos.
Quadro: bancadas eleitas em Goiás em 2026
| Partido | Deputados federais | Deputados estaduais |
|---|---|---|
| MDB | 2 | 7 |
| PL | 4 | 5 |
| União Brasil | 3 | 4 |
| PT | 2 | 4 |
| PRD | 1 | 3 |
| Mobiliza | 0 | 3 |
| PSD | 2 | 2 |
| Podemos | 1 | 2 |
| Agir | 0 | 2 |
| PSDB | 0 | 2 |
| Novo | 0 | 2 |
| PP | 1 | 1 |
| Republicanos | 1 | 1 |
| Cidadania | 0 | 1 |
| PSB | 0 | 1 |
| Solidariedade | 0 | 1 |
| Total | 17 | 41 |
Fonte: Justiça Eleitoral