A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse tema no centro das decisões nacionais.
O Brasil envelhece rapidamente. O Censo de 2022 mostrou que o país tinha 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, número 57,4% superior ao registrado em 2010. Não se trata de uma pauta para o futuro. Precisamos agir agora em áreas como prevenção em saúde, assistência social, acessibilidade, inclusão digital, habitação, mobilidade, proteção patrimonial e apoio às famílias cuidadoras.
O presidente Lula recebeu nas urnas legitimidade para propor e executar novas políticas públicas. Essa legitimidade, porém, vem acompanhada da responsabilidade de apresentar resultados. Desde sua primeira posse, em 2003, foram mais de duas décadas nas quais Lula exerceu diretamente a Presidência ou ocupou posição central de influência em seu campo político. A criação do ministério oferece a oportunidade de corrigir omissões e insuficiências acumuladas durante esse período.
Há fragilidades concretas a enfrentar. Auditoria do Tribunal de Contas da União identificou que a política federal de prevenção a golpes digitais contra pessoas idosas é fragmentada, descontínua e desprovida de diretrizes estratégicas claras. O TCU também apontou ausência de campanhas nacionais específicas e dificuldades de coordenação entre órgãos públicos, instituições financeiras e empresas de telecomunicações.
Na saúde, o cenário também exige reação. Debate promovido pelo Conselho Nacional de Saúde em 2026 destacou que cerca de 2,9 milhões de pessoas idosas vivem com demências no Brasil e que aproximadamente 80% dos casos não estão diagnosticados. Milhões de famílias enfrentam praticamente sozinhas a sobrecarga física, emocional e financeira do cuidado prolongado.
O novo ministério somente fará sentido se ajudar a superar essa fragmentação. Não basta criar cargos, organogramas ou uma nova estrutura em Brasília. A pasta deverá nascer com competências bem definidas, orçamento transparente, metas mensuráveis e capacidade de coordenar ações hoje dispersas entre saúde, assistência social, previdência, educação, direitos humanos e segurança pública. Também deverá trabalhar em parceria com estados, municípios, universidades, conselhos de direitos e organizações da sociedade civil.
Em Goiânia, tenho procurado contribuir de forma concreta para essa agenda. Sou coautora do Projeto de Lei 85/2025, que institui a Política Municipal de Atenção Integral ao Idoso e de Fomento ao Envelhecimento Saudável. A proposta estimula a criação de centros municipais voltados à saúde preventiva, à convivência, à inclusão digital, ao acompanhamento multidisciplinar e à proteção de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade.
Essa experiência reforça uma convicção: o cuidado acontece no município, perto da casa das pessoas. Um Ministério do Idoso deverá apoiar as cidades com recursos, orientação técnica e programas permanentes, respeitando as diferenças regionais. Não pode concentrar decisões em Brasília nem substituir estruturas que já funcionam. Sua missão deve ser integrar esforços e fazer as políticas chegarem à ponta.
A iniciativa do presidente merece reconhecimento, mas também acompanhamento rigoroso. Apoiar uma boa proposta não significa oferecer um cheque em branco. Caberá ao Congresso, aos órgãos de controle e à sociedade fiscalizar custos, impedir sobreposições e cobrar resultados que possam ser percebidos na vida cotidiana.
O envelhecimento não tem partido. Governo e oposição precisam romper a polarização estéril e construir uma política de Estado para a longevidade. Se o futuro ministério for criado com planejamento, participação social e compromisso com resultados, contará com meu apoio. Mais importante que o nome da estrutura será sua capacidade de assegurar autonomia, respeito, proteção e qualidade de vida a quem tanto contribuiu para o Brasil.
Rose Cruvinel é médica pediatra, sanitarista, especialista em Políticas Públicas e vereadora por Goiânia
