Logo

Livro de Nelson Motta revela juventude de Glauber Rocha

WhatsAppFacebookLinkedInX
28.09.2011 - 11:32:49


Nelson Motta foi um dos jornalistas que, em 1964, assistiram assombrados à pré-estreia de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", vertiginoso exercício que se tornaria a obra máxima do cineasta Glauber Rocha. "Então com 25 anos, ele era um homem que impressionava pela inteligência e pela forte presença", lembra-se Motta, que iniciou ali uma amizade que durou até a morte do diretor, em 1981. "Conheci bem essa segunda fase de sua vida, mas me interessava a primeira, ou seja, a juventude." A curiosidade o levou às pesquisas e, depois de vários anos, Motta conseguiu concluir "A Primavera do Dragão", que a editora Objetiva lança nesta semana.

Trata-se de uma detalhada descrição em tom romanceado dos anos verdes do cineasta que passou como um furacão pelas artes brasileiras, deixando rastros que modificaram e influenciaram carreiras diversas. Colunista do jornal O Estado de S.Paulo, Motta relata desde o nascimento de Glauber, em 1939, quando quase matou sua mãe no parto, até a consagração no Festival de Cannes de 1964, onde, apesar de não levar nenhum prêmio relevante, conquistou prestígio e consolidou seu nome como um dos principais diretores do mundo naquela época.

Nelson Motta conta que o próprio Glauber não gostava de lembrar de seu passado, preferindo sempre tratar de projetos futuros. "Com isso, ele escondia histórias maravilhosas", observa. Como a da precocidade intelectual – ainda moleque, ele impressionava os professores ao discutir sobre Nietzsche. A escola, aliás, era um palanque para sua rebeldia, traduzida nos virulentos discursos contra a forma como era praticado o ensino.

Mais curiosas, no entanto, são as histórias envolvendo o início de sua carreira cinematográfica. "Barravento", seu primeiro longa-metragem, rodado em 1963, teve a providencial ajuda de outro cineasta, Nelson Pereira dos Santos, considerado o iniciador do Cinema Novo com "Rio 40 Graus" – diante do desespero de Glauber na sala de montagem, ele conseguiu alinhar as cenas de forma a terem coerência.

O filme foi dublado no Rio de Janeiro e, como não havia verba suficiente para levar os atores originais, "Barravento" ficou com as vozes da catarinense Edla van Steen e dos cariocas Norma Bengell e Jece Valadão. Glauber, no entanto, esqueceu de levar as anotações sobre os diálogos que, por terem sido improvisados, não batiam com os do roteiro. A solução foi contratar um surdo-mudo craque em leitura labial. "Pena que o surdinho fosse carioca e não entendesse o 'baianês' dos atores", escreve Motta. "Só a chegada de um deficiente auditivo baiano permitiu que os diálogos fossem recuperados e dublados."

A odisseia que marcou a realização de "Deus e o Diabo", no entanto, ocupa boa parte do livro – e com justiça. Financiado por um playboy da sociedade, Gugu Mendes, interessado em ver sua namorada, a atriz Yoná Magalhães, no elenco, o filme que se tornaria um marco do cinema mundial foi rodado em Monte Santo, no sertão da Bahia, onde a filmagem foi acidentada. Afinal, logo no primeiro dia, a lente da câmera se quebrou, provocando um atraso de quatro dias na produção.

O mais difícil foi contar com o apoio da população local para trabalhar como figurantes. Além de supersticiosos (temiam Antônio das Mortes), funcionavam melhor quando recebiam algo em troca, como latas de leite em pó. "Tudo conseguido por Gugu, que desviara do escritório político do pai", diverte-se Motta. O aliciamento, aliás, era providencial pois, ao constatar que uma das principais cenas – a da multidão de fanáticos – ficara inutilizada por defeito da câmera, Gugu rifou duas máquinas de costura no povoado, o que atraiu mais interessados que os participantes da primeira rodagem.

Encerrado a tempo de ser inscrito para o Festival de Cannes, "Deus e o Diabo" precisava, para isso, ser legendado em francês. Descontente com a primeira versão, clássica e rebuscada, Glauber que estava em Paris, contou com a ajuda de Vinicius de Moraes, que adorou o filme. O livro termina com a consagração do longa, mesmo sem nenhum prêmio. "Eu preferi escrever sobre a juventude de Glauber por ser uma fase mais feliz de sua vida", conta Motta que iniciou o projeto em 1989, quando entrevistou amigos de Glauber que ainda estavam vivos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. (Agência Estado)

Primavera do Dragão – Autor: Nelson Motta. Editora: Objetiva. Preço: R$ 56,90 (368 págs.)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Redacao Jornal

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Cultura
17.10.2026
Capital da Boa Mesa vai premiar quem mostra a força da gastronomia goianiense

A Redação Goiânia – O Sindicato de Bares e Restaurantes de Goiânia (Sindibares) promove o 1º Prêmio de Comunicação Goiânia, Capital da Boa Mesa, que distribuirá R$ 75 mil em premiações, sendo R$ 15 mil por categoria. As inscrições são gratuitas e estarão abertas até 20 de novembro, conforme as regras do regulamento. Com o tema […]

Literatura
17.10.2026
Livros ajudam a compreender a diversidade histórica e cultural, afirma Narcisa Cordeiro

Jales Naves Especial para o jornal A Redação Goiânia – “Meus livros são parte de um esforço permanente para compreender Goiás em sua diversidade histórica, cultural, territorial e humana”, afirmou a arquiteta e pesquisadora Narcisa Abreu Cordeiro ao falar sobre “Histórias Escritas e a importância da Leitura” no projeto idealizado por Rômulo Vaz, ‘Café com […]

História
17.10.2026
Mineira, Alvina Naves, tecelã e cozinheira, fixou-se em Porangatu

Jales Naves Especial para o jornal A Redação   Goiânia – Tecelã que transformou fios em tecidos no entrelaçamento de tramas e urdiduras em teares manuais, Alvina Rosa Naves, mineira de Nova Ponte, também se revelou na cozinha, sendo elogiada por seus trabalhos, em especial nas festas religiosas da época, quando produzia os doces e […]

Dança
17.10.2026
Basileu França é destaque em competição internacional de balé

A Redação Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França terá a maior delegação da última seletiva brasileira do Youth America Grand Prix (YAGP), uma das principais competições internacionais de balé para jovens bailarinos. Ao todo, 56 alunos da instituição participam da etapa, realizada de 20 a 24 de outubro, em […]

Lazer
17.10.2026
Goiânia recebe corrida que une esporte e música sertaneja

Ludymila Siqueira Goiânia – A Capital goiana vai receber, no dia 6 de dezembro, uma corrida que une esporte e música sertaneja em um percurso de 6 quilômetros em cinco ondas de largada. O Complexo Serra Dourada vai ser o ponto de concentração, que ao final, irá receber o show da dupla Matheus e Kauan. […]

GOIÂNIA
16.10.2026
Instituto Rizzo prepara 18ª edição da Cantata de Natal com atrações gratuitas

A Redação Goiânia – Os preparativos para as celebrações de Natal do Instituto Rizzo, em Goiânia, que neste ano chega à 18ª edição, estão a todo vapor. No dia 27 de novembro, das 16h às 22h, uma série de atrações vai emocionar o público. A entrada é gratuita. A expectativa é receber mais de 2 […]

Cultura
16.10.2026
Basileu França apresenta segunda temporada do balé “Dom Quixote” em Goiânia

A Redação Goiânia – A Cia Jovem Basileu França apresenta o balé “Dom Quixote”, inspirado na clássica obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, neste final de semana (17/18), às 20h, no sábado, e às 16h, no domingo, em Goiânia. Os ingressos estão à venda pela plataforma Sympla, por R$ 35, mais R$ 3,99 de taxa […]

Teatro
16.10.2026
Aparecida de Goiânia recebe o espetáculo “1888” em três espaços culturais

A Redação Goiânia – O município de Aparecida de Goiânia recebe o espetáculo “1888”, nos dias 22, 23 e 24 de outubro, em três espaços culturais. As apresentações são gratuitas e integram a Temporada 1888 – Dramaturgia Afro-Latinoamericana. O projeto propõe uma reflexão sobre as memórias afro-brasileiras e latino-americanas, abordando temas como a escravidão, as violências […]