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Livros ajudam a compreender a diversidade histórica e cultural, afirma Narcisa Cordeiro

Pesquisadora participou do projeto ‘Café com Leitura’

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17.10.2026 - 17:34:47

Jales Naves
Especial para o jornal A Redação

Goiânia – “Meus livros são parte de um esforço permanente para compreender Goiás em sua diversidade histórica, cultural, territorial e humana”, afirmou a arquiteta e pesquisadora Narcisa Abreu Cordeiro ao falar sobre “Histórias Escritas e a importância da Leitura” no projeto idealizado por Rômulo Vaz, ‘Café com Leitura’, do Armazém do Livro, na manhã deste sábado (17/10). “O plano original nos ajuda a compreender os fundamentos de Goiânia. Os pioneiros nos revelam as pessoas que participaram de sua construção. A genealogia nos aproxima de suas origens familiares”, disse. “A história das instituições e das regiões amplia nossa compreensão do estado. E o reconhecimento da dimensão ambiental nos ajuda a pensar o futuro da capital”.

Quando esses conhecimentos são reunidos, “percebemos que cada livro pode abrir caminhos para outros estudos e que cada pesquisa contribui para iluminar uma parte de nossa história”. “Mas há algo que considero essencial: não podemos deixar que as luzes de uma geração se apaguem sem fazer o possível para preservar sua memória. É essa responsabilidade que me move na coleção “Ruas e Pioneiros”. É essa busca que sustenta minhas pesquisas sobre Goiânia e Goiás. E é essa convicção que compartilho com meus parceiros, com minha família, com os leitores e com todos aqueles que compreendem a importância de preservar a história”.

Porque “conhecer nossas origens é valorizar nosso patrimônio”, frisou. “Preservar a memória é reconhecer as pessoas que nos antecederam. E transmitir esse conhecimento é oferecer às novas gerações a oportunidade de compreender melhor a cidade em que vivem e a história que também lhes pertence”, ressaltou.

Narcisa Cordeiro (Foto: Luiz Fernando Moraes)

Compreender Goiás
Ao agradecer a oportunidade de compartilhar uma parte importante de sua trajetória como arquiteta, urbanista, escritora e pesquisadora, Narcisa apresentou os livros que escreveu, pesquisou e organizou ao longo dos anos. “E as ideias que surgiram desse trabalho me levaram a compreender Goiás e, especialmente, Goiânia, por meio de uma rede de relações históricas, culturais, humanas e urbanísticas”.

 Sua produção reúne atualmente 45 edições, entre livros de sua autoria e trabalhos desenvolvidos em colaboração. “São publicações que abordam cidades, personagens, instituições, famílias, acontecimentos e diferentes aspectos da formação de nosso estado”. Ao observar esse conjunto percebeu que os livros, embora tratem de assuntos diversos, não estão isolados. “Eles se complementam, revelam conexões e nos ajudam a compreender como se formou a identidade de Goiás e de sua capital”.

Dedicação
“Existe um eixo fundamental em minha trajetória que desejo destacar: minha dedicação, durante muitos anos, ao estudo do plano urbanístico original de Goiânia”, sublinhou. Como arquiteta e urbanista, sempre considerou essencial compreender não apenas como a cidade cresceu, mas quais ideias orientaram sua concepção, quais princípios lhe deram identidade e como esses fundamentos foram sendo transformados ao longo do tempo.

Foi dessa preocupação que nasceu seu livro “Goiânia — Evoluções do Plano Urbanístico Original”, publicado em 1989. “Dediquei muitos anos de pesquisa à gênese do plano da capital, procurando compreender suas origens, seus fundamentos e as transformações ocorridas em seu desenvolvimento”.

Essa obra recebeu um reconhecimento que considera muito significativo. Conforme a referência que lhe foi atribuída, o livro foi considerado um divisor de águas em avaliação relacionada à Associação Nacional de História, pelo arquiteto Milton Medeiros, pós-doutor. “Esse reconhecimento ressalta a importância de estudar Goiânia a partir de seus fundamentos urbanísticos”.

Em 1990, publicou, em parceria com Norma Alice Queiroz, o livro “Goiânia — Embasamentos do Plano Urbanístico Original”, pesquisa que integrou o dossiê de tombamento de 23 importantes edifícios art déco da capital, contribuindo para a fundamentação histórica e urbanística do reconhecimento desse patrimônio.

Esses dois livros representam referências importantes em sua trajetória. “Eles mostram que meu trabalho sobre a identidade de Goiânia não começou agora: é resultado de uma dedicação de muitos anos ao conhecimento da cidade, de sua concepção original e dos valores que precisam ser preservados”.

Dimensão ambiental
Em seu depoimento, ela ressalta que uma das questões que mais lhe interessam nesse estudo é a dimensão ambiental da capital. “Goiânia nasceu com uma concepção urbanística que atribuía importância aos bosques, aos parques e às áreas verdes. Essa relação com a natureza integra sua identidade e precisa ser considerada quando pensamos em seu desenvolvimento”.

Nesse contexto se insere o projeto ‘Goiânia Cidade Vida Verde’, que propõe valorizar o patrimônio ambiental da cidade e fortalecer a integração entre urbanismo, natureza, qualidade de vida e identidade urbana. “Acredito que conhecer o plano original é também compreender a responsabilidade que temos diante do futuro. Uma cidade precisa evoluir, mas deve procurar preservar os valores que lhe deram singularidade”.

Paralelamente a esse trabalho, suas pesquisas se ampliaram para a história de Goiás, suas instituições, seus personagens e suas diferentes regiões. Destacou duas coleções que representam especialmente esse esforço: “Goyaz Profundo”, desenvolvida em parceria com Bento Jaime Fleury Curado e sua filha, que já reúne 18 volumes; e “Ruas e Pioneiros”, que idealizou, com coordenação de Ubirajara Galli e participação de diversos convidados. A coleção já conta com mais de 13 volumes dedicados à história das ruas e de seus personagens, especialmente na região central de Goiânia.

A coleção “Goyaz Profundo” contribui para recuperar e valorizar a história regional, enquanto “Ruas e Pioneiros” revela as pessoas e as trajetórias que participaram da formação da capital.

Conhecer a história
Em parceria com Galli, Narcisa realizou pesquisas sobre duas instituições importantes da antiga capital: a Escola de Farmácia e Odontologia da Cidade de Goiás e o Hospital São Pedro de Alcântara, em trabalho dedicado aos seus 200 anos. Essas publicações ajudam a reconhecer que a história de Goiânia começou muito antes da construção de seus primeiros edifícios. A antiga capital possuía instituições de ensino, experiências profissionais e uma tradição intelectual que contribuíram para a formação de pessoas qualificadas.

A Escola de Direito, a Escola de Farmácia e Odontologia e outras instituições faziam parte dessa experiência histórica. Com a transferência da capital, pessoas, famílias e profissionais de diferentes localidades participaram, de diversas maneiras, da formação da nova cidade.

Goiânia também recebeu contribuições de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras regiões. Vieram profissionais, técnicos, construtores e pessoas que trouxeram conhecimentos e experiências fundamentais para a implantação da capital. Campinas, que antecedeu Goiânia e teve papel importante nesse processo, igualmente ofereceu suporte à formação da nova cidade.

Do Rio de Janeiro vieram profissionais envolvidos em diferentes aspectos da construção, incluindo serviços especializados e componentes arquitetônicos e estruturais. Essas participações demonstram que a implantação de Goiânia dependeu de uma rede de conhecimentos que ultrapassava os limites do território goiano.

Diálogo com o mundo
“A concepção da capital dialogou com ideias urbanísticas e arquitetônicas que circulavam internacionalmente”, salientou. Goiânia não pode ser compreendida como uma criação isolada, mas como resultado do encontro entre planejamento, referências culturais, conhecimentos técnicos e experiências humanas. “Por isso, gosto de refletir sobre Goiânia como uma cidade que dialogou com o mundo, sem deixar de reconhecer as raízes goianas que lhe deram sustentação”.

Outra vertente importante de sua produção é a pesquisa de personagens que ajudam a esclarecer diferentes momentos da história regional. Ao estudar figuras como Eurydice Natal e Silva e o brigadeiro Felipe Antônio Cardoso, procurou recuperar trajetórias que se relacionam com a vida cultural, intelectual e política de Goiás. “Cada personagem pode nos conduzir a uma instituição, a uma família, a um acontecimento ou a uma transformação social. Uma biografia, portanto, não é apenas a história de uma pessoa. Ela também pode revelar aspectos da sociedade em que essa pessoa viveu e atuou”.

Narcisa tem procurado ampliar esse olhar para outras regiões do estado, inclusive para o norte goiano, onde encontrou experiências culturais e relações com outras partes do Brasil. Essas pesquisas nos lembram que a história de Goiás não se limita à capital: ela é constituída por diferentes territórios, tradições, instituições e caminhos de circulação de pessoas e conhecimentos.

Nesse ponto, destacou uma contribuição muito especial para a ampliação dessas investigações: o trabalho de genealogia realizado por sua filha, Ana Carolina D’Abreu Carvalho Pires. Sua pesquisa sobre personagens e famílias provenientes de diferentes regiões, incluindo Trindade, Guapó e outras localidades próximas a Goiânia, vem contribuindo para identificar origens familiares, vínculos entre personagens e trajetórias que ajudam a compreender a formação de nossas cidades.

“Esse trabalho estabelece conexões muito valiosas com minhas pesquisas sobre o plano urbanístico original, os pioneiros e a história de Goiânia”, enfatizou. “Enquanto procuro compreender os fundamentos urbanísticos da capital e os processos de sua transformação, a genealogia nos ajuda a investigar quem eram as pessoas que vieram de outras localidades, quais eram suas relações familiares e como suas trajetórias se cruzaram com a história da cidade.

Considerou essa aproximação muito enriquecedora. “A genealogia acrescenta uma dimensão humana à história urbana e permite relacionar o território às pessoas que o ocuparam, às famílias que nele se estabeleceram e às experiências que trouxeram consigo”.

Ruas e pioneiros
Ressaltou a importância e a urgência da coleção “Ruas e Pioneiros”.

Esse projeto tem para ela um significado que ultrapassa a publicação de livros. “Estamos vivendo uma transição entre gerações. Muitos dos pioneiros que conheceram os primeiros tempos de Goiânia já partiram, e outros testemunhos estão desaparecendo com o passar dos anos”, anotou. “Com cada pessoa que parte, corremos o risco de perder uma parcela da memória da cidade: lembranças de acontecimentos, informações sobre famílias, histórias de ruas, costumes e experiências que nem sempre foram registradas nos documentos oficiais”.

“É como se estivéssemos assistindo a uma apagagem de luzes, as luzes de uma geração que participou da construção da cidade e que guarda conhecimentos preciosos sobre suas origens”. salientou. “Eu costumo dizer que estou na esquina do tempo”. “Estou aqui, viva, trazendo comigo lembranças de uma geração anterior à minha. Meus pais foram pioneiros, e muitas das histórias que conheço chegaram até mim por meio da convivência e da memória familiar”.

“Quando penso nos meus netos e nas gerações que virão, pergunto a mim mesma: quantas dessas histórias eles poderão conhecer com a mesma riqueza de detalhes? Quantas informações desaparecerão se não forem registradas enquanto ainda podemos ouvir quem as viveu?”. Essa reflexão a faz compreender a urgência do trabalho.

“A memória oral é preciosa, mas vulnerável. Ela depende da presença das pessoas que testemunharam os acontecimentos e de outras pessoas dispostas a ouvi-las, registrar seus relatos e confrontá-los com documentos, fotografias e outras fontes”. É por isso que considera “Ruas e Pioneiros” uma contribuição tão importante para Goiânia. “Não queremos apenas reunir nomes de ruas ou prestar homenagens. Queremos recuperar trajetórias, compreender origens, registrar experiências e reconhecer a participação das pessoas na construção da cidade.

Uma rua – realçou – não é somente um espaço físico. Ela pode guardar a história de uma família, de um profissional, de uma atividade econômica ou de um acontecimento importante. “Ao pesquisar esses vínculos, transformamos lembranças individuais em patrimônio coletivo”.

Goiânia possui uma condição histórica especialmente significativa: por ser uma capital relativamente jovem, ainda oferece possibilidades de recuperar testemunhos e relacionar personagens, documentos e memórias familiares de seus primeiros tempos. “Essa oportunidade precisa ser aproveitada. Não significa que outras cidades tenham perdido toda a sua memória, mas que precisamos reconhecer o valor de registrar a nossa enquanto ainda dispomos de fontes capazes de esclarecer aspectos fundamentais dessa história”, completou.

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por Bruno Hermano

*Jornalista, formado pela UFG. Editor do jornal A Redação.

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