Carolina Pessoni
Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral do Estado. Décadas depois, o prédio de arquitetura art déco reúne instituições dedicadas à literatura, à preservação da memória, às artes visuais e ao cinema, mantendo uma relação cotidiana com a população.
O espaço abriga o Museu da Imagem e do Som (MIS), a Biblioteca Estadual Pio Vargas, a Biblioteca Braille José Álvares de Azevedo, a Gibiteca Jorge Braga e o Cine Cultura, além de setores administrativos da Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás). No anexo, também funciona o Arquivo Histórico Estadual, dedicado à preservação documental. A diversidade de atividades faz do complexo um dos equipamentos culturais de referência do Estado, com serviços que vão da consulta a acervos à exibição de filmes e à realização de exposições.
Construído na década de 1930, o edifício tem projeto associado ao arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, responsável pelo plano urbanístico original de Goiânia. Sua trajetória acompanha a própria estruturação administrativa da nova capital: além de abrigar a Secretaria Geral, o imóvel recebeu o Fórum e, posteriormente, a Secretaria da Fazenda. Também esteve ligado às atividades técnicas relacionadas à construção da cidade. O conjunto arquitetônico integra o acervo art déco de Goiânia protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
A ocupação cultural começou em 1988, quando a Secretaria de Cultura passou a funcionar no local. A mudança conferiu nova finalidade a uma construção que, até então, estava associada sobretudo às funções administrativas e judiciárias do poder público. A transformação também ampliou as possibilidades de relação entre o edifício e os moradores, que passaram a encontrar ali espaços de leitura, pesquisa, produção e fruição cultural.
Para a secretária de Estado da Cultura, Yara Nunes, a história do prédio ajuda a compreender a importância de sua ocupação atual. Ela destaca o significado de transformar um lugar que já recebeu pessoas em situações difíceis, quando funcionava como Fórum, em um espaço voltado ao conhecimento e à convivência. A ressignificação, segundo a secretária, atribui novos sentidos a uma estrutura que permanece como testemunha de diferentes momentos da história goianiense.
“É um dos primeiros prédios de Goiânia. A forma como ele foi ressignificado, foi um fórum, vinham em momento de dor, de dificuldade, o prédio, como estrutura física, simbolicamente, conseguiram ressignificar o espaço”, afirma Yara.
Complexo cultural em transformação
A localização, ao lado do Palácio das Esmeraldas, reforça a presença do Centro Cultural no conjunto arquitetônico da Praça Cívica. Dentro do edifício, cada unidade oferece uma maneira particular de se aproximar da cultura. O MIS preserva registros da memória audiovisual; a Biblioteca Estadual Pio Vargas mantém seu acervo bibliográfico; a Biblioteca Braille amplia o acesso à leitura para pessoas com deficiência visual; e a Gibiteca Jorge Braga aproxima o público do universo dos quadrinhos. O Cine Cultura, por sua vez, tem programação cinematográfica e curadoria reconhecida pela secretária.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Yara Nunes ressalta que o cinema ocupa um lugar importante na dinâmica do complexo. Após intervenções de restauro e modernização de equipamentos, o Cine Cultura mantém uma programação que atrai público interessado em diferentes propostas cinematográficas. Para a gestora, o conjunto de atividades torna o Marietta um equipamento simbólico para a política cultural goiana, especialmente por reunir, em um mesmo endereço, espaços com vocações distintas e complementares.
Agora, a Secult planeja uma nova etapa de requalificação do prédio. Segundo a secretária, a proposta é ampliar as possibilidades de uso do espaço e oferecer mais conforto aos frequentadores, preservando a atividade cultural durante a execução das intervenções. Entre as mudanças previstas está a ampliação da área expositiva do Museu da Imagem e do Som, que deverá avançar para o prédio da frente e permitir a realização de exposições simultâneas nos dois edifícios.
A reorganização dos espaços também deverá acompanhar a transferência de parte da estrutura administrativa da Secult para o antigo prédio da Procuradoria-Geral do Estado (PGE). A mudança, de acordo com Yara, abrirá áreas para estudo e coworking, além de permitir novas formas de ocupação e convivência. A intenção é ampliar o acesso da população e estimular que o Centro Cultural seja utilizado como lugar de permanência, encontro e compartilhamento de experiências.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
“Vamos ter áreas de estudo, coworking, deixar mais acessível, vai ser um centro cultural ainda mais acessível, com ainda mais espaços para que as pessoas possam usufruir”, explica a secretária.
A previsão apresentada por Yara é iniciar a requalificação nos próximos meses, com a expectativa de concluir os trabalhos até meados de 2027. Ela afirma que o edifício não deverá ser fechado durante as obras e que as atividades continuarão funcionando. A execução e o cronograma, portanto, fazem parte dos planos anunciados pela Secretaria e dependem do andamento das intervenções.
A proposta mantém o desafio de conciliar a preservação de um patrimônio histórico com as necessidades de um equipamento cultural em atividade. A cada nova adequação, o prédio precisa acomodar públicos, serviços e linguagens artísticas diferentes, sem perder as características que o tornam parte da paisagem histórica da capital.
Homenagem
O nome do Centro Cultural homenageia uma das personalidades importantes da literatura e da biblioteconomia em Goiás. Nascida em Hidrolândia, em 25 de setembro de 1934, Marietta Telles Machado construiu uma trajetória que reuniu atuação em bibliotecas, pesquisa, escrita e produção cultural. Foi contista, cronista, poetisa, memorialista, documentarista e ensaísta, além de dedicar parte expressiva de sua vida profissional à organização e à difusão de acervos bibliográficos.

Marietta Telles Machado (Foto: Divulgação)
Sua atuação contribuiu para a formação de leitores e para a estruturação de bibliotecas em Goiás. Ao longo da carreira, trabalhou com acervos e serviços de informação, aproximando livros e conhecimento de diferentes públicos. Sua produção literária também a levou a integrar antologias e a figurar em referências bibliográficas sobre a literatura goiana e brasileira.
Marietta morreu em 1987, aos 52 anos, deixando um legado associado à valorização da leitura, da documentação e da cultura. A escolha de seu nome para o edifício reforça a relação entre a história do espaço e a contribuição de uma profissional que dedicou a vida à organização e à circulação do conhecimento.
