Adriana Marinelli
Goiânia – O som das teclas da máquina de escrever, os cálculos feitos à mão e as idas presenciais ao banco faziam parte, décadas atrás, de uma rotina industrial muito diferente da atual. Foi nesse cenário, em 1981, que Nelson Gomes da Silva Neto começou a construir sua trajetória profissional, muito antes de a inteligência artificial e a digitalização dos serviços bancários transformarem o cotidiano de trabalho. Quarenta e cinco anos depois, aos 60, ele segue na mesma empresa, mas agora trabalha com sistemas digitais e com tudo que a tecnologia oferece.
A inovação mudou o ritmo e os instrumentos do trabalho, mas não apagou o conhecimento que Nelson reuniu ao longo da carreira. Começou muito jovem, prestes a completar 15 anos, atuando como office boy. Hoje, é gestor contábil fiscal da Jalles, agroindústria do setor sucroenergético reconhecida pela produção de açúcar, etanol, bioenergia e outros produtos derivados da cana-de-açúcar. “Comecei fazendo serviços bancários, tudo presencialmente. Em 1983, com a mudança do escritório para a planta industrial, passei a trabalhar como auxiliar de Departamento Pessoal. Em 1986, fui para a área contábil, primeiro como auxiliar e, depois, como analista. Em 1991, assumi a responsabilidade pela contabilidade da empresa, função que exerço até hoje como contador corporativo do Grupo”, resume.
Foto de 1981 mostra Nelson, prestes a completar 15 anos, no primeiro dia de trabalho na Jalles (Foto: arquivo pessoal)
Uma das lembranças mais vivas desse percurso está ligada à chegada do fax à Jalles. “Foi uma festa danada. Todo mundo ficava muito curioso para entender como funcionava. Você colocava o papel de um lado e ele aparecia do outro, o que impressionava as pessoas”, diz. “Depois vieram outras mudanças tecnológicas, como a máquina de escrever elétrica e, mais tarde, a internet, que, no início, era muito difícil de conectar. Com a chegada do e-mail, a comunicação também mudou. Antes, a gente dependia do telefone ou de cartas. Ficou muito mais fácil trocar arquivos e informações. A internet trouxe um avanço enorme. As operações financeiras da empresa passaram a ser feitas digitalmente, sem a necessidade de ir ao banco. Hoje, fazemos tudo on-line”, completa.

Nelson soma mais de 40 anos de trabalho na Jalles (Foto: arquivo pessoal)
Acompanhar tantas mudanças exigiu disposição para aprender e, ao longo desse caminho, Nelson investiu na própria formação. Fez curso técnico em Contabilidade, graduação em Direito e MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV). A experiência, na avaliação dele, complementa a tecnologia e contribui para melhores resultados. “A bagagem de quem está há muito tempo na indústria é importante, porque ajuda a mitigar erros, a parametrizar atividades com maior precisão”, defende. Na convivência com os profissionais mais jovens, ele reconhece a familiaridade dessa geração com as ferramentas tecnológicas, mas observa que a agilidade proporcionada por elas precisa vir acompanhada de análise e paciência para avaliar os resultados.

Diferentemente de Nelson, que chegou jovem e construiu sua carreira na Jalles Machado, empresa com unidades em Goianésia (GO) e em Santa Vitória (MG), Antônio Donizeti Alves ingressou na companhia aos 58 anos, já com décadas de experiência no setor sucroenergético. Hoje, aos 70 anos, ele é coordenador de moagem e acumula 12 anos de trabalho na empresa. Sua trajetória profissional começou em 1978, em uma usina no interior de São Paulo, onde iniciou como servente, função que corresponde ao que atualmente é conhecido como auxiliar de produção. Depois de alguns anos, tornou-se encarregado de moenda e permaneceu nessa área desde então. Ao longo de quase cinco décadas, acompanhou muitas mudanças. “No início, o trabalho era muito braçal e exigia bastante força física. Com o tempo, chegaram equipamentos e processos de automação que facilitaram as atividades. Fui me adaptando a essas mudanças e evoluindo junto com o setor”, relata.

Antônio Donizeti Alves tinha mais de 50 anos quando foi contratado na Jalles (Foto: arquivo pessoal)
Na Jalles, a experiência de Antônio também se reflete na liderança de equipes formadas por profissionais de diferentes idades. “Durante a entressafra, de dezembro a março, lidero cerca de 30 pessoas. Já na safra, de abril a novembro, são aproximadamente dez profissionais sob minha responsabilidade”, diz. A convivência com os mais jovens é parte do cotidiano e, para ele, exige disposição para ouvir e compreender as pessoas. “É muito bom trabalhar com os jovens. Como líder, precisamos ter empatia, saber ouvir e buscar o entendimento da equipe. Assim, conseguimos trabalhar juntos e alcançar bons resultados”, pondera.
Os profissionais com mais de 50 anos, como Nelson e Antônio, representam cerca de 18% do quadro de funcionários da Jalles. São 989 pessoas entre os aproximadamente 5,5 mil colaboradores da companhia, distribuídas por áreas como agrícola, industrial, manutenção, irrigação, pesquisa, logística, qualidade, administração e liderança operacional. Para Mônica Denise Rosena de Souza Silva, gestora de Desenvolvimento Organizacional da agroindústria, esse público reúne qualidades que agregam muito valor à rotina da organização. “Reconhecemos que a experiência é um patrimônio valioso, mas entendemos que seu maior diferencial está na capacidade de continuar aprendendo, compartilhando conhecimentos e se adaptando às mudanças”, afirma. Segundo ela, a atuação desses trabalhadores demonstra que a trajetória profissional pode continuar acompanhando as transformações do setor, inclusive com a incorporação de novas tecnologias.
Para estimular o desenvolvimento profissional em todas as faixas etárias, a empresa investe em treinamentos técnicos e operacionais, programas de liderança, bolsas de estudo para cursos técnicos, graduação e pós-graduação, além de parcerias com instituições como o Serviço Social da Indústria (Sesi), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). A companhia também está implantando a Jornada do Saber, iniciativa voltada ao incentivo à continuidade dos estudos, e desenvolve o Projeto Sinergia, da área de Tecnologia da Informação. “Acreditamos que experiência e inovação caminham juntas. Os profissionais mais experientes agregam conhecimento técnico, visão sistêmica, maturidade na tomada de decisão e um importante papel na formação de novas gerações”, enfatiza Mônica.
A presença de profissionais mais experientes no mercado de trabalho formal brasileiro, incluindo o setor industrial, cresceu em 2025. Segundo o Sumário Executivo da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, o número de vínculos empregatícios de pessoas entre 50 e 59 anos chegou a 9,4 milhões, alta de 7,6% em relação a 2024, com 665,9 mil vínculos a mais. Entre os trabalhadores de 60 a 64 anos, o total alcançou 2,4 milhões, enquanto a faixa de 65 anos ou mais somou 1,55 milhão de vínculos.
Em Goiás, a indústria também acompanha o envelhecimento da força de trabalho. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), publicado em setembro de 2026, mostra que a participação de trabalhadores de 50 a 59 anos no setor passou de 9,1%, em 2015, para 12,7%, em 2025. No mesmo período, o percentual de profissionais com 60 anos ou mais praticamente dobrou, subindo de 2,4% para 4,7%. Somadas, as duas faixas etárias representam 17,4% dos trabalhadores da indústria goiana. Na direção oposta, a participação de jovens entre 18 e 29 anos caiu de 38,2% para 30,5%. Considerando o mercado formal de Goiás como um todo, os profissionais com 50 anos ou mais já correspondem a 21% dos trabalhadores.

Para Sayonara de Castro Brotherhood, advisor e headhunter do Sistema Fieg, os números revelam uma mudança gradual no perfil da mão de obra industrial. A experiência acumulada ao longo da carreira pode representar um diferencial, sobretudo em funções que exigem conhecimento técnico aprofundado e capacidade de antecipar problemas. Registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), segundo ela, mostram que profissionais com mais de 50 anos em cargos técnicos e de gestão apresentam remuneração média superior à dos mais jovens. Essa diferença, porém, não significa que a idade, por si só, garanta salários maiores. “O trabalhador experiente acumula tempo de serviço, progressões por antiguidade e adicionais previstos nos planos de cargos e salários das empresas. A diferença também aparece quando a experiência e a especialização técnica se tornam fundamentais para evitar falhas graves ou paradas na linha de produção”, explica.
A indústria goiana atravessa um período de expansão, com reflexos na composição de suas equipes e também na atividade econômica. Em julho de 2026, o setor cresceu 4,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo estimativa do Instituto Mauro Borges de Pesquisa e Política Econômica (IMB), divulgada em setembro. O avanço alcançou os quatro grandes segmentos industriais, conforme consta no levantamento. A indústria extrativa teve alta de 24,5%; a indústria de transformação, de 5,5%; os serviços industriais de utilidade pública, de 4,3%; e a construção, de 1,3%. Na comparação com junho, descontadas as variações sazonais, o crescimento foi de 1%. De janeiro a julho, a expansão acumulada chegou a 2,9%, enquanto o resultado dos últimos 12 meses foi de 2,6%.
A produção industrial de Goiás cresceu 2% entre janeiro e agosto de 2026, acima da média nacional de 0,8%, segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Impulsionado pelos setores de biocombustíveis e automotivo, o estado também acumulou alta de 2,8% nos últimos 12 meses, enquanto o Brasil registrou avanço de 0,6% no mesmo período.

O avanço da atividade industrial em Goiás ajuda a dimensionar o cenário em que as empresas precisam conciliar a expansão dos negócios, a formação de novos trabalhadores e a valorização da experiência profissional. Nesse contexto, profissionais com mais de 50 anos demonstram a força de sua atuação nos mais variados segmentos da indústria goiana. Na Nutriex, indústria fundada em Goiânia há 26 anos e dedicada à fabricação de produtos de higiene, proteção, saúde e bem-estar, 48 dos mais de 400 colaboradores têm idade acima dessa faixa. É o caso de João Batista de Silva, de 57 anos, que soma 21 anos de trabalho na empresa. “A experiência que a gente ganha ao longo dos anos faz muita diferença. Hoje, consigo lidar melhor com as situações do dia a dia e resolver os problemas com mais facilidade, porque já passei por muita coisa e aprendi bastante nesse tempo”, relata.

Sua trajetória profissional começou aos 18 anos, em uma fábrica de macarrão. Depois, trabalhou por dez anos em uma famosa rede de fast food, onde passou por diferentes áreas até chegar à gerência. Na sequência, atuou em uma distribuidora de máquinas pesadas, também com passagem por vários departamentos, e trabalhou como instalador de ar-condicionado. Em 2005, ingressou na Nutriex, onde percorreu diferentes setores até ser promovido a supervisor de expedição, função que exerce atualmente.
João Batista de Silva, de 57 anos, soma mais de 20 anos de trabalho no setor industrial (Foto: Renato Conde/jornal A Redação)
Ao longo de mais de duas décadas na indústria, João também acompanhou mudanças de gestão e novas formas de organização do trabalho. Para ele, a adaptação faz parte da rotina e pode ser conduzida com tranquilidade, especialmente quando há oportunidades de capacitação. “Sei que cada um tem sua maneira de trabalhar. No início, às vezes, a gente sente a diferença, mas, no final, tudo dá certo. A empresa oferece oportunidades de aprendizado, treinamentos e cursos, por exemplo”, afirma ao enfatizar que faz questão de acompanhar as atualizações e novidades no mercado de trabalho.
A presença de pessoas com mais de 50 anos no quadro de funcionários da Nutriex, segundo Karen Cristina de Sousa, consultora de Gente e Gestão da empresa, contribui para a troca de conhecimentos e para o trabalho em equipe. “Esses profissionais somam com a experiência acumulada, comprometimento, a maturidade profissional e o conhecimento adquirido ao longo de suas trajetórias. Na Nutriex, valorizamos a contribuição de cada colaborador para os resultados da empresa e reconhecemos a importância da troca de conhecimentos entre diferentes gerações”, afirma. “Essa convivência favorece o aprendizado mútuo, a colaboração e o fortalecimento das equipes”, acrescenta. A valorização desses profissionais também se reflete nos processos de contratação e nas iniciativas de desenvolvimento.
De acordo com a consultora, a idade não é utilizada como critério de exclusão nos processos seletivos. A empresa também oferece programas de capacitação e plataformas de treinamento on-line, além de contar com as lideranças para orientar as equipes e estimular a aprendizagem no cotidiano. Karen ressalta ainda que a presença de trabalhadores experientes ajuda a preservar o conhecimento e a dar continuidade aos processos internos. “A baixa rotatividade entre esses profissionais, quando observada no quadro da empresa, também favorece a manutenção do conhecimento acumulado e o fortalecimento das equipes”, pontua.
Se a presença de profissionais com mais de 50 anos representa uma parcela crescente da força de trabalho industrial, a permanência deles nas empresas também chama a atenção. Levantamento da Fieg, divulgado este ano, mostra que a taxa de rotatividade na indústria goiana diminui à medida que aumenta a idade dos trabalhadores. Em 2025, o índice chegou a 83,2% entre profissionais de 18 a 29 anos, caiu para 43,4% na faixa de 30 a 49 anos e ficou em 19,9% entre aqueles com 50 anos ou mais. “Esse trabalhador é mais estável por natureza e por valores”, pontua Sayonara de Castro Brotherhood, advisor e headhunter do Sistema Fieg. No conjunto geral da indústria goiana, a rotatividade cresceu 29% entre 2020 e 2025, passando de 48,3% para 62,3%. O percentual permaneceu acima da média nacional durante todo o período analisado e, em 2025, superou em 9,2 pontos percentuais a taxa brasileira, de 53,1%.
Para Sayonara, os números reforçam a importância da experiência e da estabilidade profissional para as empresas. Ela observa que a troca frequente de funcionários gera custos com rescisões, processos seletivos e novos treinamentos, além de comprometer a continuidade do conhecimento prático e a produtividade. Cada nova contratação, explica a representante da Federação, exige tempo para que o trabalhador alcance o nível de desempenho esperado. “Avaliamos esse cenário destacando a importância da maturidade, da estabilidade e do alto valor que o profissional sênior agrega ao ambiente fabril, assim como a falta de brilho nos olhos dos jovens ao se depararem com nossas indústrias e linhas de produção. Nem todas estão alinhadas à Indústria 4.0 nem despertam o interesse por oportunidades de crescimento profissional em curto prazo, como os jovens buscam hoje”, pontua Sayonara.
A estabilidade dos vínculos também varia conforme a atividade industrial. Segundo a porta-voz da Fieg, os setores de eletricidade e gás e a indústria extrativa, que inclui a mineração, registraram taxas de rotatividade de 18,7% e 31,7%, respectivamente, em Goiás. Para a especialista, são áreas em que a complexidade das operações, os investimentos em infraestrutura e os riscos envolvidos tornam especialmente valiosos o conhecimento técnico, a precisão e a experiência prática. “Áreas como metal-mecânica, ferramentaria e manutenção pesada também valorizam muito o profissional sênior, especialmente por sua capacidade de diagnosticar falhas mecânicas. Nas nossas escolas do Senai, temos vários instrutores seniores muito bem avaliados, que compartilham seus conhecimentos a partir da experiência acumulada e dos casos vivenciados ao longo de suas trajetórias profissionais”, exemplifica.
Embora a experiência acumulada seja um diferencial, acompanhar as inovações tecnológicas ainda pode ser um desafio para parte dos trabalhadores com 50 anos ou mais. Sayonara, no entanto, ressalta que a resistência inicial às ferramentas digitais não significa incapacidade de adaptação. Segundo ela, a percepção de que profissionais mais velhos têm dificuldade para aprender e incorporar novas tecnologias é, muitas vezes, um estereótipo que não corresponde à realidade. “A adesão às ferramentas digitais ainda não é universal, mas a transformação tecnológica da indústria é um caminho sem volta. Para continuar empregável, o profissional precisa acompanhar essas mudanças. O desafio real está também na metodologia de treinamento adotada pelas empresas, que precisa ser inclusiva”, afirma.
Uma das alternativas, segundo a especialista, é aproximar profissionais de diferentes gerações para que compartilhem habilidades. Nesse modelo, os mais jovens contribuem com a familiaridade com as ferramentas digitais, enquanto os veteranos oferecem inteligência emocional, visão dos processos e conhecimento acumulado. A automação também pode reduzir a exigência física de determinadas atividades e ampliar as possibilidades de atuação em funções de monitoramento, análise e controle. “Quando a indústria consegue enxergar, atrair e reter essa combinação de gerações, a complementaridade das competências pode favorecer a produtividade e o desenvolvimento das equipes”, avalia.
Outro obstáculo é o etarismo, que, segundo Sayonara, aparece principalmente nas etapas iniciais dos processos seletivos. Entre os preconceitos ainda presentes está a ideia de que trabalhadores experientes seriam menos flexíveis ou teriam dificuldade para aprender novos métodos. A escassez de mão de obra, observa, tem levado empresas e profissionais de Recursos Humanos a rever essas percepções e reconhecer o valor da experiência no ambiente industrial. “Outro fator sutil é o desafio da liderança. Gestores muito jovens, por vezes, gerenciam profissionais muito experientes e mais velhos, o que requer inteligência emocional e capacidade de se colocar no lugar do outro, qualidades nem sempre presentes nos jovens de hoje. É uma oportunidade de aprendizado nas duas vias.”
A busca por qualificação profissional também faz parte da trajetória de trabalhadores com mais de 50 anos que desejam acompanhar as transformações do mercado, em especial da Indústria. Na Faculdade Senai Fatesg, instituição de ensino profissional vinculada ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e integrante do Sistema Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), esse público representa, em média, 5% dos alunos. O percentual corresponde a aproximadamente 1,2 mil pessoas por ano, segundo Weysller Matuzinhos de Moura, diretor da instituição.
O interesse abrange diferentes áreas e níveis de formação, de cursos de curta duração a especializações. Entre as opções procuradas estão Gestão e Liderança, Logística, Banco de Dados, Redes de Computadores, Informática para Escritório e Introdução à Inteligência Artificial. A variedade indica que a atualização profissional não se restringe a uma única área e pode envolver tanto o aperfeiçoamento de conhecimentos já adquiridos quanto o contato com novas ferramentas.
Embora a Fatesg não tenha uma pesquisa específica sobre os motivos que levam pessoas com mais de 50 anos a buscar capacitação, o perfil dos cursos oferece indícios. “Entendemos que se trata de atualização e, em alguns casos, não na maioria, de requalificação para reposicionar a carreira. Não temos como afirmar com dados, mas, pela experiência, a principal razão é para se manter relevante no mercado de trabalho”, avalia Matuzinhos.
A procura também alcança formações voltadas diretamente à tecnologia. Em 2026, cerca de 20 pessoas com 50 anos ou mais passaram pelo curso de Qualificação Profissional de Assistente de Desenvolvimento em Inteligência Artificial, com carga horária de 200 horas, aulas presenciais e oferta gratuita. A formação permite aos participantes conhecer melhor a tecnologia e buscar formas de aplicá-la em suas próprias atividades. Na avaliação do diretor, não é possível apontar um desafio de aprendizagem específico para os alunos mais velhos. “A maioria das pessoas está tentando entender melhor para não ficar para trás”, resume.
O público com 50 anos ou mais também aparece nos dados de encaminhamento para oportunidades profissionais e de inserção em estágios. Levantamento do Instituto Euvaldo Lodi (IEL Goiás), disponibilizado com exclusividade à reportagem, reúne dados de 2022 a 2026 e mostra que o número de alunos dessa faixa etária inseridos em estágio chegou ao maior patamar da série em 2026, com 258 registros. Em 2025, foram 178. De acordo com o IEL Goiás, instituição que atua como braço de gestão empresarial, inovação e mercado de trabalho da Fieg, o número de alunos com 50 anos ou mais encaminhados para vagas variou ao longo do período. Em 2023, foi registrado o maior número, com 125 encaminhamentos. Em 2025, foram 79 e, em 2026, 90 até o momento.
“Enquanto o Senai Goiás disponibiliza continuamente cursos de requalificação, informática industrial e automação para trabalhadores de todas as idades, garantindo que o público sênior se mantenha tecnologicamente competitivo, o IEL Goiás atua fortemente na aproximação com o mercado, recolocação profissional e na oferta de programas de desenvolvimento de lideranças, consultorias voltadas para gestão de pessoas e soft skills”, enfatiza Sayonara de Castro Brotherhood, advisor e headhunter do Sistema Fieg. “Por fim, o Sesi Goiás foca na saúde ocupacional, longevidade saudável e ergonomia nas fábricas, prestando consultoria para que as empresas adaptem seus ambientes de trabalho às necessidades de uma força de trabalho que está envelhecendo, assegurando bem-estar e segurança no chão de fábrica”, acrescenta Sayonara ao destacar que a Fieg atua de forma transversal por meio das casas que compõem o Sistema Indústria.
Para Sayonara, a valorização dos profissionais com 50 anos ou mais exige uma mudança cultural na indústria, com empresários e setores de Recursos Humanos comprometidos com o combate ao preconceito etário e com a saúde do trabalhador. Ela defende, ainda, a adoção de jornadas mais flexíveis e modelos de contratação que favoreçam a mentoria interna, permitindo que o conhecimento acumulado ao longo da carreira seja compartilhado com as novas gerações. Esse movimento, segundo a especialista, também depende de políticas públicas que incentivem as empresas a manter profissionais experientes em funções técnicas e operacionais. “O futuro da produtividade industrial de Goiás dependerá diretamente da nossa capacidade de integrar e reter o trabalhador sênior. Eles representam o equilíbrio institucional, a segurança na operação e a retenção do conhecimento técnico”, finaliza.
