Logo
Myrella Mendonça Brasil (Foto: divulgação)

Quando a fadiga política adoece a mente humana

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.09.2026 - 11:30:28

Nos últimos anos, quantos de nós não sentimos um aperto no peito ao abrir as redes sociais ou evitamos certos assuntos em um almoço de família para preservar a paz?
Como psicóloga, tenho observado em meu consultório um fenômeno cada vez mais frequente e alarmante: a política deixou de ser um debate sobre a gestão pública e passou a ocupar o centro das angústias emocionais da população. O sofrimento psíquico contemporâneo está intimamente ligado ao clima de hostilidade que se instalou não só em nosso país mas no mundo.

Os dados corroboram o que a prática clínica já demonstra. O Brasil carrega o doloroso título de país mais ansioso do mundo, com quase 10% da população convivendo com o transtorno de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde, mas a comunidade científica estima que esse número pode chegar a pelo menos três vezes mais, devido à subnotificação. Embora as causas da ansiedade sejam multifatoriais, é impossível isolar esse adoecimento do ambiente político atual.

Além dos quadros ansiosos, a depressão tem se manifestado muitas vezes camuflada sob a forma de uma apatia crônica e do que a literatura contemporânea já conceitua como “fadiga política”. O bombardeio ininterrupto de crises e a sensação de impotência diante das decisões macroestruturais geram o que na psicologia chamamos de “desamparo aprendido”, quando o indivíduo percebe que, independentemente de seus esforços individuais, o cenário ao seu redor permanece hostil e imutável, a esperança se esvai e a ausência de perspectiva é o núcleo fértil da depressão. Esse adoecimento não reflete apenas uma falha neuroquímica individual, mas sim uma resposta psíquica compreensível a um tecido social adoecido, onde a perda do sentido de futuro coletivo se traduz em uma dor profunda, paralisante e solitária.

Vivemos sob uma lógica de polarização digital e intransigência que atua como um gatilho constante de estresse. O cérebro humano não foi programado para a hipervigilância, mas fomos condicionados a um estado permanente de defesa, onde o outro não é apenas alguém que pensa diferente, mas um inimigo a ser combatido.
Essa dinâmica destrutiva é alimentada por algoritmos que lucram com a nossa indignação e pela disseminação em massa de desinformação. O resultado é o isolamento em bolhas e a fratura de vínculos afetivos importantes.

Quando o debate público perde a empatia, o indivíduo perde suas redes de apoio fundamentais como as amizades, os laços familiares e o senso de comunidade. O que sobra é o desamparo, a exaustão emocional e uma profunda falta de perspectiva de futuro, que afeta drasticamente a saúde mental de jovens e adultos, não excluindo as crianças que não ficam isentas deste impacto.

O desdobramento mais trágico desse cenário de hostilidade crônica e desgaste dos laços sociais reflete-se em um indicador epidemiológico avassalador: o aumento consistente nos índices de suicídio. No Brasil, onde os registros oficiais já ultrapassam a marca de 16 mil óbitos por ano, a ausência de uma rede de apoio sólida e o sentimento de desamparo social funcionam como catalisadores.

O suicídio é um fenômeno complexo, e este prolifera-se quando o indivíduo, esmagado pela violência psicológica da atmosfera sombria que paira sobre todos e pela desesperança institucional, perdendo a percepção de pertencimento e o suporte comunitário. Quando a arena pública substitui o acolhimento pelo linchamento virtual e afetivo, bloqueamos as portas de saída do sofrimento agudo, transformando crises individuais em tragédias coletivas silenciosas.
Diante desse cenário, a resposta não pode ser puramente individual. Não basta prescrever medicamentos ou sugerir que as pessoas “se desconectem”. O sofrimento gerado por um ambiente político tóxico exige respostas coletivas e institucionais.

A saúde mental precisa ser encarada como uma política de Estado transversal. Precisamos fortalecer de forma urgente a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e garantir que as ações de acolhimento cheguem aos territórios mais vulneráveis, integrando saúde, educação, cultura e o combate ativo aos discursos de ódio e o aumento da violência.

Cuidar da mente coletiva não é um luxo, é uma condição para a própria sobrevivência da nossa democracia e dos seres humanos. Precisamos urgentemente desarmar os espíritos e resgatar espaços de diálogo saudável.

Como sociedade, o nosso maior desafio é compreender que a reconstrução da nossa saúde mental coletiva passa, obrigatoriamente, pelo resgate da nossa capacidade de alteridade, afeto e humanidade. Ou seja, a capacidade de reconhecer, respeitar e compreender o outro como um ser único, com ideias, valores e culturas diferentes dos seus, lembrando que por trás de cada divergência ideológica existe um indivíduo que também adoece e precisa de amparo e ainda reconhecer que uma democracia não sobrevive sobre mentes exaustas e adoecidas pelo medo.

As trincheiras ideológicas que cavamos no debate público estão se transformando nos abismos emocionais da nossa sociedade. Proteger a saúde mental da população não é uma pauta secundária, mas o alicerce fundamental para que possamos, juntos, projetar qualquer futuro possível e principalmente saudável. O cuidado com a mente coletiva é a única ponte que nos resta para evitar que o amanhã seja ainda mais doloroso.

*Myrella Mendonça Brasil é psicóloga (CRP 09/18826). Especialista em Neurociências, Neuropsicologia e Psicologia Analítica. Atua também como escritora, pesquisadora e palestrante, dedicando-se à compreensão dos impactos do ambiente social na saúde mental contemporânea. (@myrellabrasil.psi)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Myrella Mendonça Brasil

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Marisvaldo Cortez Amado
25.09.2026
Inclusão não se esgota na matrícula: o direito à permanência no ensino superior

Nas últimas duas décadas, Goiás e o Brasil avançaram de forma expressiva na abertura das portas do ensino superior para pessoas com deficiência. Políticas de cotas, decretos internacionais e a Lei Brasileira de Inclusão ampliaram o número de matrículas nas universidades públicas e privadas. Mas uma pergunta incômoda persiste: de que vale abrir a porta […]

Domingos Coelho
25.09.2026
Qualidade do transplante capilar não se mede pela quantidade de fios

Quando se fala em transplante capilar, é comum que a atenção se concentre em uma pergunta: quantos fios serão transplantados? A quantidade, porém, está longe de ser o único ou o principal indicador de um bom resultado. Um transplante capilar bem planejado exige conhecimento técnico, estratégia e, sobretudo, respeito aos limites de cada paciente. É […]

Domingos Quirino
24.09.2026
O paciente envelheceu, mas a saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO
22.09.2026
A República às escuras

Em uma democracia que se pretende plena, o segredo é a exceção; a publicidade, a regra. Quando o Senado Federal, sob a presidência do senador Davi Alcolumbre, mantém sob restrição — e não é exagero dizer: de até 100 anos — os registros de visitas de lobistas e de figuras ligadas a episódios de amplo […]

Horácio Mello
21.09.2026
A cidade por trás da cidade

Quem caminha por Goiânia em uma manhã comum talvez não perceba quantas decisões ajudam a cidade a funcionar. Uma obra precisa respeitar limites. Um estabelecimento deve cumprir regras. O uso do espaço público exige critérios. Há normas que protegem o convívio, organizam a ocupação urbana e estabelecem até onde pode ir o interesse particular quando […]

Marcelo Chaves
21.09.2026
Dia da Árvore: Preserve essa fonte de vida no planeta!

Entre as muitas datas comemorativas no calendário brasileiro, celebramos em 21 de Setembro o Dia da Árvore. Mas por que celebrar o Dia da Árvore? A pergunta correta seria: por que não celebrar? Árvore é sinônimo de vida e pode nos oferecer benefícios essenciais e comuns para a espécie humana, que acabam passando despercebidos no […]

Mirna de Sousa
21.09.2026
O coração também pede cuidado no calor

O calor intenso e a baixa umidade, característicos dos períodos mais secos em Goiás, alteram a rotina das famílias e exigem atenção especial com as crianças. Para aquelas que convivem com doenças cardíacas e fazem tratamento contínuo, os cuidados ganham ainda mais importância, já que a perda de líquidos pode exigir atenção específica de acordo […]

Ricardo Menegatto
15.09.2026
Novas regras mudam a relação entre consumidor e plataformas de ingressos

Comprar ingresso para um show, festival ou espetáculo deixou há algum tempo de ser uma operação simples. Filas virtuais pouco transparentes, preços que mudam em questão de minutos, taxas reveladas apenas na etapa final da compra e ingressos rapidamente esgotados por sistemas automatizados transformaram a aquisição de uma entrada em uma experiência muitas vezes frustrante […]