Alice Ferraz
São Paulo – Marzieh Hamidi acordou em Cabul, em agosto de 2021, e viu o Taleban embaixo do seu prédio. Tinha 19 anos e treinava para uma vaga olímpica. O primeiro taleban que avistou era um adolescente. “Foi muito triste ver aquilo”, diz ela, em entrevista exclusiva à Coluna. “Mostra como eles fazem lavagem cerebral na cabeça de garotos e os transformam em terroristas.”
Passou os dias seguintes olhando pela janela e imaginando o que a esperava sob o novo regime. “Eu me imaginava de burca azul, tendo um filho de um taleban. Foi assim que me preparei para viver: como dona de casa do Taleban, dando filhos a eles. Só isso.”
Eu me imaginava de burca azul, tendo um filho de um taleban. Foi assim que me preparei para viver
Marzieh Hamidi
É por isso que ela discorda de parte do feminismo na Europa Ocidental, que defende o direito de usar o véu islâmico como escolha pessoal. “Quando me perguntam, eu digo: sinto muito, não posso apoiar isso, porque para nós é um símbolo de opressão. Mataram mulheres por causa disso. Nunca vou apoiar, porque o meu povo está morrendo por isso”, diz. “Para você, pode ser uma coisa simples, um pedaço de pano. Para mim é mais que isso: é um símbolo de opressão. Durante anos, décadas, controlaram as mulheres através disso.”
Nascida no Irã em 2002, filha de pais afegãos, a campeã de taekwondo cresceu entre os dois países – reflexo de uma família de exilados. “Em casa, nunca ouvi nada de ruim sobre nenhuma religião ou etnia”, conta. “Meu pai foi um lutador pela liberdade. Fui criada em uma espécie de bolha – e, quando saía para a escola, na sociedade, tudo era diferente.” Voltou ao Afeganistão em 2019 e lá se tornou cinco vezes campeã nacional de taekwondo.
Ficou cinco meses sob o novo regime do Taleban em Cabul. Nesse período, deu entrevistas à imprensa internacional contra o grupo e saía de casa quase todos os dias, coberta a ponto de só os olhos aparecerem. “Quando ficava em casa, me sentia oprimida. Por isso decidi sair mais, para ver o que estava acontecendo.”
Participou de protestos de mulheres pelas ruas e viu, mais de uma vez, homens do Taleban espancando manifestantes. “Eu corria rápido, porque sou atleta – eles não conseguiam me pegar. Mas aquilo era um filme de terror. Eu não conseguia acreditar que estava vivendo aquela vida.”
A ideologia atravessa fronteiras, eles fazem lavagem cerebral na cabeça de garotos e os transformam em terroristas.
Marzieh Hamidi
A saída do Afeganistão aconteceu depois de um ensaio da revista francesa Elle, que fotografou Hamidi em Cabul – imagens que chegaram a uma exposição em Paris. Uma jornalista ajudou a viabilizar sua partida, que levou dois a três meses. Hamidi deixou o país no fim de novembro de 2021, passou dez dias no Catar e chegou a Paris em dezembro. “Quando saí do aeroporto e abri o mapa no celular, vi a distância que já estava de casa. Aquilo partiu meu coração.”
Até hoje carrega culpa por ter deixado família e amigas para trás. “Penso nelas todos os dias. A maioria não foi embora por causa da família, porque ama o Afeganistão. Eu me sinto culpada, porque elas têm a mesma dignidade que eu, e a mesma vontade de liberdade.”
O taekwondo entrou na vida de Hamidi ainda adolescente, quando ela morava no Irã, como um hobby entre amigas. Aos 16 anos, sofreu abuso sexual de um conhecido da família – foi à polícia, o caso foi a julgamento e o agressor cumpriu alguns meses de prisão, pena que ela considera insuficiente até hoje. Na mesma época, sob pressão da treinadora, teve que escolher entre o esporte e o teatro, sonho de infância, e optou pelo tatame. “Ali eu sentia respeito, porque é um esporte de combate. Eu conseguia liberar minhas emoções, porque estava deprimida com o que tinha acontecido.” Aos 23 anos, define o esporte como remédio e arma ao mesmo tempo: “Toda vez que treino, mesmo quando não estou bem, saio me sentindo melhor. É mais que um esporte para mim – é uma arma contra a injustiça, pela igualdade de gênero, para mostrar força em uma sociedade que sempre viu a mulher como fraca.”
Na França, seguiu competindo: terminou em terceiro lugar no nacional francês de taekwondo em 2022 e disputou o Mundial de 2023 pela equipe de refugiados, de olho em Los Angeles 2028. Mas o ativismo público cobrou um preço alto. Em setembro de 2024, depois de criticar publicamente o Taleban, recebeu milhares de mensagens e ligações com ameaças em apenas 48 horas. Desde então, vive sob proteção da polícia francesa, em uma casa que não pode revelar o endereço. “Achei que estaria segura e livre em Paris. Mas senti que voltei ao mesmo lugar. Escapei de dois conflitos para ser livre, e me vi presa de novo.”
Nunca vou apoiar seu uso (véu islâmico). Para você, pode ser um pano, pra mim é símbolo da opressão.
Marzieh Hamidi
Em 2025, lançou pela Robert Laffont o livro Ils n’auront pas mon silence (Eles não terão o meu silêncio), escrito com o jornalista Baptiste Bérard-Proust. “É sobre a minha vida, mas também sobre o Taleban – a ideologia que atravessa fronteiras. Nós pensamos que são só alguns homens que vão ficar por lá. Mas não: é um jeito de dominar as mulheres.”
Hamidi está no Brasil a convite do movimento Pin for Peace, em uma turnê de palestras – e diz ter dialogado com diferentes comunidades. Criada em família muçulmana, hoje se define como alguém que não segue uma religião, mas acredita em Deus. “Quero mandar uma mensagem de paz, porque sinto que há muito ódio no mundo em que vivemos. E mostrar que a bondade, a solidariedade e o apoio mútuo importam mais.” Para ela, o principal motivo da viagem é ser capaz de reverter o esquecimento. “O mundo esqueceu as afegãs, e isso me entristece muito. Lá, elas não podem nem caminhar na rua sem um homem – quer dizer, perderam a própria identidade”, conta à Coluna. Ela fecha a conversa com um recado direto: “A história vai julgar quem esteve do lado delas e quem não esteve. É hora de decidir.”
