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Altar sagrado contendo peças de imagens que representam entidades ciganas. (Foto: Marcelo Ramallho)

O Museu Antropológico da UFG exibe obras inéditas de arte sacra afro-brasileira

Exposição será aberta nesta quinta-feira (6/8), com visitação de terça a sexta, das 19h às 22h.

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03.08.2026 - 15:59:19

A Redação 

Goiânia  – O Museu Antropológico da UFG recebe, na próxima quinta-feira (6/8), das 19h às 22h, no Setor Leste Universitário, uma coleção de arte sacra afro-brasileira. A exposição inédita tem como objetivo gerar uma reflexão sobre a contribuição africana e indígena na formação estética e simbólica da cultura goiana.

A Exposição “Assentamentos – Arte Sacra em Terreiros de Goiânia e Entorno” tem caráter histórico-cultural e reúne mais de 40 peças do acervo religioso, entre elementos culturais e sagrados, de 16 terreiros de religiões de matriz africana e indígena – como ifá, candomblé, umbanda, omolocô, terecô e jurema – da capital goiana e região metropolitana. A mostra, que segue até dia 9 de outubro, propõe uma reflexão sensível sobre as contribuições africanas e indígenas na formação estética, simbólica e espiritual na cultura goiana. O projeto é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, operacionalizado pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.

A produção sacra e religiosa afro-brasileira na Região Metropolitana de Goiânia é resultado de um levantamento realizado ao longo de dois anos nos municípios de Aparecida de Goiânia, Trindade, Abadia de Goiás e na capital. Os bens materiais e imateriais que compõem a exposição, constituem patrimônio de valor artístico, cultural e histórico. Estão classificados em: os objetos sagrados (ferramentas, utensílios, imagens sacras, indumentárias); cerimônias culturais (ritos, celebrações, cantos, músicas, orações); espaços (edificações, altares, ambientes internos e externos, jardins, vegetação, mobiliário); e documentos (atas de fundação, alvarás de funcionamento, livros de cadastro, fotografias antigas e outros).

Busto representativo de Orixá- em cerâmica, com aplicações de miçangas e corais africanos, autor desconhecido.(Foto: Marcelo Ramallho)

Além dos elementos culturais e sagrados, a exposição traz ainda duas coleções de fotografias históricas, pertencentes ao Museu Antropológico, da década de 70, que retratam manifestações religiosas na região metropolitana. Uma delas é a “Procissão dos Pretos-Velhos de Goiânia”. O registro histórico, entre os anos de 1972 e 1977, representa a resistência cultural e da ocupação sacra em espaço público, durante a ditadura militar, período de intensa perseguição aos religiosos. A concentração do cortejo ocorria na região da Pecuária, no Bairro Vila Nova, mobilizava centenas de fiéis, simpatizantes, curimbas e dezenas de terreiros locais. A caminhada seguia de forma imponente até o coração da capital, ocupando vias centrais como a Avenida Goiás. 

A segunda coleção, “Terreiro de Candomblé Rei Congo Inhumas-GO, 1972”, documenta as práticas religiosas desenvolvidas no Centro de Candomblé Rei Congo, localizado na cidade de Inhumas. As imagens capturadas, em 1972, registram uma comunidade religiosa em pleno exercício de sua fé, preservando aspectos da organização do espaço ritual, das vestimentas, dos instrumentos musicais, das práticas litúrgicas e da participação coletiva dos fiéis. Ao mesmo tempo, revelam o interesse crescente da universidade em documentar manifestações da cultura popular e do patrimônio imaterial goiano, em um período em que tais expressões ainda eram pouco reconhecidas como objeto de pesquisa acadêmica.

De acordo com o idealizador do projeto, o arquiteto Ricardo Braudes, Goiânia possui um campo religioso afro e indígena bastante rico e diversificado, desde 1950, com a Umbanda, e nos anos de 1970, com o Candomblé. Segundo dados da Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de Goiás (FUCEG), existem cerca de 18 mil espaços em funcionamento em Goiás, sendo 4 mil em atividade na capital.

Para Ricardo, que também é o curador da mostra, este é um projeto inédito no estado de Goiás, que evidencia a contribuição artística, cultural e histórica dos terreiros. A exposição traz para o público um vasto campo religioso que constitui um valioso patrimônio material e imaterial para a sociedade goiana. Ele também enfatiza que, ao trazer maior visibilidade à cultura afro-brasileira, existente em Goiás, a exibição contribui para o combate à intolerância religiosa, ao preconceito que existe sobre as religiões, muitas vezes consideradas como seitas. 

“Ao lançar luz às peças, objetivamos trazer a público a sua real função e simbolismo agregados, no sentido de propor uma valorização dos cultos afro-brasileiros perante a sociedade goianiense, além de consolidar uma nova referência de pesquisa sobre o patrimônio estudado, contribuindo para o resgate da história goiana no cenário religioso, e para o ensino de história afrodescendente no Brasil, conforme a Lei 10.639/2003 que estabelece, na Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira”, destaca. 

A exposição percorre um arco temporal de obras produzidas a partir da década de 50, com trabalhos de santeiros anônimos, bem como peças que atravessaram o Atlântico, trazidas com povos escravizados. O público poderá ver peças em diferentes materiais, como, ferro, bronze, madeira, argila, cerâmica, ossos, chifres e cocares de pena, revelando como a religiosidade afro-brasileira está ligada à organização política e cultural do estado.

Para além da exposição

Como forma de contrapartida social, o projeto prevê três ações educativas e de comunicação do acervo com a sociedade como: atividades de educação patrimonial, que orientará sobre a importância de reconhecimento, recuperação, salvaguarda e preservação de seu patrimônio; palestra pública dirigida às comunidades envolvidas, às comunidades científica, acadêmica, cultural e estudantes universitários; e visitas guiadas com a participação de integrantes dos terreiros e dos coordenadores do projeto, para atuarem como mediadores durante a exibição da exposição. 

Os visitantes ainda receberão um catálogo com o acervo selecionado exibido na exposição, com o intuito de consolidar uma nova referência para a pesquisa, o que contribui para o resgate da história goiana no cenário religioso, e para o ensino de história afrodescendente no Brasil.

Vale ressaltar que todos os envolvidos em “Assentamentos – Exposição de Arte Sacra de Religiões de Matriz Africana em Goiânia-GO” são praticantes de religiões de matriz africana e frequentadores de terreiros existentes na cidade de Goiânia. A união de esforços foi fundamental para a elaboração da exposição, sua estruturação e possibilidade de execução, pois as comunidades são, algumas vezes, um tanto fechadas e restritas, devido ao histórico de exploração, preconceito e depredações pelo qual já passaram. 

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por Hector de Souza

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