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(Foto: divulgação)

Fica 2026 promove debate sobre a memória e o legado do acidente com o césio-137

Evento contou com diretor da minissérie “Emergência Radioativa” e sobrevivente da tragédia

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22.06.2026 - 14:34:39

A Redação

Goiânia – O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) 2026 promoveu um debate, na última quinta-feira (18/6), sobre a memória e o legado do acidente com o césio-137. O painel “Césio 137, a imagem que não ficou” reuniu o diretor e roteirista Fernando Coimbra, responsável pela minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix, a sobrevivente Luíza Odet Mota dos Santos e a antropóloga Telma Camargo, com mediação de Benedito Ferreira.

Da infância ao audiovisual

Fernando Coimbra contou que seu primeiro contato com a história veio ainda na pré-adolescência. Ele tinha 11 anos em 1987 e morava em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, quando o acidente ganhou destaque nos telejornais de todo o país. Segundo o diretor, o episódio o marcou em um período em que o mundo vivia o pânico nuclear, um ano depois do acidente de Chernobyl. O que mais o impressionou, relatou, foi perceber que o perigo não vinha de uma usina, mas de algo próximo do cotidiano, um equipamento de radioterapia.

Anos mais tarde, ao rever no Canal Brasil o filme dirigido por Roberto Pires logo após o acidente, o cineasta voltou a se interessar pelo tema e notou o quanto a história havia sido pouco retratada na ficção. A possibilidade de uma minissérie surgiu na era do streaming, com mais recursos para dar conta de uma trama de muitas camadas, personagens e locações.

Quando a Netflix o convidou para dirigir, o projeto já vinha sendo desenvolvido havia cerca de dois anos pelo criador da série, Gustavo Lipsztajn, filho de uma física que atuou no Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD). Ao integrar a equipe, Fernando Coimbra solicitou a ampliação da pesquisa, ouvir novas pessoas e rever boa parte do material já produzido.

O desafio de contar uma história real

Para o diretor, a missão de uma obra como essa é lançar luz sobre o que aconteceu. Ele disse ter se surpreendido com o número de pessoas que nada sabiam sobre o caso fora de Goiás e de Goiânia. “Não conseguiremos, em cinco horas, dar conta de todos os fatos”, ponderou, ao defender que o papel da série é envolver, emocionar e provocar o espectador a buscar mais informação.

Fernando Coimbra explicou que contar um fato verídico exige escolhas dramatúrgicas. A equipe delimitou um recorte de cerca de três meses e condensou fatos, personagens e acontecimentos. O que guiou boa parte dessas decisões, segundo ele, foram os temas de fundo, a retratação de uma sociedade marcada por um abismo social no início da redemocratização e pela falta de confiança nas instituições. “A arte da democracia é complexa”, afirmou, ao lembrar que lidar com uma crise exige diálogo, mesmo quando o problema não se resolve por completo.

O formato escolhido, com múltiplas perspectivas, permitiu acompanhar os atingidos pelo material radioativo, os físicos, os médicos e o governo. O diretor observou que os personagens funcionam como sínteses e que o governador da trama não corresponde exatamente à figura de Henrique Santillo. Por respeito aos envolvidos, a produção optou por não utilizar os nomes reais, com a manutenção apenas de Mateus. A personagem Catarina, mãe de Celeste, foi inspirada em uma vítima real e reúne experiências de quem deixou o hospital, voltou para a cidade e enfrentou o preconceito, a dificuldade de conseguir trabalho e o afastamento de familiares.

Ainda assim, o cineasta disse ter buscado o tom mais naturalista possível, com muito trabalho de improviso com os atores, para que a narrativa soasse crível. “Essa história parece muito absurda, mas ela é totalmente real”, resumiu.

A voz de quem sobreviveu

Sobrevivente do acidente e tia de Leide das Neves Ferreira, a menina que se tornou um dos símbolos das vítimas, Luíza Odet Mota dos Santos emocionou o público ao relatar a luta para preservar a memória do que viveu. Ela contou que guarda recortes de jornais e revistas organizados em uma pasta, além de fotografias, cartões e agendas dados pelos enfermeiros do Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde ficou alojada com a família durante o período mais crítico. “Penso que essa é uma história que servirá para os meus filhos, netos e bisnetos”, disse. O marido, Kardec, hoje mais reservado depois de um acidente vascular cerebral (AVC), a acompanhou no encontro.

Entre os vestígios materiais, Luíza ainda mantém um macacão de proteção e cápsulas de Azul da Prússia, usadas para expelir a contaminação. Ela lembrou que perdeu quase tudo o que tinha em casa, retirado e levado para o depósito de Abadia de Goiás, e que restou apenas uma fotografia dos quatro filhos, tirada depois da descontaminação. “Nós perdemos tudo, uma realidade pela qual passaram todas as vítimas”, afirmou.

Luiza ressaltou que os filhos ainda carregam o trauma e que segue na luta por eles, lembrando que a assistência às vítimas é assegurada até a terceira geração. Por isso, defende a mobilização permanente e a atenção do poder público. Para Luíza, a presença no festival cumpre um papel necessário. “Essa história não pode cair no esquecimento”, disse, ao criticar a omissão do Estado e ao pedir que as autoridades não esperem novas tragédias para agir.

Pesquisa, acervo e a memória do desastre

Doutora em antropologia e ex-professora e pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG), no Instituto de Ciências Sociais, Telma Camargo dedicou décadas ao estudo do acidente. Ela contou que começou a trabalhar com desastres como integrante de um núcleo de acompanhamento na própria UFG, em uma atuação que define como militância acadêmica, e transformou o tema em objeto de doutorado durante seus estudos na City University of New York (CUNY). A pesquisa de campo, feita entre 1996 e 1997, fundamentou a tese e desdobrou-se em trabalhos posteriores.

A pesquisadora doou à UFG um amplo acervo documental sobre o caso. O material impresso foi entregue ao Centro de Documentação (Cedoc) da universidade em 2021, e a parte audiovisual e sonora, com fitas, registros de entrevistas e pesquisas em televisão e rádio, também passou ao acervo da instituição. Telma Camargo evita atribuir apenas à série da Netflix o retorno do tema ao debate público e citou, como exemplo, uma exposição montada por estudantes de museologia no Museu Antropológico, idealizada antes da produção. Para ela, existe uma política da memória que tende a apagar o desastre, e é a pesquisa que pode sustentar essa lembrança. “Nossos acervos serão abertos”, afirmou.

O painel integra a programação de debates do Fica 2026, que segue até o dia 21 de junho na cidade de Goiás, com mostras competitivas, oficinas, atrações culturais e encontros gratuitos.

Sobre o Fica

O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) é um dos maiores festivais de cinema ambiental do mundo, realizado anualmente na cidade de Goiás. Desde 1999, consolida-se como espaço plural de convergência entre arte, ciência, ativismo e educação ambiental, atraindo realizadores e públicos de diferentes países.

Realização e parcerias

O Fica 2026 é promovido pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás), em correalização com a Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio da Fundação RTVE, e colaboração estratégica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Saneago.

O festival ainda conta com a cooperação da Unesco, por meio de sua Cátedra Saberes Patrimoniais, Biodiversidade e Cidadania; Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI); Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio do Museu dos Povos Indígenas; e MapBiomas.

Somam-se aos parceiros as secretarias de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), da Saúde (SES), de Esporte e Lazer (Seel), da Educação (Seduc), da Economia, de Desenvolvimento Social (Seds) e da Retomada. Integram ainda a realização o Goiás Social, Corpo de Bombeiros Militar de Goiás, a Polícia Militar de Goiás, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Senac Goiás, o Instituto Federal Goiano (IF Goiano), Prefeitura de Goiás, Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) e Lanterna mágica.

Serviço
Atividade: Painel “Césio 137, a imagem que não ficou”, sobre memória e audiovisual
Quando: Tarde desta quinta-feira (18/06), durante o Fica 2026
Local: Cidade de Goiás, Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco
Programação gratuita

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por Taíssa Gomes

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