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Meursault em 'O Estrangeiro' (Foto: divulgação)

‘O Estrangeiro’ é adaptação à altura do clássico de Camus

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15.04.2026 - 09:10:47

O novo filme de François Ozon tem a árdua tarefa de adaptar de maneira decente o clássico literário O Estrangeiro, lançado originalmente por Albert Camus em 1942 e pedra fundamental da sua filosofia do absurdo. Como se isso não fosse o suficiente, Ozon ainda opta por abrir mão da icônica narrativa em primeira pessoa do livro, sem usar voice-over.

E funciona! O filme consegue comunicar ainda assim a indiferença e distanciamento do protagonista Meursault, interpretado muito bem por Benjamin Voisin, que precisa transmitir muito do personagem fazendo uso de muito pouco. Há ainda a escolha por filmar em preto e branco, que combina muito com o retrato da época e com a natureza da história narrada.

A trama acompanha Meursault, começando pelo dia em que um telegrama o informa que sua mãe morreu. Ao invés de luto, ele trata o caso como estorvo, tentando enterrá-la e se livrar do problema o quanto antes. Essa é só a primeira situação que vai posicionando o personagem cada vez mais descolado da realidade e das convenções sociais, questionando o absurdo: da existência, das regras, da burocracia, dos relacionamentos, dos pormenores.

O roteiro acompanha com fidelidade o livro e, para quem não o conhece, ver de forma distante e impessoal as ações de Meursault resulta exatamente no esperado: choque, confusão, até indignação, talvez, dependendo dos seus brios.

A única mexida que Ozon dá é tentar trazer de forma crítica o colonialismo francês: como no livro, a trama se passa na Argélia ainda colônia e envolve o assassinato frio de um jovem árabe e a agressão de uma mulher argelina. O diretor posiciona a própria cidade de Argel e esses personagens e acontecimentos de um jeito mais crítico em que Meursault pode até ser um estrangeiro na sociedade, mas é, antes de tudo, um francês, estrangeiro em Argel.

Essa modificação é sutil, porém, e não ganha volume em particular, não afetando a trama principal com seus franceses indiferentes aos árabes: é uma alteração moderna para uma audiência contemporânea. Em particular, serve como um aceno e uma crítica à extrema-direita francesa atual que tanto critica o avanço dos árabes na França. É uma forma de dizer: nós fomos os estrangeiros primeiro, nós invadimos lá primeiro.

Parte dessa estrangeirice, inclusive, engloba um elemento importante do livro: Meursault sempre sofre com o calor e com o sol. Ambas as condições ganham mais significado no filme, inclusive pelo estanhamento: nas várias cenas em que a ambientação salienta a segregação dos árabes, é visível como são os franceses os deslocados, com roupas abafadas europeias e construções feitas para climas frios, tentando se impor num clima totalmente diferente.

O único pecado do longa talvez seja sua parte final: ele tem uns 20 minutos a mais que não precisavam estar lá em que muito pouco acontece e os acontecimentos passados, na verdade, são revisitados mais pausadamente, quase que para garantir que a audiência entendeu o ponto, como se fosse uma matéria prestes a cair na prova. Podia passar sem essa.

Enfim, O Estrangeiro é um filme muito bom e impactante por conta própria para quem não teve a oportunidade de ler o livro antes. A alienação e o absurdo são bem transmitidos e a subtrama do colonialismo lança a sombra do imperialismo francês sobre a narrativa de uma maneira que não altera significamente o contexto, mas lhe confere uma nova camada.

O filme estreia no circuito nacional nesta quinta (16/4).

*O colunista assistiu ao filme antecipadamente em cabine on-line oferecida pela California Filmes e Sinny Comunicação.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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