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Ruínas de Macacu (Foto: Elysium Sociedade Cultural)

Por que “Boa Morte”? Nome de igreja histórica no interior do Rio guarda mais significado do que parece

Espaço passa por restauro conduzido pela Elysium Sociedade Cultural

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04.04.2026 - 09:14:14

A Redação

Goiânia – Em meio à paisagem histórica de Cachoeiras de Macacu, um conjunto de ruínas centenárias desperta o interesse de pesquisadores e moradores, mas também levanta curiosidade de quem passa pelo local. Afinal, de onde vem o nome Igreja de São José da Boa Morte? Erguida a partir de 1734, a agora Ruína da Igreja de São José da Boa Morte, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro desde 1989, passa, pela primeira vez, por obras de conservação e consolidação. A iniciativa integra o projeto de recuperação das ruínas e implantação de um novo uso, conduzido pela Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Nova Transportadora do Sudeste (NTS), por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Mas, além da importância histórica e arquitetônica, é o nome da igreja que intriga e também carrega séculos de tradição religiosa. Segundo explica a historiadora Rachel Wider, especializada em patrimônio cultural e colaboradora da Elysium, o termo “Boa Morte” está diretamente ligado a uma concepção profundamente enraizada na tradição católica. Conforme pontua, o culto a São José ganhou força a partir do século XVI, mais especificamente em 1522, com a obra Summa de Donis Sancti Joseph, escrita pelo padre dominicano Isidoro de Isolanis. No texto, ele relata que os católicos orientais já celebravam o pai de Jesus em festas realizadas no dia 19 de março, que incluíam a leitura de sua história e a narrativa de sua morte.

Historiadora Rachel Wider 

Após o Concílio de Trento, a devoção a São José se expandiu significativamente. É desse período, em 1562, o primeiro convento dedicado a ele, em Ávila, na Espanha, fundado por Santa Teresa de Jesus. A associação com a chamada “boa morte” surge justamente a partir da forma como sua morte é descrita na tradição cristã. Amparado por Maria e Jesus, São José teria vivido seus últimos momentos com serenidade e fé, conforme explica a historiadora.

“Entre Jesus e Maria, que o assistiam com carinho, expirou suavemente, abrasado no Divino Amor”. A frase descreve a morte piedosa de São José, tradicionalmente considerada a “boa morte”. Essa imagem consolidou, ao longo dos séculos, um ideal de morte tranquila, consciente e cercada por cuidado espiritual e familiar.

Conceito que atravessa séculos
A ideia de “boa morte” foi predominante durante muitos séculos, especialmente na Idade Média e no Renascimento. “Naquele contexto, o momento ideal para morrer era aquele em que o moribundo tinha consciência do fim e podia receber os rituais religiosos, cercado pela família”, enfatiza Rachel ao explicar que, não por acaso, surgiram instituições dedicadas a esse culto. “A primeira Confraria da Boa Morte foi fundada na Igreja de Jesus, em Roma, em 2 de outubro de 1648, pelo padre Vincenzo Caraffa”, acrescenta.

Até hoje, São José é considerado, na tradição católica, o padroeiro dos moribundos, além de também ser associado às famílias, aos carpinteiros e aos agricultores. Cabe a ele, segundo a crença, interceder para que os fiéis tenham uma morte tranquila.

O nome que não significa o que parece
Na época da construção da capela, no século XVIII, a devoção a São José já estava consolidada e amplamente difundida. A irmandade de mesmo nome foi fundada em 1766, um pouco depois da construção da igreja. A escolha do nome, portanto, reflete essa tradição religiosa, e não uma função prática ligada à morte. Rachel Wider destaca que o nome da igreja nada tem a ver com a ideia de que as pessoas iam até o local para morrer. O hábito de enterramentos em igrejas, inclusive, era comum em todo o Brasil até meados do século XIX.

Ainda assim, a devoção a São José foi tão marcante na região que ultrapassou os limites do templo. “Foi marcante para a região, dando nome não só ao espaço religioso, mas a toda a área, que foi considerada uma freguesia, em 1834”, arremata a historiadora.

Agora, quase três séculos após sua construção, a igreja volta ao centro das atenções pelo esforço de preservação de sua história. As obras em andamento representam um passo importante para garantir a conservação das ruínas e permitir que o espaço ganhe novos usos, mantendo viva a memória cultural e religiosa do Rio de Janeiro.

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por Adriana Marinelli

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