Samuel Straioto
Goiânia – No dia 27 de setembro de 1987, um domingo, o Autódromo Internacional Ayrton Senna recebeu pela primeira vez uma etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade. Era o GP do Brasil, a primeira prova da categoria em solo nacional. As arquibancadas transbordavam. Pessoas de todo o país e de várias partes do mundo chegaram a Goiânia de avião, de carro, de ônibus, de moto… Alguns vieram a pé. Outros, de bicicleta e de chinelo, sem dinheiro para entrar. Quase quatro décadas depois, o MotoGP volta à capital goiana, entre esta sexta (20/3) e domingo (22), desta vez num autódromo reformado, que está anos-luz do que era naquele setembro distante.
A etapa goiana de 1987 não era apenas mais uma corrida. Era a prova que definiria o campeão mundial da categoria 500cc. O australiano Wayne Gardner cruzou a linha de chegada em primeiro lugar e conquistou seu único título mundial naquele dia. O pódio foi completado pelos norte-americanos Eddie Lawson, em segundo, e Randy Mamola, em terceiro. Na 250cc, o francês Dominique Sarron venceu, com os espanhóis Alfonso Pons e Carlos Cardus completando o pódio.
Mamola era uma celebridade à parte. Extrovertido e adorado pelo público, ficou famoso pela manobra que até hoje leva seu nome, e que encantava quem o via em ação. Para muitos goianienses naquele dia, ver o Mamola era o principal motivo de estar ali.
Mamola (Foto: reprodução/arquivo)
A chegada do evento à capital goiana não foi obra do acaso. O então governo de Henrique Santillo conduziu uma articulação política discreta, com vistorias técnicas que colocaram Goiânia à frente de outras cidades brasileiras na disputa pela sede. O resultado foi histórico: pela primeira vez, o Mundial de Motovelocidade chegava ao Brasil.

Na bicicleta, no mato e em cima das árvores
Quem estava em Goiânia naquele domingo guarda a memória viva, e boa parte dela é marcada pela dificuldade financeira de participar do evento.
Euler Guimarães tinha 13 anos quando pedalou até o autódromo numa bicicleta BMX, de chinelo, suado. Não tinha dinheiro para o ingresso. Ficou do lado de fora da grade ouvindo o ronco das motos de dois tempos e a gritaria da torcida. “Nunca mais esqueci disso”, conta à reportagem do jornal A Redação. O menino que não pôde entrar virou, décadas depois, bicampeão britânico de motovelocidade. Hoje ele vive em Londres, é sócio da McAMS Yamaha, equipe que compete no Campeonato Britânico de Superbikes, e tem Randy Mamola, o ídolo daquele domingo, como amigo pessoal.


Sonho em ver o ídolo
No Parque Atheneu, bairro vizinho ao autódromo, um grupo de amigos saiu da aula do colégio Instituto San Damiano sem almoçar e foi a pé em direção à pista, atravessando o mato e o “Córrego Anjinho” — na verdade o Córrego Barreiro, mas chamado assim pelos moradores do Parque Atheneu, Jardim Mariliza e arredores. O riacho cortava uma fazenda onde hoje se erguem condomínios horizontais de alto padrão. O destino do grupo eram as árvores nos cantos do autódromo, únicos “camarotes” possíveis para quem não tinha ingresso. “A imaginação de ver o Randy Mamola era emoção e aventura”, lembra Marcondes Marcos, um deles.
Havia também quem tivesse o privilégio de entrar pelas catracas. “Eu tive o prazer de ver ao vivo essa lenda em 1987. Fui com meu pai e meu irmão. Eu tinha 14 anos e meu irmão tinha 10. Inesquecível”, recorda outro espectador. Para todos, havia um denominador comum: nunca tinham visto tanta gente num só lugar, tantos carros, tantas motos e tantos estrangeiros. Para muitos goianienses criados numa cidade que ainda se expandia pelo Cerrado, era a primeira vez que se deparavam com pessoas de outro país de perto.
O Brasil que vivia aquele setembro
O Brasil de 1987 era um país em ebulição. A Assembleia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro daquele ano sob a presidência de Ulysses Guimarães, trabalhava para dar ao país a Carta que viria em 1988. Nas ruas, o debate sobre o futuro da democracia misturava-se ao desespero econômico: a inflação terminou o ano em 415%. O presidente José Sarney havia declarado a moratória da dívida externa em fevereiro, isolando o Brasil no mercado financeiro internacional, e trocado o ministro da Fazenda — o chamado Plano Bresser foi mais uma tentativa de congelamento que não resolveu.

Na televisão e nas ruas
Naquele setembro, quem chegava em casa depois do autódromo ligava a televisão e encontrava a novela das oito da Globo, “O Outro”, estrelada por Lucélia Santos, Paulo Betti e Malu Mader. No horário das sete, “Brega & Chique” dominava a audiência com humor e leveza. Na Manchete, “Corpo Santo”, com Maitê Proença e Christiane Torloni, brigava ponto a ponto com a Globo e chegava a 31 pontos de audiência. Na música, o rock nacional estava no auge. Legião Urbana e Titãs dominavam as rádios e os toca-fitas. Nas ruas, o Volkswagen Gol assumia pela primeira vez a liderança de vendas no Brasil, posto que manteria por 27 anos. Nos cinemas, Atração Fatal e Dirty Dancing eram os fenômenos do momento, e A Princesa Prometida acabara de estrear. Nas bancas, nascia a revista Superinteressante.

O futebol e a polêmica que não acabou
No futebol, 1987 foi o ano de uma das maiores polêmicas da história do Campeonato Brasileiro. E ela ainda não acabou. Os grandes clubes criaram o “Clube dos 13” e organizaram a Copa União à revelia da CBF, resultando numa disputa judicial pelo título que persiste até hoje no Supremo Tribunal Federal. Em fevereiro deste ano, a Procuradoria-Geral da República emitiu parecer favorável ao Flamengo, que pede ser declarado campeão ao lado do Sport, clube que a CBF reconhece como o vencedor daquele ano. Quase 40 anos depois, a questão segue em aberto.
Em Goiás, o Goiás Esporte Clube era bicampeão estadual e disputava o Módulo Verde do Campeonato Brasileiro. Em 2026, a história se repetiria: Goiás e Atlético Goianiense decidiram o Goianão, e o Goiás foi campeão novamente.

O Césio-137: um dia depois da corrida
O GP do Brasil terminou no domingo, 27 de setembro. Na segunda-feira, 28, Goiânia descobriu que estava há 16 dias convivendo com o maior acidente radiológico fora de usinas nucleares da história. Em 13 de setembro, dois catadores haviam encontrado um aparelho de radioterapia abandonado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia, no Setor Aeroporto, e, ao desmontá-lo, expuseram o césio-137 — um pó azul brilhante e letal que se espalhou pela cidade por semanas. O brilho fascinava quem o via. Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho para onde a cápsula foi levada, distribuía amostras do material entre familiares como se fosse algo precioso. As vítimas apresentavam náuseas, vômitos e diarreia — tratados como intoxicação alimentar.
Foi Maria Gabriela, esposa de Devair, quem desconfiou. No dia 28, um dia após o encerramento da corrida, ela colocou a cápsula num saco de estopa e entregou na Vigilância Sanitária. Um físico que visitava a cidade confirmou a contaminação com um medidor de radiação. Quatro pessoas morreram, centenas foram contaminadas e mais de 13 toneladas de lixo radioativo foram geradas. No ponto zero do acidente, na rua 57, um terreno vazio com solo concretado ainda hoje destoa das casas ao redor. No Google Maps, o endereço tem um nome: Césio 137.
O então governador Henrique Santillo gerenciou o maior espetáculo esportivo já realizado em Goiás e a maior tragédia radiológica do país.

De volta, quase 40 anos depois
O MotoGP esteve no Brasil por alguns anos. Depois de Goiânia em 1987, 1988 e 1989, a categoria voltou ao país em 1992, em São Paulo, e ficou no Rio de Janeiro de 1995 a 2004. Depois disso, o Brasil ficou fora do calendário mundial por mais de duas décadas.
Agora, em 2026, o MotoGP volta… E volta a Goiânia. Vladimir Terra, que esteve no autódromo nas três edições dos anos 1980, resume o sentimento de quem viveu aquele momento e vai revivê-lo. “Eu estava lá, 1987, 88 e 89, uma grande festa. Espero em Deus que seja um marco na minha vida retornar depois de 37 anos do último mundial em Goiânia”, disse, acrescentando que na terça-feira partiu da Bahia rumo à capital goiana. Euler Guimarães, o menino que ficou do lado de fora da grade em 1987, também vem. Desta vez, não precisará da bicicleta.
