Não por terras, que o mapa já traça o limite,
Nem por heróis, que o céu se fez mudo e soturno,
O ferro ainda morde a carne que grunhe e oprime
O irmão que o espelho devolve em distúrbio.
A moeda, essa lasca de sol já sem brilho,
É o novo “evangelho”, a razão, a sentença.
Por seu fulgor opaco, se ergue o cadafalso
E o homem se lança à sua própria descrença.
Ah, a ambição, velha fome que inventa o amanhã!
Mamom tecerá o sudário do campo que jaz?
Enquanto o poder, coroa de espinhos vazia,
Se alimenta do grito que o vento desfaz.
Foi-se o tempo em que a lança buscava outra lança,
E a morte tinha rosto, suor, cor e rancor.
Os olhos nos olhos, num último suspiro e espanto,
Sabiam o preço real, o motivo e a dor.
Mas hoje, é sanha da morte sem vista,
O dedo, o algoritmo, o botão, hesitante?
Não vê a pupila, nem sente a conquista,
Só um ponto no mapa, um alvo distante.
O míssil risca o céu — um traço que traça —
Corta nuvens, o ar sob o mar, olha sem enxergar.
E na tela, um clarão, um silêncio de vidro,
Uma cidade em pó a se desenhar.
O baque, a fagulha pode explodir o continente,
Mas, não há o encontro, não há o estandarte,
A ganância faz do consorte sua própria serpente,
Só um eco apagado de um golpe sem arte.
E onde fica o homem nessa equação de concreto?
Na cratera? No abrigo? Na distopia do operador?
Será que a ilha, que Donne via inteira,
É um arquipélago partido de espanto e terror?
A guerra agora é tão “limpa” e sem sangue?
Já nenhum sino dobra… Já não nos diminui?
Somos parte de quê? De um mapa bem exangue,
Onde o outro é só alvo e a alma que não flui.
Branco, púrpura, rasgos celestes como fios ao léu.
Bomba carmesim se vê como moedas ao relento,
Negras palmas surgem das telas em tropel,
Distribuem chamas e rosas cinzas em rebento.
No clamor do que resta sob o pó e o concreto,
Vejo e ouço, o transe, as cinzas que o estrondo deixou,
“Por que me abandonas? Em que espelho me reflito?”
É o mesmo grito antigo que a trincheira nunca abafou.
A guerra não mudou: trocou a face, a mão… a desgraça,
Continua a ser este naufrágio do amor, da razão,
Onde a ambição e o poder, velhos senhores da farsa,
Ceifam o trigo alheio pra semear a sua própria feição.
E ainda que os senhores da guerra, moucos de egoísmo,
Finjam não ouvir o bronze que estremece a dobrar,
Os sinos continuam a bulir no mesmo abismo —
E não é por um ente alheio: é por ti que vão chorar.
Cada criança em escombros, cada mãe que em vão espera,
Cada corpo que não escolheu o lado em que caiu,
É a humanidade inteira que sangra no mesmo fosso
E te chama pelo nome no instante em que partiu.
Ei! Donne! Se a morte de um homem a todos diminui,
Não há ilha que nos salve, não há muro que te esconda,
Assim, também, como a indiferença a todos destitui,
O mesmo sino que se dobra, toca na mesma redoma.
Edemundo Dias
Madrugada de domingo, 01/03/2026
Enquanto você lê este poema, quantas almas estão entre a terra e os céus da guerra = Irã X Israel X Estados Unidos? O que de fato está em jogo?