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"Goiás precisa de um senador preparado", diz

Canetas emagrecedoras e pancreatite

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28.02.2026 - 12:31:53

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta público para riscos concretos, especialmente em um contexto de uso indiscriminado, automedicação e expansão do mercado ilegal.

É fundamental afirmar com clareza: os agonistas do GLP-1 representam um avanço significativo no tratamento da obesidade e do diabetes. Esses medicamentos auxiliam na redução de peso, no controle glicêmico e, em muitos casos, contribuem para a diminuição do risco cardiovascular. Não se trata, portanto, de desmerecer fármacos com eficácia terapêutica comprovada. O problema se estabelece quando essas substâncias passam a ser encaradas como soluções milagrosas, desvinculadas de avaliação clínica individualizada, do histórico do paciente e do necessário acompanhamento médico contínuo.

Os dados brasileiros — 225 notificações de pancreatite e seis mortes suspeitas desde 2018 — devem ser interpretados com cautela, mas jamais com indiferença. Ainda que classificados como “suspeitos”, esses registros expõem fragilidades relevantes tanto no sistema de vigilância sanitária quanto nos padrões de consumo. A subnotificação, amplamente reconhecida por especialistas, sugere que a dimensão real do problema pode ser superior ao que indicam os números oficiais. Agrava-se esse cenário com a circulação de produtos falsificados ou manipulados, muitas vezes sem controle adequado de dose ou qualidade, o que potencializa riscos já existentes.

Um aspecto frequentemente negligenciado no debate público é o fato de que o público-alvo dessas terapias — pessoas com obesidade e diabetes — já possui, por definição, um risco aumentado de desenvolver pancreatite. Essa condição torna ainda mais indispensável o acompanhamento clínico rigoroso, com monitoramento atento de sintomas e interrupção imediata do uso do medicamento diante de qualquer sinal sugestivo de inflamação pancreática. A utilização desses fármacos sem supervisão médica não é apenas imprudente — é potencialmente perigosa.

A decisão da Anvisa de exigir a retenção da receita médica para a compra de canetas emagrecedoras foi correta e necessária, mas revela-se claramente insuficiente frente a um mercado ilegal que movimenta centenas de milhões de reais anualmente. Para enfrentar esse cenário, é fundamental que a fiscalização, a educação em saúde e a responsabilização de quem vende ou prescreve de forma imprudente caminhem lado a lado. Informação de qualidade salva vidas — e sua ausência tem um custo alto demais..

Em última análise, o maior risco associado às canetas emagrecedoras não está apenas na bula, mas na cultura do atalho. Quando a busca por resultados rápidos em perda de peso se sobrepõe aos princípios da medicina baseada em evidências, o desfecho pode ser exatamente o oposto do esperado: mais doenças, mais custos ao sistema de saúde e mais sofrimento. O alerta está dado. Ignorá-lo seria um equívoco coletivo.

*José Israel Sánchez Robles é médico intensivista e nutrólogo

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por José Israel

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