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‘I Swear’ navega pela síndrome de Tourette com humor e empatia

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05.03.2026 - 10:27:34

Vocês devem ter ficado sabendo da polêmica que ocorreu no Bafta, maior premiação do cinema britânico, quando dois atores negros receberam uma ofensa racial enquanto estavam no palco, arrancando exclamações da plateia. O caso repercutiu on-line, mesmo se tratando de um mau entendido: o homem que gritou, John Davidson, é um ativista para pessoas com síndrome de Tourette, uma condição rara, em que a pessoa sofre de tiques e comportamentos compulsivos incontroláveis, entre eles, coprolalia, que envolve falar ou gritar palavrões e outras coisas ofensivas involuntariamente no pior momento possível. Inexplicável mesmo foi o fato de que a BBC estava transmitindo com um atraso de alguns segundos exatamente para cortar as ofensas de Davidson, mas misteriosamente deixou o xingamento racista passar, o que por si só já gerou uma polêmica.

Davidson não estava lá à toa: o filme I Swear, que arrebatou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco na cerimônia, reconta exatamente o seu calvário com Tourette numa época em que ninguém sequer havia ouvido falar nisso. A cinebiografia já abre com um episódio ainda mais polêmico do passado recente do ativista que, ao receber uma comenda da rainha Elizabeth II em 2019, imediatamente gritou “f*da-se a Rainha” assim que entrou na sala.

A cena já dá o tom do filme, que tenta explorar com bom humor os inúmeros desafios enfrentados por Davidson ao longo da vida sem descambar para um melodrama choroso. Há momentos mais emocionais, claro, como quando ele vai parar no hospital após ser agredido na rua com um pé de cabra em algum momento nos anos 1990. Existe, portanto, um grande fator de “rir pra não chorar” na história, que salienta como a ignorância em relação à condição é a maior barreira para a aceitação.

Mas o filme só funciona graças à excelente (e premiada) atuação de Robert Aramayo, de 33 anos. O ator tem o desafio de toda atuação: de transmitir emoções de maneira convincente, ao mesmo tempo em que precisa replicar e incluir todos os tiques do Davidson da vida real. Uma tarefa verdadeiramente desafiadora não apenas por sua natureza, mas também por este ser um filme bem intimista, focado no personagem, o que faz com que Robert esteja constantemente na tela e no centro das atenções.

Fazer uma cinebiografia, porém, é sempre uma faca de dois gumes. Se por um lado o filme merece elogios por ter uma abordagem um pouco diferente e por informar a audiência sobre Tourette, por outro ele ainda cai em armadilhas recorrentes do gênero, como uma certa vilanização de todos que não imediatamente compreendem e aceitam Davidson e uma certa infalibilidade do protagonista ou a beatificação daqueles que o apoiam. Não são coisas que atrapalham a narrativa, mas que já vimos um milhão de vezes.

Apesar de ter sido lançado em outubro do ano passado, o filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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