Carolina Pessoni
Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG).
Mas o mogno plantado ali, em 1959, carrega uma história que mistura mobilização estudantil, consciência ambiental e o nascimento da universidade goiana. O plantio não foi ornamental. Foi um ato simbólico.
Naquele ano, estudantes da então Faculdade de Direito — entre eles João Neder, Pedro Wilson e Iris Rezende — decidiram reagir ao avanço do desmatamento do mogno na região do Bico do Papagaio, que à época ainda integrava o território goiano (hoje norte do Tocantins). Conseguiram uma muda no Lago das Rosas e a plantaram em frente à casa da Rua 20, endereço que já havia se tornado ponto de articulação acadêmica e política.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A árvore cresceu junto com a própria história do Estado e de Goiânia. Sob sua sombra passaram alunos que mais tarde ocupariam cargos de destaque na política e no Judiciário. Ali também se consolidaram discussões que contribuíram para a criação da UFG. Em 1987, o mogno foi tombado como Patrimônio Ambiental, reconhecimento formal de sua relevância histórica e simbólica.
Nas últimas semanas, no entanto, avaliações técnicas realizadas pela Universidade e pela Justiça Federal em Goiás apontaram risco estrutural com possibilidade de queda. Laudos identificaram comprometimento interno significativo, com indícios de deterioração no tronco e nas raízes, o que compromete a estabilidade da árvore. Diante da constatação de risco iminente, foi autorizada a retirada controlada do mogno.
De acordo com as instituições responsáveis pelo imóvel, a remoção será realizada por equipe técnica especializada, seguindo protocolos ambientais e de segurança, com isolamento da área durante a operação para evitar acidentes. Parte do material lenhoso deverá ser preservada para registro histórico, e há previsão de plantio substitutivo, mantendo o compromisso com a memória ambiental do local.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A decisão não foi simples, mas foi fundamentada em critérios de segurança e na responsabilidade de preservar vidas e o próprio patrimônio edificado ao redor, incluindo o casarão histórico que abriga a Casa da Memória.
Em 2018, numa iniciativa que reforça a ideia de continuidade, foi plantado um “mogno filho” em frente à Reitoria da UFG, no Campus Samambaia. O gesto marcou simbolicamente a transferência da história que começou na Rua 20 para o atual centro administrativo da universidade.
A retirada do mogno original encerra um ciclo físico, mas não apaga o significado do plantio de 1959. Ele permanece como registro de um tempo em que estudantes transformaram uma muda de árvore em manifestação pública e deixaram, na paisagem do Centro, um marco da formação política, ambiental e universitária de Goiás. No Centro de Goiânia, a memória nem sempre está apenas nas fachadas. Às vezes, ela cria raízes.
