A segunda temporada de Fallout, da Prime Video, conseguiu usar o feedback dos fãs e da crítica para entregar uma nova leva de episódios mais complexos, coesos, ácidos e interessantes que a sua temporada de estreia. A sátira parece mais viva e escancarada em um mundo em que os acontecimentos hiperbólicos da série perdem para a realidade.
A trama se tornou mais fragmentada ao se dividir em vários núcleos diferentes de personagens que nem sempre convergem entre si fisicamente, mas cujos fios narrativos vão se aproximando para compor a história maior sendo forjada no todo.
Para os fãs dos videogames, nos quais a série não apenas se baseia, mas continua a história sem alienar recém-chegados, a segunda temporada traz muito mais elementos suculentos que contribuem para a narrativa, não sendo apenas referências intertextuais.
O principal exemplo disso foi o retorno e a importância da Nova República da Califórnia após sua construção decepcionante na primeira temporada, agora mais consolidada na trama central. Da mesma forma, a aparição de monstros, como os destroçadores e os supermutantes, e facções, como a Legião, enriquecem a mitologia da série e preparam o terreno para os conflitos que estão se formando. Foi uma senhora expansão de mundo em poucos episódios.
A linha narrativa que mostra o passado pré-guerra também ganhou força, concentrando o maior ônus satírico e de comentário social, mostrando um dedo no pulso do zeitgeist contemporâneo que se tornou mais estranho que a ficção, caminhando a passos largos para o autoritarismo e para a guerra. A trama mostra paranoia, preconceito, xenofobia e intolerância em cores vivas que se aproximam perigosamente da realidade presente.
A narrativa geral ganha mais camadas políticas e morais, explorando com mais fôlego as tensões entre capitalismo selvagem, poder e os limites existenciais da humanidade. O roteiro está mais maduro e confia mais na capacidade da audiência de seguir as ambiguidades dos personagens e dos acontecimentos com menos exposição e mais densidade. Está longe de ser cinema de arte, mas é um bálsamo em um cenário audiovisual que trata a audiência como idiota.
No elenco, os destaques ficam para Walton Goggins como Cooper Howard e Kyle MacLachlan como Hank McLean. O primeiro, apresentado mais como um quase vilão na primeira temporada, se torna quase inteiramente o principal protagonista desses episódios. E o ator segura o tranco de ser tão convincente tanto como herói hesitante no passado como anti-herói endurecido no presente da trama.
Já Kyle MacLachlan, um ator fabuloso, finalmente pode brilhar nas duas linhas do tempo após ter tido um tempo de tela tão limitado na primeira temporada. Seu carisma contagiante e sua atitude positiva causa arrepios ao incorporar no que é objetivamente uma das piores pessoas do mundo da série, tão sedutor quanto desprezível.
No final, a temporada quase peca por ser muito curta, terminando com diversos cliffhangers posicionados que prometem uma intensa terceira temporada. A expectativa é de que a série continue ousada em apresentar um conteúdo ao mesmo tempo divertido e instigante sobre nossos tempos.
