Outro dia uma amiga da vida real e do Facebook escreveu que quem não conseguia ser feliz na rede social estava enrolado. Tenho que concordar. São tantas viagens a praias paradisíacas, compras em Miami, visitas ao Louvre, festas descoladas, chopes geladíssimos e pratos de dar água na boca que chegam a mim através da vida maravilhosa dos meus facebook friends que tendo a ficar com uma ponta de inveja. Mas logo passa, porque sei, através da comparação da minha própria vida real com a online, que nem tudo são flores.
De fato, a vida é doce nas páginas da internet. É uma espécie de jornal em que apenas notícias boas ganham as manchetes e onde você é o redator, repórter e editor da sua própria vida. Com um porém: estão faltando bons revisores nas redes sociais, local onde os maiores crimes contra a língua portuguesa são cometidos sem o menor pudor por advogados, médicos, professores, empresários, arquitetos, que, em tese, passaram por bons colégios e freqüentaram os bancos universitários.
Mas voltando ao tema central: a linda vida online. Sabe aquela piada do homem em uma ilha deserta que encontra a Sharon Stone (hoje seria a Angelina Jolie), fica com ela e depois pede para a loira se vestir de homem para poder contar o acontecido para outra pessoa? É mais ou menos essa a lógica da rede social. Antigamente, viajávamos e depois saíamos com nossos álbinhos do Fujioka na bolsa para mostrar aos amigos. Essa exibição foi muito facilitada pelas redes sociais. Quem estiver nesse momento fazendo a trilha inca no Peru já pode postar suas fotos praticamente em tempo real, esfregando na cara de todo mundo como a vida tem sido generosa com você.
Antes mesmo de fazer a digestão do risoto de figo doce colhido nas montanhas dos Alpes acompanhado de um filé de avestruz já postar a foto do dito cujo na web para matar os “amigos” de inveja. E olha que o prato nem estava tão bom assim, mas afinal a questão é: precisa estar bom ou parecer bom?
Assim é a nossa vida editada. Todas as partes chatas, reuniões enfadonhas, brigas com a mulher ou marido, birra de filhos, aquele bife borrachudo do almoço, a preguiça de malhar e até os quilinhos a mais (a gente edita as fotos também) ficam de fora, parafraseando o grande Nelson Rodrigues, da nossa vida como ela não é.