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Arregimentar a língua

A palavra como mediação democrática e como instrumento autoritário

27.01.2026 - 07:45:43
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O filme O Destino de uma Nação (2017) retrata, da perspectiva britânica, um dos momentos mais sombrios da 2a Guerra Mundial, quando a França havia capitulado aos nazistas e a Inglaterra temia uma invasão iminente. Nesse contexto, recém-nomeado primeiro-ministro, Winston Churchill resistiu tenazmente a forças, dentro de seu próprio Partido Conservador e de seu gabinete, que defendiam a busca de um acordo com Hitler.

O filme toma suas liberdades para efeito narrativo e mistura três discursos especialmente famosos de Churchill proferidos nessa época—Blood, toil, tears and sweat, We shall fight on the beaches e This was their finest hour—para encenar o ponto de virada político em que ele bloqueou definitivamente qualquer caminho que levasse à negociação, afirmando que capitular ou firmar um acordo com os nazistas seria moral e estrategicamente inaceitável.

Nesse momento do filme, um de seus adversários lamenta e explica o ocorrido dizendo que “ele arregimentou a língua inglesa e a enviou para a batalha”, ressaltando o poder da retórica do primeiro-ministro.

Essa frase me veio à mente ao ouvir o comentado discurso do premiê canadense Mark Carney durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Guardadas todas as diferenças históricas e políticas, foi também uma daquelas raras situações em que a palavra pública pareceu recuperar densidade e consequência.

A força de seu discurso, num momento em que a Europa hesita em dar uma resposta à altura das ameaças de Donald Trump e enquanto outros países simplesmente capitulam diante de suas chantagens, tornou-se ainda mais contundente diante do discurso do próprio Trump proferido um dia depois também em Davos. Colocados lado a lado, esses textos são uma aula sobre democracia, autoritarismo e o papel diferente da retórica em ambos os contextos.

O discurso de Carney encarna o melhor de um modelo de política democrática madura — realista, orientada por valores compartilhados e pelo pragmatismo coletivo —, enquanto o discurso de Donald Trump é a mais elevada representação da antipolítica: uma retórica centrada em narcisismo, polarização, afirmações factualmente duvidosas e uma visão instrumental do poder, que rejeita a complexidade do processo democrático e a cooperação global.

Em síntese, Carney parte do reconhecimento de que já vivemos em um mundo pós-ordem liberal. Argumenta que essa ordem não entrou em colapso por excesso de idealismo, mas porque foi corroída por usos seletivos e oportunistas de suas próprias regras. A resposta, sustenta, não está nem na capitulação ao nacionalismo nem na nostalgia institucional, mas num realismo democrático cooperativo: ação coordenada, pragmática e orientada a resultados entre países dispostos a assumir responsabilidades coletivas.

Trump, por sua vez, descreveu o mundo a partir de si mesmo. A política internacional aparece como extensão direta de sua liderança pessoal: conquistas substituem diagnósticos, antagonismo no lugar de mediação e afirmações em vez de justificativas públicas. O resultado é um discurso que nega a complexidade do mundo, em lugar de tentar ordená-la

Não surpreende, portanto, que, em um encontro posterior com líderes empresariais ainda durante o Fórum, Trump tenha arrematado: “Eles dizem que sou um tipo horrível de ditador… Eu sou um ditador, mas às vezes você precisa de um ditador.” A frase não é um deslize: ela explicita uma concepção de política em que a palavra não serve para justificar decisões, mas para afirmá-las como vontade pessoal.

Embora a cena do discurso público, em que um líder fala a muitos, tenha perdido algo de sua força em um mundo hiperconectado, ela atravessa regimes políticos com sentidos radicalmente distintos evidenciados de forma lapidar por Carney e Trump em Davos.

Na democracia, o discurso é uma fala que, paradoxalmente, sobe do público ao líder, ainda que pronunciada por ele. Ela é resposta, mediação e tentativa de síntese. No autoritarismo, o movimento se inverte: o discurso desce do líder ao povo, não para justificar decisões, mas para fixar sentidos, encerrar conflitos e definir os polos do embate.

Na era das redes, o discurso formal perdeu sua centralidade informativa, mas preservou, e talvez tenha intensificado, sua função simbólica: não a de comandar o debate, mas a de revelar como o poder se compreende e se exerce. Trump não esconde sua inclinação autoritária. Ao mesmo tempo, felizmente, a política democrática ainda demonstra sua força ao mostrar que palavras podem arregimentar não pela imposição, mas pela capacidade de nomear a realidade, reconhecer limites e convocar à ação coletiva.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / pedro@sertaofilmes.com

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