Carolina Pessoni
Goiânia – Durante décadas, o Lyceu de Goiânia foi mais do que um colégio: tornou-se símbolo de formação intelectual, debate público e identidade urbana. Instalado no coração da capital, o prédio atravessou gerações, mudanças de modelos educacionais e transformações no próprio Centro de Goiânia. Agora, às vésperas de sua reinauguração, o Lyceu se prepara para viver um novo tempo sem romper com o passado que o consagrou.
O chamado “novo Lyceu” nasce do encontro entre preservação histórica e projeto educacional contemporâneo. Depois de quase nove décadas de funcionamento e sem nunca ter passado por uma reforma estrutural completa, o prédio histórico entra em 2026 reconfigurado, ampliado e reposicionado como referência da rede pública estadual. A entrega oficial está marcada para o dia 23 de janeiro e marca não apenas a reabertura de uma escola, mas a reativação simbólica de uma área central da cidade.
Durante vistoria às obras, o governador Ronaldo Caiado destacou o caráter inédito da intervenção. “O que estamos fazendo hoje é uma restauração completa do prédio, adequando-o às exigências atuais da educação. E buscamos também manter a característica dele, que nasceu na cidade de Goiás como uma instituição bilíngue”, afirmou. Em seguida, reforçou o vínculo pessoal e histórico com o projeto: “Uma das minhas maiores paixões é recuperar a história de Goiás, as nossas tradições. O Lyceu estava abandonado, nunca havia passado por uma obra completa”.

Novo Lyceu será inaugurado na noite desta sexta-feira (23), pelo governador Ronaldo Caiado (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Tombado desde 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o edifício teve suas características art déco preservadas, ao mesmo tempo em que recebeu uma expansão moderna. Segundo o governador, o impacto ultrapassa os muros da escola. “Essa intervenção respeita as características art déco do prédio e, ao mesmo tempo, traz uma expansão moderna que já está provocando um movimento de revitalização no Centro de Goiânia. Os prédios vizinhos começaram a se recuperar, as fachadas estão sendo restauradas. É o resgate de uma região inteira”, completou.
Com investimento de cerca de R$ 20 milhões, as obras incluem infraestrutura, mobiliário, equipamentos e material didático. A nova estrutura conta com 22 salas de aula, laboratórios, auditório, quadra poliesportiva reformada e estrutura tecnológica completa, com capacidade para atender 800 estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e da 1ª à 3ª série do ensino médio, em regime integral.
À frente da condução pedagógica do projeto, a secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli, define o Lyceu como uma escola com identidade própria. “O Lyceu é um colégio que tem a vida própria aqui dentro do Estado de Goiás. Uma escola que começou em Goiás e hoje está aqui em Goiânia. E que agora, depois de tantos anos, está passando por esse processo de reforma, de revitalização”, afirmou.

Novas salas de aula, laboratórios, auditório e quadras poliesportivas compõem o complexo (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Segundo ela, o crescimento da unidade é também simbólico. “É uma alegria poder trazer de volta o Lyceu com a força que ele já teve em anos anteriores. Ele sai de 180 alunos agora para 800 alunos. E nós estamos recebendo alunos de diversas classes sociais”, disse. O modelo de acesso, que contempla estudantes da rede pública, da rede privada e alunos que já integravam a escola, reforça a proposta de diversidade e equidade. “O que a gente mais quer é ofertar ali uma educação de qualidade que sirva de exemplo, inclusive, para o país”, completou.
O diferencial pedagógico do novo Lyceu está na retomada do ensino bilíngue francês-português. “É um modelo único, bilíngue francês-português”, afirmou a secretária, ao destacar a estrutura física e pedagógica como elementos centrais do projeto.
A procura pelas vagas confirma a expectativa. Mais de 1,5 mil solicitações foram registradas para as 800 vagas disponíveis, sendo cerca de 30% oriundas da rede privada. Para Gavioli, o dado reflete uma mudança de percepção sobre a escola pública. “Isso demonstra a confiança das famílias na escola pública de Goiás. Muitos pais enxergam hoje na nossa rede uma oportunidade real de educação de qualidade para seus filhos”.

Mais de 1500 solicitações foram feitas para ocupar as 800 vagas disponíveis da unidade (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
O impacto da obra também se faz sentir no entorno. “Os prédios ao redor, o comércio ao redor e a questão da segurança ali também passam a ter um olhar muito especial a partir da inauguração do colégio, porque muda tudo”, observou a secretária. Segundo ela, já há registros de revitalização de comércios, recuperação de fachadas, melhorias nas calçadas e reforço na segurança, acompanhando a reativação do Lyceu como polo de circulação diária.
Assim, o novo Lyceu de Goiânia se apresenta não apenas como uma escola reformada, mas como um projeto que conecta passado e futuro, educação e cidade, patrimônio e inovação. No coração do Centro, o colégio volta a ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu: o de formar pessoas e, ao mesmo tempo, ajudar a redesenhar o espaço urbano ao seu redor.
História
Fundado em 1846 na cidade de Goiás pelo presidente da província, Barão de Ramalho, o Lyceu de Goiânia é um dos primeiros colégios secundários do Brasil. Com a mudança da capital, o colégio foi transferido para a nova cidade em 1937 por Pedro Ludovico Teixeira, pois seria muito oneroso manter dois colégios.
Tombado como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2003, o prédio da escola em Goiânia foi concebido pelo próprio Attilio Correa Lima, o mesmo arquiteto responsável pelo plano urbanístico da Capital, e posteriormente modificado pelo escritório dos irmãos Coimbra Bueno. O estilo é uma mesclagem entre o colonial e o art déco, com fachada reta, pórtico na entrada principal, pilares e os marcantes portões de ferro.

Em 2026, Lyceu completa 89 anos da transferência para Goiânia (Foto: Iphan)
Foi o primeiro colégio estadual da Capital e que oferecia o que é hoje é conhecido como Ensino Médio, voltado para a elite. Mesmo com a democratização da educação e o surgimento de outras escolas na cidade, o Lyceu ainda é uma referência.
Com quase dois séculos de existência, o Lyceu formou grandes nomes da sociedade goiana, como o ex-prefeito Iris Rezende, ex-ministro Henrique Meirelles, o ex-governador Alcides Rodrigues, os ex-prefeitos Pedro Wilson e Nion Albernaz, o escritor Bariani Ortêncio, o poeta José de Aquino e o artista plástico Amaury Menezes. Quando ainda funcionava na antiga capital, outras personalidades da história de Goiás também passaram por lá, como o idealizador de Goiânia Pedro Ludovico e seu filho Mauro Borges, ambos ex-governadores do Estado, e escritores como José J. Veiga e Bernardo Élis.