Yoo Man-su venceu na vida: seu trabalho como um gerente altamente especializado em uma fábrica de papel lhe assegurou tudo o que um homem moderno sempre quis. Uma carreira sólida e respeito dos seus pares; uma linda casa com um jardim bem cuidado; uma vida segura e confortável para sua esposa e filhos. Ele está contente: prova viva de que a meritocracia funciona e que apenas num sistema econômico e político como o capitalismo liberal sua história de sucesso seria possível.
Até não ser! Um indiferente conglomerado americano adquire a fábrica, o que certamente rende milhões para os seus chefes, enquanto a cabeça de Man-su é a primeira na guilhotina mesmo após anos e anos de dedicação e lealdade a um trabalho pelo qual ele é não apenas apaixonado, mas no qual é especializado. Nada importa: com uma mão na frente e outra atrás, ele acaba na rua, substituído por um sistema de robôs e IA, ainda por cima.
Começa aí uma crise existencial terrível: como começar do zero após décadas de esforço? De repente: uma luz. Man-su descobre que uma única fábrica está contratando para uma posição perfeita pra ele, mas com uma vaga só. Um rápido levantamento aponta que existem outros gerentes desempregados sofrendo do mesmo mal. E agora? Parece que Man-su terá que sujar as mãos para, de forma literal e definitiva, eliminar a concorrência.
Dirigido por Park Chan-wook, mais conhecido por sua Trilogia da Vingança, o cineasta deixa o thriller em segundo plano para adotar uma abordagem diferente que valoriza a comédia. Como Parasita antes dele, A Única Saída deixa o drama um pouco de lado em prol de um humor maravilhoso e terrivelmente ácido para criticar os maiores buracos no “espírito do tempo” do capitalismo tardio. Papéis de gênero, desigualdade social, tecnologia alienante, precarização, etarismo, a mão invisível do mercado e, principalmente, a meritocracia: nada sai incólume sem levar pelo menos algumas bordoadas.
E essas críticas são feitas de forma orgânica e envolvente, em meio a muitas trapalhadas, enquanto Man-su tenta ir de homem de família para assassino em série na sua missão de conquistar novamente o emprego perfeito e uma posição de prestígio na sua área. Uma lufada de ar fresco em meio a filmes viciados em dar explicações detalhadas e didáticas para a audiência sobre tudo o que tem a dizer.
A própria obsessão de Man-su e seus colegas é comicamente exposta repetidas vezes: todos eles possuem tempo e condições de recomeçar de outra forma, enquanto suas recusas constantes não apenas levam ao crime, mas à autodestruição irreversível.
O filme é sutil, inteligente e hilário. Sua conclusão não é agridoce e nem amarga, mas adstringente: causando um estranhamento delicioso que o diferencia dos seus prováveis concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Enquanto a concorrência aposta em dramas sisudos, A Única Saída oferece a mesma acidez sem perder o poder afiadíssimo do humor.
