Escrever para mim é questão de sobrevivência. É o que ajuda a dar alguma ordem ao caos interno e a vencer minha tendência de embotamento. Todavia, é um ofício que traz suas próprias angústias, sendo a principal delas a percepção de que precisamos falar menos e ouvir mais, pois nosso tempo padece de excesso de opiniões e de ruído. Difícil conciliar, portanto, essa necessidade de me expressar com a cautela devida diante de um mundo complexo e para o qual é difícil encontrar sentido.
É um conflito interno que se aguça diante da enxurrada de certezas e das sinalizações de virtude em um episódio como o da invasão americana da Venezuela. Como não celebrar a derrubada de um ditador sanguinário que vem destruindo seu país e matando e torturando seu povo há mais de uma década? Os venezuelanos, em sua maioria, comemoram, num misto de alívio e apreensão com o futuro. Comemorar a queda do ditador não significa, entretanto, chancelar um ato grotesco de imperialismo e absoluto desrespeito ao direito internacional — algo que, ademais, projeta uma longa sombra sobre toda a América Latina diante da possibilidade de retorno da interferência americana direta sobre a política no continente.
Acho que é possível, entretanto, administrar os sentimentos contraditórios. É o que pessoas adultas fazem com quase tudo em suas vidas cotidianas. É o que a própria ideia de democracia propõe na esfera pública: tentar conciliar demandas que se chocam. Do ponto de vista individual, basta amadurecer um pouco emocionalmente e aceitar de forma aberta a ambivalência, sem afundar na hipocrisia dos que condenam a invasão americana, enquanto seguem incapazes de chamar Chávez e Maduro de ditadores — como faz tanta gente à esquerda; ou na dos que, à direita, celebram a invasão “em nome da democracia”, como se Trump estivesse interessado nela e como se nossa extrema-direita golpista e vira-lata guardasse também qualquer apreço pelo Estado de Direito.
“Para a ‘brigada do mas’, somente o desprezo” é uma frase de Salman Rushdie dirigida aos que relativizam extremismos e autoritarismos. Não há senão ou justificativa aceitável para a barbárie — nem a de Maduro, nem a de Trump.
Sugiro, para alguma humildade ao tratar do assunto, a leitura do texto da escritora venezuelana Maria Elena Morán, de que reproduzo alguns trechos:
“É gravíssimo o que aconteceu hoje e o que o pode vir a acontecer, mas não é mais grave do que tem acontecido nas últimas duas décadas no meu país. (…) Eu gostaria de ver toda enxurrada de apoio e solidariedade com a Venezuela e me sentir acompanhada por vocês. Mas acontece que, até hoje, a maior parte do tempo eu tenho me sentido profundamente sozinha nesse assunto. Muitas das pessoas que hoje estão esbravejando, colmadas de indignação, nunca se pronunciaram contra os horrores da ditadura. Alguns até têm pudor de chamá-la pelo seu nome. Os 8 milhões de venezuelanos fugindo do país, os milhares de presos políticos sem direito ao justo processo, as torturas e as execuções extrajudiciais, a censura e asfixia dos meios de comunicação, a perseguição e opressão diárias, o roubo das eleições no ano passado e um longo etcétera de atrocidades nunca mereceram essa solidariedade que hoje inunda meu feed (…) O nome disso é indignação seletiva, dupla moral.
“(…) Pois saibam que o nosso sofrimento não é teórico. Nós vivemos de violência em violência faz mais de duas décadas. Li em milhões de lugares que os problemas dos venezuelanos precisam ser resolvidos por venezuelanos. É o ideal, mas, vocês vão me desculpar: ou estão muito desinformados ou estão se fazendo de sonsos ou são mau caráter mesmo. Antes de chegar nesse ponto, os venezuelanos tentamos de tudo, mas parece que não deu muito IBOPE. Tomar as ruas: centenas e centenas de mortos a cada tentativa. Diálogo e negociação: Noruega que conte como se saiu nisso. Via eleitoral: não preciso me repetir. Sanções: fome pro povo e coceguinhas pro governo. Apoio internacional: risos. Tentamos tudo e nos deixaram sozinhos.
“(…) ninguém na Venezuela está comemorando bombas e, pelo menos no meus círculos, são poucos os que comemoram uma transição tutelada. Ninguém queria que fosse desse jeito, a gente só queria que fosse. E não, não somos bobos, sabemos e sempre soubemos que ele está e sempre esteve atrás do petróleo. Ou vocês acham, de verdade, do alto da sua arrogância, que isso é novidade pra nós, um país cuja historia moderna é a da maldição do ouro negro? (…) A gente sabe disso e, AINDA ASSIM, sente alívio com a imagem de Maduro preso. Isso deveria dar uma medida do sofrimento que o povo venezuelano tem aguentado.
“Vocês não imaginam o desesperador que é, sendo uma pessoa que se considera de esquerda e democrata, desejar com tanta vontade a queda do regime que você aceita que um câmbio aconteça do jeito que for. É que, numa ditadura, a única certeza é a impossibilidade. É uma tragédia que tenha sido Donald Trump o nome a fazer isso acontecer; é o pior sujeito, agindo do pior jeito.
“(…) Vocês são livres para sentir e opinar o que quiserem, mas eu quero deixar aqui meu singelo pedido para serem respeitosos e tenham a delicadeza de não querer explicar para um venezuelano o que está acontecendo com seu país. A teoria não comporta o que a gente e os nossos seres queridos têm vivido.
“(…) veio a dor de constatar que a solidariedade de hoje não é com a Venezuela, é com a ideia romântica da revolução, que muitos querem defender para além do crível, é com o ditador de estimação de uma galera.”
Como se vê, a capacidade de relativizar ideias e posições é uma virtude democrática. Todavia, para que não solape a própria democracia, o relativismo demanda de nós duas coisas: não absolutizá-lo — “devemos ser relativistas, mas precisamos relativizar também o relativismo”, ensina-nos o sociólogo Bruno Latour — e empreendermos o árduo e constante esforço pela coerência moral — humilde, mas única fonte possível de dignidade.
Fora disso, para a brigada do “mas”, somente o desprezo.
