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O Menino e o Mistério do Mundo

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28.12.2025 - 09:30:03

A beleza contida na imagem onírica atribuída a Santo Agostinho (354-430 d.C.): o “Menino e a Praia”, narra um dos episódios mais enigmáticos com os quais a experiência humana pode se defrontar. O menino, empenhado em encher um buraco na areia com a água do mar, transporta-a com as próprias mãos em movimentos contínuos, aparentemente inúteis. Diante da cena, o Santo adverte o menino sobre a impossibilidade de tal tarefa. A resposta, porém, inverte a lógica da razão humana:

“É mais fácil encher com toda a água do mar aquele pequeno buraco na areia, do que compreender plenamente a solenidade do mistério da Santíssima Trindade”.

Esse episódio não aponta para uma simples limitação intelectual, mas para o reconhecimento de um limite ontológico. Em Agostinho, o “mistério” não é aquilo que se opõe à razão, mas aquilo que a ultrapassa. É nesse ponto que ciência e religião podem se aproximar, quando ambas se deparam com realidades que escapam ao domínio da mensuração e da explicação exaustiva.

A cena do buraco na areia, constantemente preenchido e esvaziado pela água do mar, pode ilustrar imagens contemporâneas da física, como a hipótese do ‘buraco de minhoca’ (a união de dois buracos negros), conexões invisíveis entre dimensões aparentemente distantes. Essa analogia, contudo, não pretende explicar o mistério trinitário, trismegisto, ou três vezes maior, mas apenas sugerir sua profundidade simbólica; o visível torna-se sinal do invisível.

Para Santo Agostinho, a Santíssima Trindade não é um enigma externo a ser resolvido por operações lógicas, mas uma realidade que se manifesta na interioridade. Trata-se de uma força que intercambia o externo e o interno, o mundo e a alma. Não por acaso, Agostinho flerta com a filosofia e comunga da mesma ideia de Sócrates (470-399 a.C.): “Conheça-te a ti mesmo”. O verbo invocar, do latim invocare, significa precisamente esse chamado para dentro, um movimento de interiorização que conduz ao autoconhecimento, ao bem, à beleza e à bondade.

Nesse sentido, Agostinho não foi apenas um santo ou um teólogo, mas um dos maiores filósofos da interioridade. Seus escritos antecipam, de modo surpreendente, questões que mais tarde seriam elaboradas pela filosofia moderna e pela psicanálise, principalmente nos estudos místicos do psicanalista, Carl Jung (1875-1961): “Quem olha para fora, sonha: quem olha para dentro, desperta”. Sua investigação da natureza humana revela um pensador que compreende o conflito interior como condição da existência, e não como falha moral simplista.

Embora seja anacrônico classificá-lo a partir de correntes posteriores, é possível reconhecer em seu pensamento um diálogo fecundo com o estoicismo, o neoplatonismo, o misticismo e a metafísica. Não se trata de um niilismo propriamente dito, mas de uma radical desconfiança das ilusões do mundo sensível quando desconectadas do sentido último do ser. Por isso, as ideias agostinianas ultrapassaram os limites da religião, influenciando a filosofia, a psicologia, a estética e a ética.

O sonho do “Menino e a Praia”, à maneira agostiniana, não ensina a desistência da razão, mas sua humildade. Ele nos recorda que há mistérios que não se deixam conter em conceitos, assim como o mar não cabe em um buraco na areia. Compreender, em Agostinho, não é dominar o mistério, mas permitir-se ser transformado por ele. A Santíssima Trindade, assim como a verdade interior, não se alcança pela acumulação de saberes, mas pelo movimento incessante de retorno a si mesmo, onde o finito toca o infinito, e a busca humana encontra, não respostas finais, mas sentido.

 

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por Tatiana Potrich

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