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O mar sempre foi o sertão

06.10.2025 - 17:46:00
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Em artigo intitulado O mar virou sertão (piauí_225, junho de 2025), o jornalista Fernando de Barros e Silva lamenta a sorte de um Brasil cada vez mais refém de suas elites agrárias retrógradas – o famigerado agro.
 
Não é segredo que a economia brasileira se reprimarizou, ou seja, voltou a se concentrar nas commodities agrícolas e minerais. Dos anos 1980 para cá, houve uma expressiva redução da participação industrial não apenas nas exportações, mas também no PIB, e um crescimento proporcional do setor agrícola e de minérios. Os dados citados por Barros e Silva – extraídos do livro Classe trabalhadora na capital do agronegócio, do sociólogo Luiz Felipe Ferrari Cerqueira de Farias – apontam para um recuo da indústria na economia brasileira de 21,1% para 11,9%, entre 1980 e 2020, e nas exportações de 59% para 36%.
 
Em sentido contrário, a participação das commodities no total exportado saltou de 23% para 51% no mesmo período. Toda a cadeia do agronegócio – lavouras e agroindústria –, segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), produz 23,2% do PIB brasileiro. A título de comparação, nos Estados Unidos, maior exportador agrícola do mundo, o conjunto agricultura/agroindústria representa apenas 5,5% do PIB e 8,4% das exportações, de acordo com o Departamento de Agricultura e o Farm Bureau americanos.
 
 No Brasil, à importância econômica do agronegócio correspondeu um crescimento do poder político desse setor. Hoje, ele dispõe não apenas de mais dinheiro como soube usá-lo para estruturar uma máquina potente de lobby e propaganda, ancorada em instituições como a CNA e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja). A elite agrária ocupou espaços e agora tem mais força para ditar os rumos da República do que a elite industrial e urbana outrora preponderante.
 
Diante desse quadro, Barros e Silva traça um cenário de terra arrasada para o Brasil – econômica, política e culturalmente –, sintetizado na metáfora que dá título ao seu artigo. A expansão da fronteira econômica, para o jornalista, já não deixaria em seu rastro sequer um arremedo de civilização. Em direção contrária, a ganância e a rapinagem que movem o agronegócio se expandiram por todo o território e converteram o Brasil, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, em uma grande fronteira agropecuária – a fronteira que, nas palavras do sociólogo José de Souza Martins, “se expressa na mortal conflitividade […], no desencontro genocida de etnias e no radical conflito de classes sociais, contrapostas não apenas pela divergência de seus interesses econômicos, mas sobretudo pelo abismo histórico que as separa”.
 
Embora eu não discorde dos fatos que embasam a análise de Fernando de Barros e Silva, por quem tenho admiração e respeito, incomoda-me o ponto de partida da interpretação feita, bem como algumas generalizações que soam enraizadas em velhos preconceitos.
 
Toda a análise do jornalista assume um tom lamentoso e nostálgico, que não deixa de ser característico do olhar das elites urbanas progressistas brasileiras – dentro das quais me incluo, vale dizer. Segundo essa visão, que tem na sociologia uspiana seu centro nevrálgico, o Brasil é o país das oportunidades perdidas. Em função das assimetrias de riqueza e poder consolidadas desde nossa história colonial, criamos uma sociedade em que elites gananciosas e violentas exploram a pobreza e nossas riquezas naturais, acumulando fortuna em detrimento de um projeto mais democrático, igualitário e sustentável de país.
 
Em que pese o fato de que, sim, temos elites fisiológicas e patrimonialistas que capturam o Estado em seu benefício, aqui reside, a meu ver, um primeiro problema na análise de Barros e Silva. Ele parece crer que o “projeto do agro” teria prevalecido em meio a uma batalha histórica contra um projeto oposto – o da modernização esclarecida, democrática e igualitária. 
 
“Brasília, a cidade-síntese da nossa utopia modernista, projetada para ser a materialização da integração nacional (tanto do território como de uma sociedade digna do nome, que redimisse as feridas da herança colonial), não passa de uma velha senhora, uma espécie de museu a céu aberto de uma aposta histórica que não vingou. Temos a impressão, isso sim, de que o país, de lá para cá, não parou de se vingar da ousadia de Oscar Niemeyer”, argumentou Barros e Silva.
 
Há aí um equívoco que parece vir da crença de que o projeto das elites vencedoras da Revolução de 1930 tinha algo de “moderno” – qualquer que seja o sentido que se dê a essa palavra muito problemática. Ora, no bojo desse projeto, a construção de Brasília serviu como ponta de lança e elemento fundamental para a abertura da fronteira agrícola no hoje ameaçado Cerrado brasileiro. Construir a capital federal na região de Goiás não foi uma aposta histórica que não vingou. Ao contrário, teve imenso êxito em integrar o país a partir da expansão da agricultura comercial.
 
Brasília, sem demérito de suas qualidades, é parte da Marcha para Oeste – assim como Goiânia, onde moro e que antecedeu a capital federal como cidade planejada. Brasília abriu caminho para que o projeto de um Brasil urbano e moderno se estendesse até o Cerrado. A ditadura militar seguiu no mesmo rumo, adotando o slogan “uma terra sem homens para homens sem terra”, que ampliou o espetáculo trágico do morticínio de indígenas, da grilagem de terras e dos conflitos sem fim que ainda hoje caracterizam as fronteiras do Oeste e do Norte do país.
 
Nunca houve, portanto, essa guerra perdida entre dois projetos, exceto em nossos sonhos progressistas embalados pela bossa nova. Chegamos aqui, na verdade, carregados por um projeto contraditório de país, em que a “modernização periférica”, como se tornou costume dizer desde a obra de Octávio Ianni e Florestan Fernandes, se enraíza em estruturas arcaicas, que segue atualizando para concentrar renda e se aproveitar da competitividade espúria obtida na sobre-exploração dos recursos naturais.
 
 
 
Essa contradição, entretanto, não impediu que o país promovesse a inclusão econômica, reduzisse a pobreza, conquistasse a estabilidade da moeda, e demarcasse, entre outros avanços, mais de 110 milhões de hectares em terras indígenas e outros cerca de 160 milhões em unidades de conservação – o equivalente a praticamente um terço de nosso território, em que pesem os desequilíbrios entre biomas e regiões.
 
Além disso, a modernização brasileira criou esta potência científica que é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que tornou possível a agricultura em larga escala no Cerrado, onde poucos a julgavam factível. Foi também esse nosso projeto de país que implementou o Proálcool, maior programa de geração de energia a partir de biomassa, que ajudou a consolidar uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta.
 
Por isso, a interpretação de Barros e Silva me parece simplificadora. Segue contrapondo dois Brasis, o arcaico e o moderno, sem ver como se interpenetram, como o arcaico se desdobra no moderno e como o moderno tem meandros arcaizantes.
 
Essa tendência de desenhar clivagens perfeitas, como faz o jornalista, aparece também na sua crítica cultural. Ao associar a música sertaneja ao “pacote agro” e tratá-la como um subproduto menor, Barros e Silva repete a mesma divisão simplificadora: de um lado, uma cultura urbana legítima e sofisticada; de outro, um pastiche cafona, expressão do atraso.
 
A situação aqui é também mais complexa. A música sertaneja não é só a trilha sonora dos fazendeiros ricos, mas de grande parte da população, tanto rural quanto urbana. Como lembra o historiador Gustavo Alonso, citado pelo próprio jornalista, a distinção rígida entre “música caipira” – de raiz e autêntica – e “sertanejo industrial” se funda mais em preconceitos do que em fatos.
 
Sociabilidade e cultura, como mostrou Antonio Candido ao falar do próprio Brasil caipira, não caminham separadas dos modos de produzir e sobreviver. Reduzir o universo do agronegócio à estética de mau gosto é desprezar formas de pertencimento e aspirações que atravessam a vida de trabalhadores pobres de todo o país. A crítica do jornalista torna-se, assim, também um ataque às culturas populares e acaba reforçando, em vez de superar, os estigmas que nos dividem.
 
Não se deve celebrar o agronegócio de forma acrítica, mas também não podemos negar sua relevância. Sabe-se que ele produz desigualdade e muitas vezes a destruição ambiental, mas também riquezas. O futuro do país, portanto, não está em rejeitar o agro como negócio arcaico e abjeto, mas em reorientar suas forças para um projeto nacional capaz de integrar produção, inclusão e preservação.
 
Se insistirmos em contrapor o agronegócio a uma modernização idealizada que poderia ter ocorrido, mas não aconteceu no país, pavimentaremos o caminho para que alguns se aproveitem desse fosso conceitual com o objetivo de dividir ainda mais a sociedade e as forças políticas do país. Esse é o caminho para que os piores interesses sigam ditando os rumos do Brasil. O nosso desafio é aprender a habitar civilizadamente essas terras do agronegócio, fazendo delas não uma fronteira, mas uma parte do país que desejamos.
 
*Pedro da Costa Novaes: Geógrafo, diretor de cinema e pesquisador da Iniciativa Cerrados da Fiocruz. É mestre em ciência ambiental pela USP e doutorando na mesma disciplina pela Universidade Federal de Goiás.
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por Pedro Da Costa Novaes
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