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No fundo da garrafa tem sempre um caldo

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28.08.2025 - 08:21:42

Aos 20 anos você faz um esforço imenso para pertencer a alguma turma. Se for bem-sucedido na primeira iniciativa, aos 30 o seu território de caça está mais ou menos definido. Aos 40 anos vem a consolidação do projeto de vida. Época de ganhar, gastar e guardar dinheiro. A década seguinte é dedicada ao exaurimento das maravilhosas conquistas e à adaptação ao medo da velhice no final desta reta. É quando você viaja pelo mundo a falar algum tipo de inglês sem constrangimento, como praticam espanhóis e italianos. Pare de se penitenciar. Eu entendo, mas não falar inglês em um determinado momento da sua vida é uma conquista grande. Siga a sabedoria dos mais velhos: se entende, não precisa falar, só escuta.  

Sessenta anos é um encontro de contas. Na sexta década você perde o controle da contabilidade do tempo. Pode mentir em uma boate sertaneja que tem 58 com 65 anos nas costas. O fato é que ficar velho é uma contagem regressiva implacável. Amanhã será um novo dia, mas um dia a menos e não há nada da finitude pessimista nisso. É matemática. Para piorar, essa eterna crise política de esquerda e direita deixa a expectativa de vida mais curta na medida em que te torra tempo e paciência preciosos. Se você não teve competência de ficar rico, ser de classe média já é um ótimo padrão para um país eternamente pobre e pendurado na vara de caranguejos do Estado.

No meu tempo de infância, o grande desafio de sobrevivência saudável era não contrair poliomielite. A minha geração é repleta de pessoas ricas e pobres, brancas e pardas, com alguma atrofia dos braços ou das pernas provocada pelo que se chamava de paralisia infantil. O poliovírus se propagava pela via oral e fundamentalmente por conta das precárias condições sanitárias do Brasil. A vacina foi desenvolvida pelo cientista judeu americano, nascido na Polônia, Albert Sabin, em 1961, mas só chegou ao país efetivamente três anos depois.

Mesmo assim, a vacina Sabin, a princípio, não era gratuita para todos. Não havia o SUS para promover imunização em massa. Só em 1980 houve uma estratégia pública de vacinação com base em critérios internacionais, o que culminou com a erradicação da doença infectocontagiosa no final da década seguinte. Naquele tempo, o acesso ao serviço público de saúde era reservado ao contribuinte da Previdência Social, em uma rede de atendimento chamada INAMPS. Havia ainda alguma assistência em saúde dos sistemas filantrópico e próprio das empresas estatais. Para quem podia pagar, como hoje, tinha o médico e o hospital particulares.

Eu fui enviar o material de divulgação do meu livro e no fundo do poço do WhatsApp havia uma lista de mortos. Um monte de gente que morreu a quem dedico a tristeza doída de ler nome por nome e não os apago da agenda. Depois dos 60 anos você vive uma escassez hídrica de amigos. Alguns simplesmente morreram e outros se desidrataram por uma questão de não ser mais interessante conviver. Continuamos amigos, mas não nos encontramos, não recomendamos um livro e nem morremos de saudade do bar Dom Quixote. Nem os bons tempos contam quando você toma a decisão natural de cada vez sair menos de casa. Só não pode aceitar, na condição inercial, que a morte precoce da Preta Gil deixou um vácuo cultural no Brasil. No caso, você precisa de ter uma palestra com um médico de confiança.

Ter amigo novo não é uma tarefa fácil aos 60. Tudo passa primeiro pelo teste da confiabilidade. Depois de ficarem comprovados os baratos afins, se estabelece uma longa amizade com certa previsão para acabar. Em algum inverno atrás, não fiz um, mas um monte de amigos em Passa Quatro (MG), gente que eu deveria ter conhecido antes. Outro dia tive um papo de duas horas com um amigo desde 1984, que eu não conversava há mais de 30 anos. Não vou revelar o nome para preveni-lo de ter a porta da casa pichada com mensagem antissemita. Por outro lado, isto não quer dizer que você deva, aos 60 anos, desenvolver uma conversa com a pessoa ao lado no voo de 10 horas para Madri. Evitar conversas inúteis é poupar tempo da sexta década em diante.

Aos 60 anos você está pronto para rejeitar o parentesco inapropriado. Parente tem de te dar alegria, do contrário é roubada sentimental. O melhor parente é aquele que mora em Roraima e tem problema financeiro para voar até a sua cidade. Não há nada mais inconveniente do que um parente que fica cinco dias na sua casa. Chega um ponto em que você pensa em fugir para Itapirapuã (GO) e se perder num pasto.

Não existe medicamento para reverter a calvície. Não caia na cilada de um dermatologista turco de araque em atuação no Instagram. Você vai ficar com cara de mexicano com peruca. O cabelo começou a cair quando você tinha 30 anos e agora é o final de inevitável tendência. Acabou a parte de chegar ao barbeiro e pedir o corte “meia cabeleira” dos seus tempos de adolescente. Não sobraram 35% da cobertura original e o corte abrange tudo. É cabeleira inteira que deveria pagar meia entrada na barbearia.

Eu tenho uma coleção de amigos com mais de 80 anos, velhinhos que eu conheci no vigor da idade e ainda estão muito bem. A gente conversa sobre tudo e até toma de dia um vinho do Porto. Uma dose. Tem o Gravatá, 83; o Joveny, 89; o Nelson, 82; o Irapuan, 87; o Siqueira, 77 e a Maria Amélia, que não revela a idade, e meu pai, 88. Agora, rola um desespero quando você encontra os amigos que alcançaram os 70 anos. Liga o alarme, pois será você daqui a alguns dias. O sinal mais evidente da situação é que a tua filha está ficando coroa.

Um grande amigo, desde 1977, tem dois anos à minha frente, portanto vai chegar aos 70 primeiro. Quando a gente era adolescente fazia uma diferença enorme, hoje isto não tem importância. Dois anos não são a razão das nossas diferenças que vão ao extremo e depois voltam a ser um reencontro fraterno e instrutivo. Isso tem a ver com o vinho. Na casa dele, e por onde a gente passou, sempre teve uma boa garrafa e comida farta.

Não importa quantas vezes na noite foi acionado o serviço do saca-rolhas e posto em execução certo decanter que gira no próprio eixo e causa alguma desestabilização emocional em parte da galera. O valor da noitada está no fundo da garrafa, naquele restinho que traz o final da felicidade e une as pessoas que você ama. Beba espetacularmente a última gota e faça deste ato o afeto que se encerra na esperança dela ser não ser a sua derradeira taça. O fundo da garrafa tem a gota que nos resta. Calma e respiração nessa hora. Você tem um último caldo para beber no fundo do poço do Brasil com os caros amigos.
 
Marcio Fernandes é jornalista

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por Marcio Fernandes

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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