Logo

Os grandes narradores da infância

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.04.2024 - 08:12:04
Dois livros marcaram profundamente minha infância e, através dela, a forma pela qual olho para o mundo: O Menino Maluquinho, do Ziraldo, que nos deixou no último sábado, e O Menino no Espelho, de Fernando Sabino, falecido em 2004.
 
Suspeito que o sucesso de O Menino Maluquinho se deva à capacidade que Ziraldo teve de sintetizar uma certa visão da infância, que já tinha seu espaço no Brasil e no mundo, mas que ganharia força de fato com os ares de liberdade que o país respirava nos estertores da Ditadura Militar e no início dos anos 1980.
 
O livro expressa como nenhum outro a ideia de liberdade associada à vida das crianças e à riqueza de seu mundo interior, celebra as diferenças e o comportamento divergente e coloca a criança como uma protagonista da sociedade que merece ser levada a sério. 
 
O Menino no Espelho, lançado em 1982, dois anos depois da obra de Ziraldo, vai na mesma direção. Num diálogo sensível entre menino e adulto fala também da infância como lugar onde todas as nossas referências se estabelecem e moldamos nossa visão de mundo. O menino sempre está no homem, como o homem já estava no menino.
 
Do livro de Fernando Sabino, que li e reli inúmeras vezes durante a infância e a adolescência, ficou sobretudo a identificação com a capacidade imaginativa do protagonista. Outras crianças então tinham mundos de fantasia tão vivos, ricos e interessantes quanto o meu? 
 
Como disse Carl G. Jung em sua autobiografia: "O que se é (…) só pode ser expresso através de um mito. Este último é mais individual e exprime a vida mais exatamente do que o faz ciência, que trabalha com noções médias, genéricas demais para dar uma ideia justa da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual".
 
Ziraldo e Fernando conseguiram, nesse sentido, construir mitos da infância. Falando, no fundo, de suas vivências subjetivas e pessoais, lograram ser universais. 
 
Minhas memórias de infância remetem de fato muito mais a realidades imaginadas do que ao mundo exterior. Claro que há as lembranças de horas prazerosas ou assustadoras bem enraizadas no mundo real – com amigos, com meus pais e irmãos. Todavia, se a emoção é o filtro que ordena e hierarquiza o passado, os momentos que sobressaem com maior intensidade são justamente aqueles que, de algum forma, ecoam essa grande narrativa pessoal – que envolve grandes feitos e aventuras, heroísmos, monstros assustadores, injustiças e vitórias, montanhas, florestas, desertos, mares, cavernas, navios, aviões, carros velozes, cavalos, mocinhos, bandidos, viagens especiais e escapadas por um fio, tempestades, meninas encantadoras, paixões, ídolos, futebol, reconhecimento, sucesso, super-heróis, salvar o mundo.
 
O Menino Maluquinho e O Menino no Espelho me fizeram entender que eu não era o único ao mesmo tempo privilegiado e perturbado por uma imaginação prodigiosa e meio fora de controle.
 
Tive o privilégio de conviver, em alguma medida, com essas duas figuras gigantes e generosíssimas, Fernando e Ziraldo, através do meu pai, o jornalista Washington Novaes, que foi amigo de ambos. 
 
Encerro, por isso, com histórias singelas dos dois. 
 
Ziraldo, em 1966, foi quem desenhou o túmulo do meu avô, em Vargem Grande do Sul, interior de São Paulo, onde hoje estão enterrados, além do velho Henrique, também Arlinda, minha avó, meu pai e meu tio Paulo. Uma obra pouco conhecida e única do grande artista visual.

Túmulo da Família Novaes, desenhado por Ziraldo, em Vargem Grande do Sul (SP).
 

Em 1983, Fernando Sabino veio a Goiânia para uma conferência. À noite, meu pai reuniu amigos em casa para um jantar em que o escritor era o convidado principal. Para decepção de todos, entretanto, quem recebeu quase toda a sua atenção fui eu. Passamos a noite trocando charadas e piadas. Dessa noite inesquecível com um dos meus ídolos, guardo essa dedicatória que ele fez para meu irmão João e para mim em um exemplar de O Menino no Espelho.

Dedicatória do Fernando Sabino, em O Menino no Espelho, ao João, 

meu irmão, que dormia àquela hora, e a mim, que consegui permanecer acordado.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]