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A impossibilidade do encontro amoroso

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30.01.2024 - 08:10:16
 
Comecei o ano com releituras de dois grandes livros – ambos tragédias e histórias de amor: Na Praia, do britânico Ian McEwan, e aquele que é apontado por alguns críticos como um dos maiores romances da literatura nas Américas: nosso Dom Casmurro, de Machado de Assis.
 
Separadas por mais de um século, as duas narrativas têm muito mais em comum do que apenas seus gêneros. Ambas são, em larga medida, tratados sobre a impossibilidade da comunicação ou sobre o fracasso inevitável da relação sexual, como talvez prefiram os psicanalistas. "A relação sexual não existe", diz a famosa frase de Lacan.
 
Na novela de Ian McEwan, acompanhamos Florence e Edward, um jovem casal inglês, no início dos anos 1960, durante sua noite de lua de mel em um hotel na praia que dá título ao livro. Em retrospecto, vamos aos poucos entendendo como se conheceram e transcorreu seu namoro, em uma época ainda profundamente conservadora, mas durante a qual grandes mudanças sociais estavam em ebulição. 
 
Alternando os pontos de vista dos noivos, a narrativa constrói grande expectativa em torno da consumação do ato sexual – eles são virgens – e leva, por fim, ao desastre prenunciado a que o desencontro na cama os conduz.
 
Essa estrutura engenhosa não é incomum em histórias de amor modernas. Entre idas ao passado e voltas ao presente, é como se observássemos duas histórias separadas – a primeira, ascendente, relatando o sucesso e o idílio do encontro amoroso, a segunda, descendente, narrando o fracasso e o fim desse mesmo amor. No contraste que se estabelece entre as duas linhas narrativas, cada trama é contaminada pelo sentimento da outra, deixando como resultado uma sensação de tristeza e desalento diante da impossibilidade do amor.
 
Nesse sentido, um excelente filme que guarda muitas semelhanças com Na Praia é Blue Valentine, do diretor americano Derek Cianfrance, que conta com as excelentes atuações de Michelle Williams e Ryan Gosling. 
 
Nele, o presente nos mostra o último dia do casamento dos protagonistas, enquanto o passado, como no livro de McEwan, relata sua história de paixão e casamento. Analiso em detalhe a estrutura narrativa desse filme, que é um dos meus favoritos, em 8 Histórias de Amor: Reflexões sobre a Escrita Dramatúrgica, publicado em 2022 pela Editora Dialética. 
 
Também em comum com o livro, uma parte importante, no filme, desse último dia do casamento, envolve uma tentativa fracassada de relação sexual e tudo o que ela revela sobre a impossibilidade da unidade prometida, pelo mito do amor romântico,  entre as metades de um casal.
 
Mas passemos a esse monumento que é Dom Casmurro. Quase todo o mundo sabe, mas não custa repetir. O romance de Machado de Assis é uma espécie de Otelo brasileiro, referenciado, de forma consciente e evidente, em uma das grandes tragédias de Shakespeare. 
 
Na peça, o árabe Otelo é general das tropas venezianas e responsável pela defesa da rica cidade-estado. Ele se casa com Desdêmona, filha do senador Brabâncio, poderoso político de Veneza. A paixão dos dois é posta em xeque pelas maquinações do perverso Iago, oficial subordinado a Otelo que não suporta ser preterido em uma promoção. Iago tece uma rede de mentiras que leva Otelo a crer que Desdêmona lhe é infiel e a assassiná-la. 
 
Em Dom Casmurro, Bentinho, o narrador, nos relata a história de sua paixão e casamento com Capitu e da construção progressiva de sua certeza da infidelidade da esposa. Ela o teria traído com Escobar, melhor amigo do marido, que seria também o pai verdadeiro de Ezequiel, filho de Capitu e Bentinho. Mesmo pensando em fazê-lo, entretanto, Bentinho não mata Capitu, como Otelo, mas a obriga a um exílio na Europa com a criança, do qual nunca voltará.
 
Como em toda tragédia, o início da trama marca o ápice de seus protagonistas. Edward e Florence não poderiam estar mais felizes. Bentinho e Capitu são adolescentes inocentes no despertar de uma paixão. Otelo é um general poderoso e encontra o que faltava à sua vida de batalhas e violência: um grande amor. Cindy e Dean, em Blue Valentine, logo na primeira cena, representam a família americana idealizada: são loiros, brancos, bonitos, têm uma filha doce, uma casa com jardim, cortinas esvoaçantes e uma cadela Labrador.
 
Passada a apresentação desse status quo, os personagens se mostram, sempre e cada vez mais, como marionetes nas mãos do destino e se colocam em uma trajetória descendente que ganha cada vez mais força e velocidade. 
 
Todavia, o que torna a tragédia tão eficaz como estrutura narrativa, mais que essa inevitabilidade do confronto com o destino, é a repetição de um mesmo princípio. São sempre as próprias escolhas e decisões dos protagonistas – não raro na tentativa mesma de se afastar do destino trágico –  que os impelem, cada vez mais, a esse desenlace. Quanto mais tentam fugir da areia movediça, mais se afundam nela.
 
O colorido e a força específicos de cada uma das histórias reside precisamente no grau e tipo de consciência que os protagonistas têm de sua própria condição trágica. 
 
Edward e Florence, embora frutos da conservadora Inglaterra de meados do século XX, têm uma consciência dolorosa do desastre iminente e querem a todo custo evitá-lo. Apesar disso, cada escolha ao longo do jantar de núpcias e do sexo produz uma reação inesperada do outro, levando cada um a se recolher ainda mais em sua redoma narcísica e estreitando a possibilidade de comunicação que poderia, talvez, salvar-lhes o casamento.
 
Em Blue Valentine, em momentos diferentes, Cindy e Dean se dão conta da impossibilidade de continuarem juntos – ela mais cedo, ele depois -, mas já não a tempo de evitarem dizer coisas que apenas aprofundam e solidificam a cisão entre o casal.
 
Otelo nunca tem consciência de seu predicado como uma marionete nas mãos de Iago, mas é sua condição – de homem árabe e negro criado em uma vida de brutalidades e horrores – que determina suas escolhas e a cegueira que o afundarão cada vez mais.
 
Bentinho é um caso à parte e é isso que, em grande medida, torna Dom Casmurro tão especial. O narrador, que conta sua história já de um ponto de vista de certa forma distante, aposentado e recolhido, parece ter plena consciência de seu predicado e de como suas próprias ações haviam posto em movimento a triste história de desencontro entre ele e sua mulher. Bentinho tem certeza de que Capitu de fato o traiu, mas parece, ao mesmo tempo, ciente de que foram seu próprio ciúme e sua paranoia que o enredaram na teia de sua tragédia pessoal.
 
Essa condição amarga, de horror ao outro e a si mesmo, alternando entre culpa e ressentimento, enseja aquilo que Dom Casmurro tem de mais impressionante: a modernidade de sua ironia. Machado de Assis antecipou em muitas décadas o tom de uma literatura moderna que só se estabeleceria como corrente narrativa sólida após as grandes guerras.
 
Dom Casmurro é uma tragédia encapsulada em uma redoma de ironia e cinismo que ilude o leitor em relação ao conteúdo do drama que acompanha. Na superfície, pode ser lido como uma história leve, quase cômica, sobre como a condição paranoica cria uma realidade própria para o sujeito que é perfeitamente coerente e, ao mesmo tempo, impenetrável. Bentinho é, nesse sentido, seu próprio Iago, enquanto julga que os Iago são os outros – Capitu, José Dias, Escobar. 
 
Mas, afinal, Capitu traiu Bentinho ou não? E Ezequiel, em toda a sua sugerida semelhança física com o amigo do pai, não seria mesmo filho de Escobar? 
 
É essa a ironia maior, mais genial e insuportável de Machado de Assis. O romance se estrutura de forma tal que aponta, todo o tempo, um holofote para nossa própria condição paranoica, mostrando como é sempre ela, em maior ou menor grau, que conforma nossa realidade e dita a eterna (im)possibilidade do encontro amoroso.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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