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Os convertidos

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09.01.2024 - 07:56:01

O episódio da última semana do Rádio Novelo Apresenta, podcast produzido pela Rádio Novelo, conta a história de Vicente Cañas, conhecido como Kiwxí, em seu nome Enawenê-nawê, conforme batizado por essa comunidade indígena do norte do Mato Grosso. Em 1987, como tantos indígenas e defensores não-indígenas de seus direitos, Kiwxí foi morto a mando de fazendeiros que ocupavam o território dos Enawenê-nawê. 
 
Há, entretanto, outro aspecto – esse luminoso – da história de Vicente. Espanhol, ele ingressou, aos 21 anos, na Companhia de Jesus, com a intenção de se tornar padre. Cinco anos depois, chegou ao Brasil e, ainda no final da década de 1960, começou a trabalhar junto a comunidades indígenas da Bacia do Rio Juruena, no estado do Mato Grosso.
 
E então, deu-se o inesperado: depois de conhecer os indígenas, Vicente abandonou a vocação religiosa e assumiu, em larga medida, a visão de mundo Enawenê-nawê. Suas fotos mostram uma figura singular: magra e de barbas longas, mas com corte de cabelo à moda indígena, os brincos e adornos Enawenê-nawê sempre à orelha e nos braços – uma espécie de profeta das selvas. 
 
Não que o trabalho missionário dos jesuítas a essa época ainda fosse o de converter os indígenas, mas quem acabou convertido foi Vicente. Nas palavras de Kolarenee Enawenê: "O Kiwxí, tendo se tornado um de nós, se tornou um dos nossos ancestrais espíritos. Nós temos o Kiwxí. Ele virou Enorenawê. Ele está na aldeia dos Enorenawê.”
 
Uma das muitas histórias contadas por meu pai, o jornalista Washington Novaes, que me marcaram, foi o relato de um encontro com o antropólogo Darcy Ribeiro. Sentaram-se juntos em um voo, e meu pai relatou que recém regressara do Parque Indígena do Xingu, onde tinha filmado a série Xingu – A Terra Mágica, que seria exibida pela extinta TV Manchete com grande sucesso. Segundo ele, depois de ouvir sua história, Darcy teria lhe dito: "Quem tem a oportunidade de enxergar o mundo pelo olhar de um índio, nunca mais é o mesmo".
 
Impossível não pensar nisso quando se ouve a história de Kiwxí. 
 
Ele, todavia, não está só na maneira como foi profundamente tocado pela visão dos indígenas. Em parte, se ainda temos cerca de 2 milhões de indígenas no Brasil, segundo o último Censo do IBGE, e se quase 14% de nosso território se encontram felizmente sob sua guarda, isso se deveu a essa sua capacidade para encantar e converter.
 
O Marechal Rondon foi, em alguma medida, um convertido, os irmãos Villas-Bôas, também, Darcy Ribeiro, outro. Todos, de diferentes maneiras, diante do contato com a cultura indígena, foram profundamente impactados e mudaram suas próprias visões de mundo. Washington Novaes, escrevi no texto que inaugurou essa coluna, nunca mais foi o mesmo depois de testemunhar a beleza das culturas xinguanas, conforme vaticinara Darcy. São muitas as histórias nessa mesma direção.
 
Lux Boelitz Vidal nasceu em Berlim, em 1930. Estudou antropologia nos Estados Unidos e mudou-se para o Brasil em 1955. Depois de ingressar na Universidade de São Paulo, dedicou-se inicialmente a estudos de Antropologia Urbana, tragicamente interrompidos pela morte de sua filha mais velha. Em luto profundo, decidiu aceitar o convite do frei dominicano José Caron, que então prestava assistência ao povo indígena Xikrin do Cateté, quase extinto à época após anos de contato com as frentes pioneiras no sudeste do Pará. O padre sugeriu a ela que o contato com a comunidade indígena poderia ajudá-la a superar a perda da filha, o que de fato acabou se concretizando, segundo seus relatos. 
 
Lux é autora da principal etnografia do povo Xikrin do Cateté e segue, ainda hoje, aos 93 anos, trabalhando com esse povo em companhia de sua filha, a também antropóloga Isabelle Vidal Giannini. Parte dessa história de amor e conversão é contada no documentário Me Kukrodjo Tum: O Conhecimento dos Antigos, que tive o privilégio de dirigir junto com Pedro Guimarães.
 
Acompanhando Lux, foi também, pela primeira vez, a uma comunidade indígena, um então jovem Vincent Carelli, que se tornaria um dos mais importantes indigenistas e documentaristas brasileiros. Ele é diretor, entre outros, dos premiados Corumbiara e Adeus, Capitão, e um dos fundadores do projeto Vídeo nas Aldeias, pioneiro na formação de cineastas indígenas. Foi outro convertido pelos Xikrin que nunca mais abandonou o trabalho com os povos originários.
 
Como todas as histórias se cruzam no mundo indígena, pois ali o mito é real e a tudo conecta, Vincent é pai de Rita Carelli, atriz e escritora que trabalha hoje em um livro que contará a história de Vicente Canãs. Ela é uma das narradoras de sua história no podcast da Rádio Novelo. Kiwxí a assombra desde a infância, quando, junto com seus pais, percorria o Rio Juruena e dormia no barracão que pertencera ao ex-missionário jesuíta assassinado. Sua mãe, a antropóloga Virgínia Valadão, estudou durante vários anos os Enawenê-nawê.
 
Era também Darcy Ribeiro quem afirmava que parte da desgraça dos povos indígenas brasileiros tinha origem em sua maior virtude. Para ele, diferentemente da ocidental, a visão de mundo indígena reserva lugar para o outro. Por isso, receberam com generosidade os colonizadores que os dizimariam.
 
Essa generosidade e sua capacidade de se abrirem ao outro é seguramente um dos traços nessas culturas que mais impacta quem chega de fora. Em suas sociedades, os humanos vivem entrelaçados aos mundos natural e espiritual e são, em essência, mediadores desses aspectos do cosmos, com imensa responsabilidade na manutenção de seu delicado equilíbrio. A tarefa cotidiana, em que aflora toda a beleza ritualística de suas culturas, é a de cultivar esse balanço sutil, ouvindo e conversando com os mortos, com os espíritos e com a natureza.
 
Por aí, é possível entender a ideia hoje bastante repetida de que: "Ou o futuro será indígena ou não haverá futuro". Ou nos convertemos ou pagaremos um preço alto por nossa cegueira.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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