Logo

E agora, Marechal?

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.09.2023 - 11:29:55

O Brasil e suas condições sociais e históricas singulares produziu alguns personagens improváveis, só possíveis por aqui e que ajudaram a nos definir como povo e país: Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Machado de Assis, Lampião, Luiz Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Tancredo Neves, Pelé, Aílton Krenak, Raoni Metuktire e Lula, entre outros.
 
Neste momento, em que a urgência das mudanças climáticas nos coloca diante de uma encruzilhada definidora como país, vale olhar para trás e, quem sabe, aprender com outro desses personagens únicos, talvez um dos maiores brasileiros que já existiu: o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.
 
A Amazônia e as populações indígenas e ribeirinhas que são suas principais guardiãs são peças-chave no tabuleiro das mudanças climáticas. A ciência atesta o papel fundamental do bioma no clima global: ou mudaremos de direção e preservaremos a Amazônia ou não haverá futuro para ninguém. E os estudiosos alertam, além disso, que com cerca de 20% do bioma já destruídos é muito provável que estejamos perto de um ponto de não-retorno, em que a estabilidade ecológica de toda a região ficará prejudicada e a floresta poderá entrar em rápido processo de colapso.
 
De origem humilde, órfão ainda menino e de ascendência indígena Bororo e Terena, contra todas as probabilidades, Cândido Rondon chegou à Escola Militar da Praia Vermelha e se formou engenheiro. Abolicionista, ainda jovem envolveu-se também diretamente na derrubada da monarquia e proclamação da República. E dedicou sua vida justamente à Amazônia e a seus povos indígenas.
 
Há quem questione hoje o legado de Rondon por sua contribuição para a ocupação da Amazônia e por sua visão paternalista dos indígenas. Não há dúvida, entretanto, de que seu caráter improvável e único foi fundamental para ajudar a desviar nossos povos indígenas de um caminho certo de desaparecimento.
 
Fundador do SPI, o Serviço de Proteção ao Índio, antecessor da Funai, Rondon condensou no lema dessa instituição sua filosofia a respeito dos indígenas: "Morrer se preciso for, matar nunca" – e, de fato, em suas dezenas de expedições, sofreu inúmeras ameaças e ataques dos povos com que fez contato, e jamais retaliou.
 
Como homem de seu tempo, Rondon desejava integrar a Amazônia para levar maior qualidade de vida a seus habitantes, com quem se identificava profundamente. Sua visão em relação aos povos indígenas nunca foi a de assimilá-los à nossa sociedade, e sim a de promover uma coexistência pacífica. Não por acaso foi indicado por Albert Einstein para o Prêmio Nobel da Paz.
 
Nas palavras do jornalista Larry Rohter, um de seus biógrafos, não há paralelo para Rondon na história de países com grande população indígena, como os Estados Unidos, o Canadá ou a Austrália. O marechal, sugere ele, deve ser visto como "uma espécie de General Custer ao avesso", referindo-se ao oficial do exército americano que liderou alguns dos grandes massacres contra tribos indígenas no oeste.
 
Além de tudo, a Comissão Rondon, que o marechal chefiou durante quase três décadas, fez imensas contribuições para o conhecimento científico da Amazônia, tanto do ponto de vista biológico, quanto antropológico, com centenas de artigos publicados e aquela que permanece até hoje como maior contribuição individual ao acervo do Museu Nacional.
 
Pioneiro foi também seu trabalho de documentação audiovisual. Como a história, em todas as arenas, é amplamente contada de um ponto de vista americano e europeu, costuma-se tomar como marco inaugural do cinema documentário o filme Nanook do Norte, de Robert Flaherty, lançado em 1922, que documenta a vida de uma família de esquimós no Ártico. Todavia, pelo menos dez anos antes, na Comissão Rondon, o major Luiz Thomaz Reis já realizava documentários etnográficos que permanecem ainda hoje como alguns dos mais importantes documentos antropológicos brasileiros.
 
Em 1914, ao lado do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, Rondon liderou uma aventura que ombreia com os feitos de Ernest Shackleton nos mares da Antártica e de Richard Burton, na África. Durante dois meses, percorreram o até então não mapeado "Rio da Dúvida", posteriormente rebatizado pelo marechal como Rio Roosevelt em homenagem ao amigo. Nesse afluente do Rio Madeira, em plena estação chuvosa, a expedição enfrentou cataratas e corredeiras, malária e fome, além da ameaça constante dos então ainda desconhecidos Cinta-Larga. Roosevelt por pouco não morreu com uma infecção na perna e passou o resto da vida louvando o caráter e a intrepidez de Rondon. Para o americano, Rondon foi um dos maiores exploradores da história da humanidade – lugar que, uma vez mais, a história eurocêntrica nunca reconheceu.
 
O Brasil deve muito a Rondon. Os irmãos Villas Boas, seus herdeiros, outro conjunto de figuras ímpares que só o Brasil poderia produzir, deram sequência a seu legado, ajudaram a evitar o desaparecimento de nossos povos indígenas e a preservação de parte da Amazônia. O Parque Indígena do Xingu, criado de forma improvável em uma época em que a visão predominante era, como segue sendo, a da ocupação a qualquer preço, é um dos exemplos concretos da articulação única de forças lograda por Rondon e seus aliados.
 
Neste momento em que o mundo olha para o Brasil à espera de um gesto de liderança, cabe lembrarmos de Rondon e nos perguntarmos o que ele sugeriria. Eu não tenho dúvida de qual seria sua resposta.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]