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Entre o virtuosismo moral e o afeto incômodo

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22.08.2023 - 08:38:49

Só agora pude assistir à segunda temporada de The White Lotus, a elogiada série da HBO – e preciso dizer que, doravante, meu projeto de vida é me tornar, quando crescer, Mike White, seu criador. 
 
Enquanto o cinema se perde entre as franquias de super-heróis e o ativismo político nos filmes de festival, as séries, felizmente, continuam sendo o lugar da invenção narrativa no audiovisual. E, numa época em que não faltam séries boas, The White Lotus sem dúvida se destaca.
 
Uma forma de pensar sobre essa série que talvez ajude a iluminar suas virtudes é compará-la ao incensado Triângulo da Tristeza, filme do sueco Rubens Östlund, ganhador da Palma de Ouro em Cannes no ano passado. Por quase óbvio, é provável que esse cotejo já tenha inclusive sido feito com mais propriedade.
 
São ambos narrativas que percorrem a linha entre o drama e a comédia para retratar o universo de gente muito rica – e o fazem evidentemente com altas doses de ironia e cinismo, navegando pelo bizarro e flertando com o nonsense. Os resultados, entretanto, não poderiam ser mais diferentes.
 
Em Triângulo da Tristeza, acompanhamos um cruzeiro para super-ricos. Colhido por uma tempestade e atacado por piratas, o barco naufraga, levando os passageiros que escapam a enfrentarem situações inusitadas para sobreviverem em uma ilha deserta.
 
Nas duas temporadas de The White Lotus, por outro lado, acompanhamos as férias de vários ricaços e seus dramas inusitados em exclusivos resorts no Havaí e na Sicília. 
 
Pelas sinopses acima, já é possível antever alguns dos enormes riscos narrativos trazidos pelos dois universos. 
 
Nunca me esqueci da observação de um crítico de cinema e colega de júri, certa vez, durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA. Acabáramos de assistir ao documentário Um Lugar ao Sol, do diretor brasileiro Gabriel Mascaro. O filme retrata moradores de coberturas de alto padrão em metrópoles brasileiras. Na saída, eu elogiava os retratos entre o bizarro e o surreal dos personagens, sempre alheios em seus mundos de alto luxo às desigualdades sociais brasileiras. Diante da minha visão positiva, meu companheiro de júri foi assertivo: “Não gosto de filmes que me fazem sair do cinema me sentindo uma pessoa melhor que os personagens”.
 
A frase certeira serve para apartar com perfeição The White Lotus e Triângulo da Tristeza. Faz lembrar também o ditado que todos nós roteiristas deveríamos manter colado a nossas escrivaninhas, sempre ao alcance da vista: “a diferença entre o remédio e o veneno está apenas na dose”.
 
Triângulo da Tristeza tem seus méritos. É uma narrativa que caminha muito bem até aproximadamente sua metade. É um retrato brilhante, ao mesmo tempo engraçado e incômodo, das questões de gênero, por exemplo, a sequência inicial, em que os protagonistas Yaya e Carl discutem quem deve pagar a conta.
 
Triângulo da Tristeza (Imagem: Divulgação)
 
Não obstante o começo bem construído, Östlund logo perde a mão, deixando de lado a ironia sutil em favor de uma tediosa alegoria da luta de classes. Nela, somos convidados a nos chocar com a grotesca insensibilidade dos milionários. Acostumados a seus privilégios, eles querem continuar explorando os tripulantes do barco mesmo após o naufrágio remover os elementos que sustentavam suas diferenças sociais e colocá-los em pé de igualdade na luta pela sobrevivência.
 
Em outra direção, The White Lotus se beneficia do formato longo da série – a primeira temporada tem seis e a segunda, sete episódios – para uma construção mais lenta e matizada dos conflitos e dos personagens. Com maestria, leva-nos, nesse percurso, da antipatia à empatia com os tipos mais lamentáveis, sórdidos e, por que não, desprezíveis.
 
Também na série, as gritantes desigualdades sociais são o pano de fundo de todos os conflitos relevantes. Na primeira temporada, elas surgem representadas pelo embate surdo entre clientes e funcionários do luxuoso hotel. Na segunda, ganham menos evidência os empregados do resort, recaindo o protagonismo sobre a prostituta Lucia e sua amiga Mia, uma aspirante a cantora.
 
Diferentemente do filme sueco, entretanto, que nos entrega aquela sensação de virtude moral denunciada por meu companheiro de júri, a série não facilita nossa vida. No momento em que apontamos o dedo para um personagem, somos também apresentados a suas virtudes e quase sempre convidados a nos identificar com suas ambiguidades. Quando esperamos que o bem seja recompensado, gestos virtuosos se revelam egoístas e maléficos em seus resultados. Quando queremos que o mal seja punido, há sempre efeitos colaterais que castigam também os bons e os inocentes.
 
Uma das grandes virtudes de The White Lotus, que nos leva novamente ao ditado sobre o remédio e o veneno, é a de não se esgotar no cinismo. Ainda que a narrativa se aproxime dos personagens com um olhar sarcástico, a sutileza de sua construção leva-nos sempre ao afeto e à empatia – não raro incômodos – com os personagens. Terminamos simpatizando com a prostituta que se aproveita da ingenuidade do jovem rico e progressista; gostamos da neurótica herdeira que acha que os gays querem assassiná-la; fascinamo-nos pela cantora talentosa que trilha um caminho estreito entre generosidade e oportunismo; e nos identificamos com o casal que redescobre o desejo em meio a um labirinto de mentiras e paranoia.
 
Triângulo da Tristeza é um filme que entrega virtuosismo moral e nos deixa plenos de certezas. The White Lotus é daquelas narrativas de que saímos apenas com dúvidas e sentido esse incômodo afeto por personagens demasiadamente humanos em sua precariedade moral.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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