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Big Brother afetivo

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26.11.2012 - 10:12:41
Goiânia – Uma mulher sorridente, usando uma camisola, posa para a foto ao lado de um homem que dorme. Ele veste um pijama surrado, tem a boca torta, entreaberta e provavelmente deve estar babando. A legenda da foto publicada no Facebook diz: “Acordando ao lado do meu amor!”.
 
Alguns dias depois, a amiga de um rapaz posta uma foto dele com a turma de amigos num bar da cidade. Indignada, a namorada do moço deixa um recado desaforado: “Como assim? Você não disse que ia ficar em casa nesse dia? Mentiu pra mim?!”. E lá se seguiram 37 comentários, entre tentativas de explicação do homem, gente da turma do deixa-disso colocando panos quentes e curiosos especulando sobre a briga. 
 
Uma rápida espiada pelas redes sociais nos permite saber detalhes da intimidade da vida de muitos casais. Ainda que não queiramos, mesmo que estejamos preocupados apenas com nossas vidas, eles estão lá e nos revelam o que comem, como dormem, como acordam, porque brigam, porque estão juntos e mais uma infinidade de coisas. 
 
Cada um leva a vida como bem entende, mas eu não faria isso. Já temos de preencher milhares de cadastros, deixar nossos dados em quase todos os lugares por onde passamos; os escritórios agora adotam paredes de vidro para facilitar a “interação” das equipes; vamos entregar de bandeja o último naco de privacidade que nos resta, que são nossos afetos? Eu me recuso terminantemente.
 
É compreensível que quando se vive um relacionamento afetivo tenha-se vontade de compartilhar com os amigos momentos especiais, conquistas, alegrias. Mas divulgar tudo, inclusive o trivial e os barracos? Tenho a impressão de que quem faz isso não quer apenas dividir com os conhecidos sua vida: quer plateia.
 
A vida a dois, com suas dores e delícias, é transformada em espetáculo para ser assistido pelo público presente nas redes sociais. Cada capítulo dessa história pode ser conferido de perto, por meio de fotos, vídeos e comentários. Declarações de amor, raiva, ciúme, alegria e desespero são publicadas, consumidas, comentadas.
 
Que benefícios isso traz eu não sei. Para ser sincera, acredito mesmo é nos malefícios. Se a vida já é difícil sem ninguém dando pitaco, com gente sabendo de tudo e se sentindo no direito de palpitar, então… O negócio é ainda pior quando se pensa que alguns que estão ali realmente gostam de nós, mas outros não mesmo.
 
Declarações de amor ostensivas e repetidas me deixam desconfiada. Tudo o que é muito lindo, perfeito e meloso me soa meio fake, pelo simples fato de que a vida real não é assim. Fico me perguntando se a pessoa diz que a ama a outra tantas vezes por excesso de afeto, ou se precisa repetir a frase para si mesma para ver se acredita.
 
Os barracos públicos também me deixam com a pulga atrás da orelha. A pessoa está querendo desabafar ou está buscando cúmplices para reforçar seus argumentos? Se a primeira opção for a correta, desabafar para 600 pessoas? Sou do tempo em que a gente fazia isso com o melhor amigo, reservadamente. 
 
Realmente não me sinto à vontade presenciando detalhes – inclusive os sórdidos – dos relacionamentos alheios. Sinto um misto de constrangimento e pena. Constrangimento por ter de participar de uma vida que não é a minha, com o que ela tem de mais íntimo e pessoal. Pena por saber que um relacionamento a dois é pouco para alguns carentes de plantão, que precisam de dezenas, centenas de companhias.
 
Acho que estou ficando velha mesmo, porque acredito que amor é coisa delicada demais, rara demais, para se expor de qualquer jeito, para qualquer um. Até porque nossas palavras e imagens sempre serão menores que a intensidade de nossos (des) afetos. Não há como traduzi-los em exatidão, nada se compara à vivência. 
 
Tudo o que não desejo é transformar minha vida num Big Brother afetivo. Quero olhares curiosos e bisbilhoteiros bem longe da minha intimidade. Sei que se permitir a especulação alheia, terei R$ 1,5 milhão em problemas me esperando no final. Para os que insistem em tentar ultrapassar a barreira, meu voto é sempre o mesmo:o paredão. 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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