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Eu, você e os ursos polares

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11.07.2023 - 08:00:00

O herói da tragédia é uma marionete do destino. Enquanto julga controlar o desenrolar de sua vida, cumpre apenas um vaticínio para ele desenhado pelos deuses. De nada vale que ganhe consciência de sua condição, pois quanto mais tenta se desenredar da teia em que o destino o lançou, mais se embaraça nela. Nessa queda no vazio, mesmo os gestos que faz para tentar se livrar da própria desgraça, apenas contribuem para realizá-la.
 
É assim que Édipo foge de Corinto para que não se cumpra a profecia feita pelo Oráculo de Delfos, segundo a qual assassinaria seu pai e desposaria a própria mãe. A caminho de Tebas, ele mata o rei Laio, que depois descobrirá ser seu verdadeiro pai. Na cidade, torna-se herói ao derrotar a Esfinge e assume o trono vago com a morte de Laio, casando-se, sem saber, com a própria mãe. Quando descobre suas terríveis culpas, Édipo fura os próprios olhos e se torna um mendigo.
 
O mito do Édipo, além de representar, para a psicanálise, o conflito basilar da estrutura de nossa personalidade, trata também de um tema altamente contemporâneo, que é o da responsabilidade por nossas ações. Afinal, não controlamos, nós mesmos, no mundo em que vivemos, os efeitos de nossos próprios gestos. Enquanto corto o bife no prato do meu almoço, ajudo a desmatar a Amazônia, a subir a temperatura do planeta e a deixar mais próximos da extinção os ursos polares na Groenlândia. 
 
As ações da Vale que tenho em minha carteira de investimentos me tornam corresponsável por Mariana e Brumadinho? Se decido usar etanol ao invés de gasolina em meu carro, para diminuir minha responsabilidade sobre a elevação do nível do mar, passo a contribuir com o trabalho escravo que recentemente foi desbaratado em usinas de Goiás e Minas Gerais? No ano passado, decidimos, minha mulher e eu, fazer novas alianças de casamento e fomos a uma joalheria. Mas como lidar com os diamantes de sangue e o ouro do genocídio yanomami?
 
Há um Édipo moderno, menos conhecido que o da mitologia grega, que ilustra muito bem essas questões. Em seu intenso conflito emocional, entretanto, ele não dá, infelizmente, uma resposta alentadora a esse dilema sobre nossas responsabilidades individuais no mundo moderno.

Claude Eatherly (1918-1978)
 

Claude Robert Eatherly foi um major da Aviação do Exército Norte-Americano. No dia 6 de agosto de 1945, pilotou um bombardeiro B-29 que decolou da mesma base, no Oceano Pacífico, de onde, horas depois, levantaria o Enola Gay, carregando a bomba atômica. A missão de Eatherly foi um voo de reconhecimento meteorológico sobre Hiroshima. Ele transmitiu ao Enola Gay a informação de que o tempo se encontrava limpo e de que poderia prosseguir com sua própria missão – que levaria, logo em seguida, à morte de quase 80 mil pessoas.
 
Com o fim da Segunda Guerra, Eatherly foi considerado, portanto, um herói, e poderia, não fora sua aguda consciência, ter seguido uma vida alegre e frutífera entre seus pares – como fez, por exemplo, Paul Tibbets, o piloto do próprio Enola Gay.
 
Mas Eatherly, que não jogara a bomba, mas contribuíra indiretamente com ela, viveu atormentado por pesadelos, tentou matar-se por duas vezes e passou a vida entrando e saindo de hospitais psiquiátricos.
 
Curiosamente, a psiquiatria julgava que perdera a sanidade por culpar-se pela bomba. Seu problema, todavia, era de excesso de sanidade, pois não conseguia, à diferença de seus compatriotas, deixar de olhar para sua responsabilidade na morte daquelas 80 mil pessoas. Como não suportava ser olhado como herói, em gestos desesperados, Eatherly chegou a cometer furtos e uma fraude financeira, para que a sociedade o visse tal qual se enxergava, isto é, como uma pessoa condenável.
 
Convertido em militante pacifista e antinuclear, conseguiu aliviar um pouco de seu sofrimento após passar a se corresponder com o filósofo alemão Gunther Anders, primeiro marido de Hannah Arendt. Anders foi um dos primeiros a compreender, em larga medida a partir das desgraças gêmeas de Auschwitz e Hiroshima, essa trágica condição do ser humano moderno. A tecnologia a serviço da guerra, de um lado, e o consumo de massas, de outro, nos tornam partícipes (in)voluntários dos equivalentes contemporâneos de campos de concentração e da liberação da energia do núcleo atômico.

O filósofo alemão Gunther Anders (1902-1992)

Essa condição ganhou síntese potente e brilhante na noção de "banalidade do mal", cunhada justamente por Hannah Arendt em sua reflexão a partir do julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann pela Suprema Corte de Israel em 1962. O mundo se preparava para encarar um monstro quando as cortinas se abrissem. Todavia, instala-se o tribunal e o que se vê é um sujeito com aparência de bom velhinho, um pai e avô amoroso. Ademais, escuda-se, para sua defesa, por trás do argumento de que apenas cumprira ordens ao colaborar para a implantação dos campos de concentração e despachar milhões de judeus e outras minorias para as câmaras de gás.
 
A mesma racionalidade que permitiu a Eichmann morrer com a consciência tranquila ao ser enforcado em Israel, aponta Gunther Anders, é a que tornou concebível Hiroshima, diluindo a execução do mal em infinitos gestos banais e cotidianos.  Essa mesma razão tornava Eatherly um estorvo indesejado. Ao não aceitar o lugar que lhe era reservado como herói, ele tornava evidente demais a culpa de toda uma sociedade.
 
Vivemos em uma complexa rede onde somos, ao mesmo tempo, culpados e vítimas. Tomamos parte cotidianamente na fabricação do mal e somos por ele atingidos. A escolha de não olhar para esses fios que me conectam aos yanomami, aos ursos polares e às árvores, que neste instante tombam na Amazônia ou no Cerrado, é um gesto de defesa, diante do pesado dilema moral que tal consciência nos impõe – um conflito de consciência em tudo igual ao do major Eatherly.

O limite claro colocado pelas mudanças climáticas, entretanto, torna cada vez mais difícil não encarar esse dilema. A crise ambiental evidencia a todos nós como heróis de uma tragédia: tentamos cortar os fios da teia do destino de um lado, apenas para nos vermos mais embaraçados de outro. Será possível driblarmos essa condição que ganha contornos de profecia?

 

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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