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Afetação zero

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12.11.2012 - 09:22:04
Goiânia – Sexta-feira à noite. Dia de ir para a balada ou de sair do trabalho para descansar e ficar com a família. Mas o auditório do Centro Cultural Oscar Niemeyer está lotado. Centenas de jornalistas, professores e alunos de cursos de jornalismo e leitores assíduos se espremem, ávidos pela palestra de Eliane Brum no Café de Ideias.
 
A repórter que coleciona prêmios e escreve uma coluna semanal de sucesso na revista Época chega. Pequena, discreta, usa uma bata branca e um jeans. Pede desculpas pelo traje. Diz que trouxe roupa mais bonita, mas como tomou um táxi de Brasília para Goiânia por causa de um atraso no voo, não teve tempo de se produzir.  
 
Então ela começa a falar. Mansamente, pausadamente, de forma simples e respeitosa, explica como fez da palavra escrita sua vida, seu sentido de existir. Como usa sua sensibilidade para dar vida no jornalismo aos invisíveis, aqueles que ninguém que percebe, mas que nos dão lições de coragem e superação diariamente. 
 
É evidente que a palestra foi ótima. Entretanto, o que de fato chamou minha atenção foi a total falta de afetação da jornalista. Sua simplicidade e seu real desejo de interagir, de saber o quê as pessoas pensam, o quê elas sentem. Aquele jeito de conversar olhando nos olhos do outro, sem se julgar melhor nem pior, apenas igual. 
 
Nessa hora, me dei conta de que as pessoas que realmente marcaram minha vida e me fizeram alguém melhor são exatamente como ela: sem afetação alguma. Por afetação entenda-se aquela gente cheia de caras, bocas, trejeitos e melindres, que ao alcançar algum reconhecimento num setor da vida se torna um poço de arrogância. 
 
Os afetados são cheios de razão e vontades. Reclamam de tudo e de todos, nada nem ninguém está à altura deles. Tornam-se deuses isolados em pedestais. Fazem milhares de exigências aos que os cercam, dão piti por qualquer bobagem e agem de forma impaciente, afinal, eles são o máximo.
 
Há quem goste disso e entre na onda. Eu detesto. Não acho que o fato de ser muito bom em alguma coisa dê a alguém o direito de se julgar superior ao restante da humanidade. Não importa se é artista, jornalista, escritor, pintor ou sei lá o quê. No final das contas, é gente como eu e você, com defeitos e qualidades. 
 
Tenho um episódio bem emblemático sobre isso. Quando eu trabalhava na editoria de Mundo de um jornal diário, produzi uma reportagem sobre conflitos no Oriente Médio. Liguei para dezenas de especialistas locais para tentar agendar entrevistas. Nenhum deles me deu a menor bola. Estavam todos ocupados demais para falar comigo.
 
Chateada, busquei no Google os maiores analistas mundiais no assunto, pois se era para passar raiva com a presunção alheia, que pelo menos fosse com um expert famoso. Descobri, então, um professor francês que lecionava numa prestigiosa universidade americana e era uma verdadeira sumidade na área.
 
Ao ligar para ele, qual não foi minha surpresa ao encontrar um homem extremamente gentil, acessível e atencioso. Perguntei se ele queria que eu lhe mandasse as perguntas por e-mail, e ele respondeu: “De forma alguma, façamos a entrevista agora mesmo. Você está me ligando do outro lado do mundo, não há tempo a perder!”.
 
Desde aquele dia, aquele homem tornou-se fonte recorrente das minhas reportagens sobre conflitos no Oriente Médio. Com sua paciência e sabedoria de monge budista, decifrava os intrincados meandros dos países envolvidos nas disputas e sempre me agradecia por prestigiá-lo. “Bom saber que alguém no Brasil se lembra de mim”, dizia.
 
Não por acaso, as duas mulheres que mais marcaram minha carreira também eram assim: editoras extremamente humildes, serenas e acessíveis. Embora tivessem experiência para dar e vender, nunca deixaram de ouvir minha opinião e sempre me estimularam a acreditar que eu era capaz de superar expectativas. 
 
Depois de três décadas de vida, tenho comigo a certeza de que as pessoas com quem quero conviver e cuja opinião é decisiva para mim são aquelas de afetação zero. Quero gente simples e sincera. Gente que falha, chora, tem medo e não se preocupa em esconder isso de ninguém nem exige que os outros lhe escondam suas feridas.
 
Hoje, o pensamento de Rubem Alves é meu lema: “(…) Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas. Elas não debatem conteúdo, apenas rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos. Quero a essência. Minha alma tem pressa. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana. Que não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.”  
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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