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Brasil, país para poucos

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06.06.2023 - 07:41:59
Neste 5 de junho, completou-se um ano dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, no Vale do Javari, estado do Amazonas. De forma simbólica, os crimes foram cometidos neste que é o Dia Mundial do Meio Ambiente, e também na semana que abriga, em outra coincidência sinistra, o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, o 7 de junho.
 
Dois filmes recém-lançados que têm os dois como personagens merecem ser vistos para entendermos que nos encontramos em um divisor de águas: ou o Brasil muda sua atitude diante da floresta e dos povos indígenas ou não haverá futuro para ninguém.
 
Compõe este ano a ótima seleção do 24o FICA, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, que acontece, entre 13 e 18 de junho, na Cidade de Goiás, o longa A Invenção do Outro, do diretor Bruno Jorge. O filme venceu o último Festival de Cinema de Brasília e também foi selecionado para o Festival Internacional de Documentários de Sheffield, na Inglaterra, um dos mais importantes do mundo.
 
Em 2019, o diretor documentou uma expedição liderada por Bruno Pereira, ainda então chefe do Departamento de Indígenas Isolados da Funai, para fazer contato, no Vale do Javari, com um grupo Korubo e reuni-lo aos familiares de que haviam se separado anos antes em função de um ataque sofrido.
 
Para além da oportunidade de conhecer a figura ímpar de Bruno Pereira, em toda a sua coragem e dedicação aos povos indígenas, o filme traz um registro absolutamente impactante desse primeiro contato com um grupo isolado e ainda preservado em seu modo de ser integrado à floresta. A Invenção do Outro é ao mesmo tempo um filme de aventura, um documento etnográfico precioso e um emocionante testemunho do reencontro entre familiares separados por um longo tempo. Além de tudo, o fato de que o documentário não mencione – por desnecesssário – o assassinato brutal de Bruno, apenas torna a sombra do crime mais presente e acrescenta uma camada trágica de sentido a tudo o que assistimos. A Invenção do Outro merece um lugar no cânone do documentário brasileiro e etnográfico.
 

A Invenção do Outro (Foto: Bruno Jorge/Divulgação)
 
Também estreou na última sexta, no Globoplay, o documentário Vale dos Isolados, dirigido por Sônia Bridi. Nele, a jornalista reconstrói a história recente do Vale do Javari e de seus habitantes – indígenas e ribeirinhos – e a trajetória de violência e crime que marca a região. Foi esse caldo amazônico de conflitos em torno da rapinagem da floresta e do ataque aos povos originários que culminou nas mortes de Bruno e Dom. Como se sabe, eles foram assassinados, segundo as investigações da Polícia Federal, pelos pescadores Amarildo da Costa, Oseney da Costa e Jefferson Lima, a mando de Ruben Dario da Silva Villar, o "Colômbia". Também foram indiciados pela PF, cabe lembrar, por homicídio com dolo eventual, o presidente da Funai de Bolsonaro, Marcelo Xavier, e seu número dois, Alcir Amaral Teixeira.  Os investigadores entenderam que os dois poderiam ter agido para evitar os crimes e não o fizeram.
 
O filme de Sônia Bridi ecoa, todo o tempo, o que enfatiza o documentarista João Moreira Salles em seu incontornável livro Arrabalde: Em Busca da Amazônia. Nessa região, a ausência do Estado é uma escolha, pois é ela que possibilita a apropriação de recursos comuns – de todos nós brasileiros ou dos povos indígenas – pelos interesses privados mais escusos.
 
Os quatro anos de governo Bolsonaro significaram exatamente isso: uma retirada da presença do estado na Amazônia, com o esvaziamento de instituições como o Ibama, a Funai e também com a retração das ações ambientais da Polícia Federal. Foi esse investimento doloso na ausência que permitiu o recrudescimento dos conflitos no Vale do Javari e a intensificação da rapinagem ambiental e da violência contra os indígenas; facilitou também, sugere o documentário, a entrada dos cartéis peruanos da cocaína na região.
 
Importante dizer que o documentário Vale dos Isolados faz parte do Projeto Bruno e Dom: Uma Investigação da Pilhagem na Amazônia, levado a cabo por um consórcio capitaneado pela Forbidden Stories e formado por 16 veículos de imprensa e mais de 50 jornalistas em 10 países. O objetivo é dar continuidade ao trabalho do jornalista e do indigenista mortos. Entre os dias 1o e 3 deste mês, o esforço investigativo publicou mais de uma dezena de reportagens que investigam diferentes aspectos da destruição da Amazônia para gerar lucros privados. Vale leitura atenta.
 
Ainda assistindo ao documentário de Sônia Bridi, lembrei-me de uma conversa ilustrativa sobre o assunto. Em 2005, eu retornava de uma viagem ao Monte Roraima, na Venezuela. No trajeto de lotação entre Santa Elena de Uairén e Boa Vista, sentou-se, ao meu lado, Valdir, um garimpeiro que regressava de uma frente de lavra no país vizinho. Como tantos brasileiros tangidos pela pobreza, ele já trabalhara como peão em grandes obras de infraestrutura, fora colono em Rondônia e, havia alguns anos, tentava a sorte na mineração. Perguntei-lhe por que garimpar na Venezuela, e sua resposta foi: "Porque no Brasil não tem mais jeito: a Polícia Federal e o Ibama não deixam". Como tantos personagens semelhantes, se estiver vivo, não seria difícil hoje possivelmente encontrar Valdir naquele mesmo estado de Roraima, só que agora na Terra Indígena Yanomami, onde assistimos estarrecidos à tragédia humanitária e ambiental facilitada por Jair Bolsonaro.
 
Na verdade, o que espanta no Brasil é que, em direção contrária, em alguns momentos de nossa história recente, tenhamos sido capazes de implementar políticas públicas sérias e eficazes, como o Plano Real ou o Plano de Combate ao Desmatamento, levado a cabo por Marina Silva, nos dois primeiros governos Lula. Entre 2004 e 2012, a taxa de desflorestamento na Amazônia foi reduzida em 85%, resultando, conforme lembra João Moreira Salles, na maior contribuição já dada, por um único país, à mitigação das emissões globais de carbono. Ao mesmo tempo, como confirmava o testemunho de meu companheiro de viagem, atividades ilegais, como o garimpo, foram severamente restringidas.
 
Pelo visto, entretanto, o normal, neste país, é o que vimos acompanhando nos últimos quatro anos: desmonte do Estado, devastação ambiental, guarida a criminosos, falso moralismo e perdas irreparáveis como as de Bruno Pereira e Dom Phillips.
 
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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