Logo

Na beleza do outro, um instante de sentido

WhatsAppFacebookLinkedInX
30.05.2023 - 09:15:18
Em seu livro póstumo, recém-lançado pela Editora Planeta, o psicanalista Contardo Calligaris relata uma história ao mesmo tempo singela e reveladora sobre seu pai. O velho médico sempre estivera muito mais próximo de um liberal democrata do que de um socialista ou de um comunista. Por isso, ainda jovem e politizado, Contardo perguntara-lhe certa vez por que apoiara a resistência italiana durante a Segunda Guerra, a um alto risco pessoal, se não tinha propriamente uma ideologia. Depois de refletir, seu pai lhe respondera que o fizera “porque os fascistas eram vulgares”.
 
À época, Contardo se chocou com a resposta. Não compreendia como um julgamento estético poderia não só anteceder, mas encontrar-se na origem de uma avaliação moral do mundo. O fascismo, para seu pai, não era desprezível por ser imoral. Antes disso, ele era imoral por ser grotesco.
 
Essa ideia da apreciação estética do mundo como base para compreendê-lo em termos morais, e como verdadeira fonte de sentido para a vida, veio ao encontro de meus pensamentos e iluminou algo sobre meu próprio pai e sua paixão pelos povos indígenas brasileiros.
 
Washington Novaes, falecido em 2020, dedicou boa parte da sua tinta de jornalista a exaltar a riqueza das culturas indígenas e a defendê-las. Como documentarista, fez três minuciosas séries sobre as comunidades do Xingu: “Xingu, a Terra Mágica”, em 1984, “Kuarup, Adeus ao Chefe Malakwyauá”, em 1987, e “Xingu, A Terra Ameaçada”, em 2006.
 
Justamente por essa longa história de relação, no ano passado, o povo Kuikuro o incluiu entre os homenageados de seu Kuarup, o ritual de despedida dos mortos do alto Xingu, uma honraria raras vezes concedida a brancos.
 
Fui para a Aldeia Ipatse com família e equipe de filmagem e documentamos esse momento especial. Agora, venho tentando achar um caminho para contar essa história e, para isso, tenho revisto os documentários do meu pai e pensado sobre o que ele fala. 
 
Há neles uma mistura de olhar jornalístico e poético, que, à primeira vista, parece meio desconjuntada e que, por vezes, me incomoda. 
 
Meu pai, por mais que fosse um sujeito cheio de utopias e altos ideais, à semelhança do pai de Contardo, nunca foi um ideólogo. Ele nunca teve partido político e nutria, na verdade, certo desprezo por aquilo que qualquer ideologia, à esquerda ou à direita, significa em termos de cerceamento à liberdade de pensamento. Talvez por isso o anarquismo tenha sido a única doutrina que fazia seu olho brilhar.
 
Ainda assim, seus principais argumentos para explicar o fascínio e a insistência em torno dos índios eram quase sempre de ordem política. Ancorado no antropólogo francês Pierre Clastres, falava sempre da ideia de “sociedades contra o estado” – estruturadas, no mais profundo do seu ser, para impedirem a desigualdade oriunda da delegação de poder e do surgimento do estado; enxergava-as também como sociedades da plenitude do indivíduo, construídas e mantidas para garantirem a mais absoluta liberdade individual. “A vida do índio é o luxo de nascer e morrer sem nunca receber uma ordem”, costumava dizer.
 
Assistindo a seus documentários, entretanto, mesmo que esses argumentos de ordem política estejam  lá, eles não parecem compor a essência do que é dito. Não são o principal.
 
Foi então que, durante uma pausa na edição, lendo essa história sobre o pai do Contardo, uma ficha caiu e percebi que sua frase, dita em direção contrária, poderia caber na boca do meu pai: “me apaixonei pelos índios por sua beleza, e não por sua política ou ética”. 
 
E isso, de alguma maneira, explica tudo: os planos quase sempre muito longos, que não parecem casar com a vontade jornalística, a câmera e a montagem a toda hora sublinhando mais a sensualidade e a beleza do que a serviço de demonstrar fatos.
 
Nos documentários de Washington, quando a gente entende que os pontos de partida e chegada são, de certa forma, a celebração dessa beleza e o gozo com ela, o que pode parecer um esforço documental meio desconjuntado, ganha outro sentido e brilho.
 
A vulgaridade dos fascistas mostrou ao pai do Contardo a extensão da decrepitude moral de Mussolini e Hitler e lhe ofereceu um sentido para a vida em meio à Grande Guerra: resistir. Em direção oposta, acho  que o desbunde estético dos índios abalou meu pai, no mais fundo do seu ser, e levou ele a todas as conclusões posteriores sobre sua importância política.
 
Todo o seu esforço de uma vida como documentarista e jornalista talvez nada mais tenha sido do que seu desejo impossível de compartilhar conosco aquele mesmo instante original em que, na visão crua da beleza do índio, a vida, para ele, fez sentido.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]