Teve um tempo em que cabeleiras aneladas, crespas e onduladas faziam o maior sucesso e eram exibidas com orgulho. Olha que nesse tempo, nem produtinhos específicos para esses tipos de cabelos eram encontradas na praça. E mesmo com os ditos cujos com frizz, secos e danificados , as aneladas saíam orgulhosas por aí, sem saber o que significava chapinha e piastra.
Eram tempos felizes. Tempos em que você podia ir ao salão cortar o cabelo sem que depois o profissional não te perguntasse, quase ofendido: "Mas você não vai fazer nem uma escovinha?".
Não, eu não vou fazer nenhuma escovinha. Adoro meus cachos. Nada contra quem estica, puxa e alisa. Tem gente que realmente fica mais bonita. Mas por que eu deveria querer ser como 90% das mulheres? Porque eu preciso me torturar com secadores quentes, chapinhas assassinas e produtos que muitas vezes agridem e fazem cair o cabelo?
Costumo dizer que se tivesse cabelos lisos escorridos, seria outra pessoa. Porque o cabelo anelado te dá um certo poder, uma personalidade que não te faz sumir na multidão. Tá certo que também dá um ar mais hipongo, mais descontraído, mais largadão. Um ar meio de loucona.
Mas qual o problema? Porque todo mundo tem que ter aquele visual de quem acabou de ficar cinco horas no salão? Se os fios anelados parecem coisa de hippie, são também mais livres. Porque você não precisa ficar com medo de chuva, se quiser fazer natação todo dia é só pular na piscina e dar suas braçadas. E, principalmente, depois de ir pra academia você pode se jogar no chuveiro e lavar os cabelos. Pode parecer mentira, mas já vi muita lisinha de salão ter mais medo de água do que o Cascão.
Sim, eu amo meus cachos. E claro, já abri mão dele algumas raríssimas vezes coagida pelo cabeleireiro a fazer uma escova. E sinceramente, não gosto. Pareço outra pessoa. E eu não gosto dessa pessoa que eu pareço quando fico lisa.
Existe uma resistência silenciosa da mulherada que ainda não sucumbiu às escovas de chocolate, egípcias e japonesas que estão em toda parte querendo exterminar qualquer fio anelado que haja no planeta. Eu faço parte dessa resistência, graças a deus. E vou por aí sacudindo meus cabelos e pensando, um pouco triste, que as madeixas cantadas naquela música da Gal (Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada) podem estar com os dias contados.