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Museu do Ipiranga concilia tradição e modernidade com maestria em São Paulo

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02.11.2022 - 14:00:00

José Abrão
 
São Paulo – O Museu do Ipiranga foi reaberto recentemente após longos nove anos de reformas para a celebração do bicentenário da Independência do Brasil. E não foi apenas uma obra estética: o vasto acervo do museu e suas exposições em cartaz passaram por amplo processo crítico e ressignificação, mesclando elementos tradicionais presentes na celebração do centenário em 1922, como o protagonismo paulista e os bandeirantes, com novas perspectivas históricas e a inclusão dos papéis desempenhados por negros escravizados, indígenas e trabalhadores caboclos e imigrantes na formação, ocupação e construção do que é o Brasil.
 
Quem visitar o museu agora poderá conferir 11 exposições, tendo como principal destaque “Para Entender o Museu”, que reconta a trajetória do próprio Ipiranga; “Passados Imaginados”, que reconcilia a história da ocupação de São Paulo na visão de 1922 e na contemporânea “Uma História do Brasil”, que ocupa as principais salas do museu, reconta a Independência e possui o quadro mais famoso do acervo: Independência ou Morte!, de Pedro Américo.
 
Algo que chama imediatamente a atenção são os recursos de inclusão para pessoas com deficiência (PCDs). São mais de 300 recursos multissensoriais, além de 70 peças multimídia com legendas em Libras. Os mais interessantes e inovadores são dezenas de objetos que podem ser tocados, dando uma nova dimensão aos visitantes cegos para além da audiodescrição.


"Independência ou Morte!", de Pedro Américo, é a obra mais famosa em exposição (Foto: José Abrão)

“O restauro foi acompanhado por aportes importantes de tecnologia e acessibilidade. Estas são as chaves mestras que definem o novo Museu do Ipiranga em relação ao anterior, que não tinha essa estrutura toda”, conta Amâncio Jorge de Oliveira, vice-diretor do Museu do Ipiranga. “Essa foi uma preocupação de todo o projeto, inclusive no sentido de que o recurso de acessibilidade fosse inserido de forma muito orgânica. Isso tem rendido um reconhecimento importante por parte da população”, avalia.
 
O Ipiranga é o mais antigo museu de São Paulo e planos para a sua construção existem desde o Primeiro Reinado. Sua conclusão, porém, só veio em 1895 e foi desde o início planejado como um monumento em celebração à Independência: quase às margens do riacho mais famoso do Brasil, o museu ficava num descampado fora da capital paulista. Com muita dificuldade, ele foi erguido e eventualmente o bairro do Ipiranga surgiu ao seu redor. Antes em um local ermo, o museu acabou engolido pelo veloz crescimento urbano.
 
Gerido pela Universidade de São Paulo (USP), o monumento, seu jardim de inspiração francesa e o mausoléu de Dom Pedro I estão todos inseridos no Parque da Independência e permanecem uma visita obrigatória para todos os turistas. No momento, cerca de 3.500 itens estão em exposição, mas o acervo total é composto por aproximadamente 450 mil peças.



Fachada e acesso ao centro de acolhimento (Foto: José Abrão) 

 
Raízes brasileiras
A visitação começa pelo novo espaço de acolhimento construído entre o jardim e o subsolo do museu. Para chegar ao salão de entrada, é preciso subir uma escada rolante que passa pelos seus alicerces: pedra, argila e tijolos profundos, entranhando a História do Brasil reproduzida acima com a terra abaixo.
 
Esta conexão permanece nas principais exposições atualmente em cartaz que ocupam o térreo do palácio. A primeira delas, “Para entender o museu”, mostra todos os percalços para a construção de um monumento tão grande. Estão presentes maquetes, inclusive de designs e plantas descartadas, tijolos e materiais de construção originais e todos os obstáculos contornados ou superados desde bem antes da sua inauguração no final do século XIX.
 
As inspirações e aspirações europeias da construção – principalmente francesas ou italianas – se chocam com as da construção do lado de dentro: a do imaginário da identidade nacional. Isto está presente na exposição “Uma História do Brasil”, no saguão, nas escadarias e no Salão Nobre, ocupados por aqueles que foram eleitos, então, heróis nacionais: os bandeirantes, cujas estátuas cercam a de Dom Pedro I, com seus nomes e principais conquistas. Entre elas está, inclusive, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, sobre a marca: “Goyaz, 1744”.
 


Estátuas de Dom Pedro I e do Anhanguera na escadaria principal do museu (Foto: José Abrão)
 

No Salão Nobre estão presentes quadros clássicos de Pedro Américo, assim como outras grandes obras em escultura e pintura retratando o processo de Independência do Brasil. O teto, por sua vez, é decorado com as figuras que se destacam como patronos da Independência, como José Bonifácio, muitos deles também presentes na tumba de Dom Pedro I.
 
A construção deste imaginário e da identidade nacional é mostrado e confrontado na exposição seguinte, “Passados imaginados”. Nela, estão presentes diversas pinturas e cenas clássicas que a maior parte das pessoas vão reconhecer dos livros de História, protagonizadas por bandeirantes e pela igreja. Desta vez, porém, a exposição confronta essa visão elitista, apresentando o tempo todo contrapontos e visões de povos indígenas e o papel dos negros durante o processo de ocupação territorial brasileiro.
 
“Isso é um pouco resposta do movimento crítico a monumentos históricos que fazem menção aos, digamos, protagonistas dominantes no processo político. Portanto, há necessidade da inserção de outros olhares dentro do processo do desenvolvimento da sociedade brasileira”, explica o vice-diretor Amâncio. “Este contraponto foi construído em conversas com grupos focais. Isto foi feito de uma maneira dialógica, para que essa diversidade fosse incluída, em diálogo com estes segmentos da sociedade. Isso também é algo inovador: tentar aprender a História a partir de outras perspectivas. O museu teve a preocupação em dar luz a estas outras visões”.
 
Entre os contrapontos está a reprodução de uma obra do artista goiano Rustoff, chamada Fake Hero, que retrata a estátua do bandeirante conhecida dos goianienses que fica no cruzamento da Avenida Goiás com a Avenida Anhanguera dentro de uma caçamba de lixo.


 "Fake Hero",  do goiano Rustoff (Foto: José Abrão)

É uma abordagem interessante e inovadora considerando o momento de tensionamento político no Brasil. “O museu foi muito hábil e os curadores estão de parabéns no sentido de conseguir apresentar estas perspectivas sem que nenhuma visão fosse ofuscada. Não há a supressão de uma perspectiva tradicionalista em prol de uma progressista, e vice-versa. Isso marca de fato a diversidade política e da sociedade brasileira”, diz Amâncio.
 
Segundo o vice-diretor, o equilíbrio foi alcançado de tal forma que a exposição foi bem recebida por todo o público. “A museografia foi muito feliz na maneira em que abordou a História e seus atores protagonistas, trazendo ao mesmo tempo elementos inovadores importantes. Temos sido muito bem recebidos, tanto pelo lado progressista quanto pelo lado conservador, porque há uma pluralidade de visões muito clara. Essa engenharia é uma coisa muito complicada, ainda mais em um cenário tão polarizado. Por isso, a destreza dos curadores foi muito grande”.
 
A exposição também reaproveita e ressignifica parte daquela feita no centenário da Independência em 1922, tendo como principal destaque uma maquete do centro de São Paulo em 1841 pelo holandês Henrique Bakkenist. Uma projeção 3D conta o processo de feitura da maquete e apresenta o que foi exagerado e o que foi deixado de fora na obra de arte, como elementos camponeses que foram removidos ou as torres das igrejas, que foram aumentadas.
 
História feita no dia a dia
A maior parte do primeiro e segundo andar, que abrigam mais sete exposições, possuem uma nova abordagem da historiografia. Elas se afastam de elementos tradicionais, como arquitetura, obras de arte e documentos, em prol de contar a História através de peças do cotidiano: objetos comuns como ferramentas, roupas e peças de decoração que ajudam a construir a imagem mental e a narrativa de como a sociedade brasileira do passado vivia.
 
As mais marcantes são as opositoras “Mundos do Trabalho” e “Casas e Coisas”. A primeira reconta o processo de ocupação e interiorização do Brasil, especialmente os desafios para fazer avançar a infraestrutura básica dos portos até os rincões do sertão. Fotografias e objetos originais retratam a difícil construção de rodovias e ferrovias, assim como funcionavam os eixos econômicos brasileiros, como o ciclo do café e da cana-de-açúcar. A exposição também apresenta os trabalhadores por trás destes objetos, principalmente caboclos e imigrantes.
 

Registros de objetos sertanejos; imigrantes japoneses e bibelôs da classe média (Foto: José Abrão)

Do outro lado, em “Casas e Coisas”, podemos reconstruir a vida doméstica dos últimos 150 anos, principalmente da classe média e alta brasileira. Além dos objetos e roupas empregadas, destacam-se a principal moda da alta sociedade brasileira do início do século XX: os palacetes. Outros destaques ficam por conta de itens de decoração, principalmente bibelôs, hoje em dia profundamente kitsch, e do recorte de gênero: o que homens e mulheres do século passado gostavam, o que colecionavam, o que faziam em casa?
 
Gigante pela própria natureza
O Museu do Ipiranga, com seus 6.800 metros quadrados, incluindo o jardim, é grande demais e possui tesouros demais para caber tudo em um texto só ou valer apenas uma visita.
 
Atualmente em exposição ainda estão uma impressionante coleção de medalhas e moedas que incluem peças de Roma Antiga e do Império Bizantino. Há também uma bela mostra sobre a disputa e a tensão entre a Igreja Católica colonial com os povos indígenas. Ainda, vale conferir os belíssimos retratos feitos por Van Emelen, de pessoas comuns ao longo do século XX, sem contar o mirante no terraço do museu.
 
Isso é o que podemos resumir em menos de 2000 palavras. O resto, você precisará descobrir sozinho.

Serviço

Endereço: Rua dos Patriotas, nº 20, Ipiranga, São Paulo- SP
 
Horário: Terça a domingo, das 11h às 17h
 
Lote semanal de ingressos toda sexta-feira, às 10h, no site do museu
 
Entrada gratuita até 6 de dezembro
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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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