Me lembro das minhas festinhas de criança com muito carinho. Naquele tempo, os aniversários eram comemorados de maneira bem caseira. O importante era reunir a família e os amigos para cantar o parabéns.
A maior extravagância era encomendar os lindos bolos feitos pela querida Dona Otália. Eu adorava ir pessoalmente na casa dela para decidir como seria o meu bolo, qual personagem, forma e recheio.
As festas eram feitas em casa, decorada com alguns balões e muito entusiamo. Nem por isso eram menos criativas ou divertidas. Eu já tive aniversário de pescaria e bambolê, de dança (era o auge da novela Dancin’Days) e todos meus convidados tiveram que tirar o sapato para não estragar o piso de taco da sala de visitas da minha mãe. As meninas com meia de lurex rodopiavam na pista e teve até concurso de dança.
O auge da festa era o parabéns para você. A mesa de doces era apenas uma mesa de doces, com brigadeiros, balas de coco e bolinhas de leite ninho. Ah, tinha também olho-de-sogra, essa guloseima que praticamente caiu no esquecimento. Findado o parabéns todo mundo atacava a mesa sem dó nem piedade. Isso quando a gente não dava um jeito de assaltar a mesa antes.
Sem querer ser do contra, me parece que as festas infantis viraram eventos sociais e o aniversário da criança é mero pretexto para exibir luxo e riqueza. Uma pessoa desavisada que entrar em algum aniversário de 1 ano em algum buffet infantil da cidade pode achar que se enganou de festa. Porque o evento se aproxima de uma festa de 15 anos ou até de casamentos, tamanho a produçao e dinheiro gastos.
Em primeiro lugar, agora toda festa tem que ter lembrancinhas para os convidados. Isso praticamente se tornou uma convenção. Gente, mas não é o aniversariante quem ganha o presente? Não mais. Agora o convidado leva pra casa uma lembrancinha da festa, normalmente um brinde com o retrato e nome do aniversariante que custa os olhos na cara.
Outro item que tornou-se indispensável na etiqueta das festas mirins é a decoração. Nesse quesito o céu é o limite. Tem mesa de guloseimas, banner da criança em tamanho natural espalhado por todo salão, rosas colombianas, lírios e gérberas. Bolos incríveis de cinco andares, docinhos com o personagem tema da festa, nhá-bentas, trufas e bombons finos.
O local dessas festas normalmente é o buffet infantil. Nada contra, porque sei que muita gente não tem uma casa ou local adequado para fazer uma festa ou prefere a praticidade de contratar tudo sem ter trabalho. Já fui em muitas festas, minha filha sempre se diverte horrores, encontro meus amigos e como uma monte de coisa gostosa.
Mas a verdade que não quer calar é que salvo um brinquedo ou outro, todos os buffets infantis são praticamente iguais: uma caixa fechada com música alta e monitores berrando no microfone.
Deixando claro que a minha crítica não é pura nostalgia ou uma campanha contra o buffet infantil. É apenas um questionamento sobre o exagero, o consumo e o supérfluo. Porque a criança não vai gostar mais ou menos da festa porque tinha mil ou 20 mil balões.
Ao fim e ao cabo, o que vale mesmo é reunir a família, os amigos mais íntimos para celebrar, cantar o parabéns e atacar os docinhos. E estar lá para ser testemunha do momento em que o aniversariante vai soprar a velinha e se sentir a criança mais especial do mundo.