Logo

Biogás: fator de redução da pegada de carbono do setor sucroenergético

22.09.2020 - 14:03:00
WhatsAppFacebookLinkedInX

Desde a década de 1970, o setor da cana, açúcar e etanol vem implementando um contínuo movimento de diversificação, quando se intensificou a produção de etanol. Esse processo tem sido o principal fator para viabilizar seu crescimento e ferramenta de apoio à superação dos desafios de uma atividade competitiva, mas, infelizmente, permeada por distorções, como subsídios no Exterior, barreiras ao comércio e outros tipos de intervenção ao livre mercado.
 
Na última safra de 2019/20, na Região Centro-Sul, 65,7% da cana foram direcionados para o etanol e apenas 34,3% para o açúcar. A flexibilidade passou a ser uma grande vantagem da indústria brasileira em relação aos seus concorrentes. Isso fica evidente mais uma vez este ano, quando a queda da demanda por combustíveis devida ao isolamento social está sendo superada por uma alteração do mix de produção, com uma queda de 11,7% na proporção da cana destinada ao etanol.
 
Fora dessa questão circunstancial, o seu mercado continua em expansão, nos planos doméstico e externo, à medida que aumentam a percepção e o reconhecimento de que é energia quase neutra em emissões de carbono, de alta densidade, escalável, replicável, sem barreira tecnológica e que gera renda e empregos de maneira descentralizada, agregando valor a matérias-primas de biomassa e estimulando a economia circular. O etanol é de maneira crescente valorizado por ser fator fundamental de redução da poluição do ar, contribuindo para amenizar a morbidade e a mortalidade causadas por diversas doenças, incluindo a pandemia relacionada à Covid-19.
 
No contexto de sua diversificação, o setor também implementou a bioeletricidade gerada a partir do bagaço e da palha da cana. Tal aproveitamento foi alavancado pelo enorme esforço de mecanização da colheita e do plantio, realizado em especial nos últimos 15 anos, que permitiu ao ramo sucroalcooleiro alcançar níveis de sustentabilidade incomparáveis em todo o mundo, com a capacitação de colaboradores para operar equipamentos sofisticados, que hoje incluem mais computadores do que a espaçonave Apollo 11. Hoje em dia, a cogeração existente a partir de todas as fontes conta com 18,5 gigawatts (GW) de capacidade instalada em operação comercial, sendo que a biomassa da cana representa 62% desse total; com gás natural, 17%, e com licor negro, 14%.
 
A nova onda de diversificação concentra-se, agora, no desenvolvimento do potencial do biogás e do biometano. Sua versão purificada é comparável, em termos energéticos, ao gás natural fóssil, com a vantagem de ser totalmente renovável. O potencial de geração de biogás no Brasil é estimado em 82 milhões de metros cúbicos por dia (m3/d), o que significa mais do que o dobro da capacidade do gasoduto Brasil-Bolívia. Desse total, 56 milhões de m3/d representam volume a ser gerado pelo setor sucroenergético; 20 milhões, pelo aproveitamento de outros resíduos agroindustriais; e seis milhões, do lixo urbano. Tal volume é equivalente a 115 mil GWh por ano, ou 24% da demanda total de energia elétrica, 44% da relativa ao diesel e 73% do gás natural fóssil consumido no País.
 
Com uma pequena parcela desse potencial, o setor poderá, em pouco tempo, tornar-se independente do uso de diesel em operações agrícolas, visto que já há fabricantes de veículos e colhedoras oferecendo equipamentos capazes de utilizar esse combustível. Uma carreta transportadora de suco de laranja, quando abastecida com gás gerado por resíduos agrícolas, reduz em 85% a emissão de dióxido de carbono (CO2) em relação ao óleo diesel. Num trator, verifica-se economia de 40% no consumo e diminuição de 50% nos ruídos e vibrações. Nos dois casos, já temos protótipos sendo utilizados, segundo dados da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás).
 
O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), lançado em fevereiro último pelo Governo Federal, prevê que, em 2029, a oferta energética interna necessária para movimentar a economia será de 380 milhões TEP (milhões de toneladas equivalentes de petróleo), representando crescimento de 2,9% ao ano. As fontes renováveis podem chegar à participação de 48% do total. Isso manteria o Brasil em conformidade com o compromisso firmado no Acordo de Paris, de reduzir a emissão de carbono e promover maior participação de renováveis na matriz energética.
 
Tal avanço é muito viável, considerando todas as potencialidades do biogás, como, por exemplo, ser renovável, armazenável, aplicável para gerar energia elétrica ou como combustível e com possibilidade de produção regional descentralizada. Também contribui para o êxito da meta, o Renovabio, política pública, já em vigor, que incentiva a descarbonização, permite a concessão de certificação de biocombustíveis que demonstre a redução de gases de efeito-estufa e a comercialização de créditos de carbono.
 
Além disso, em paralelo às iniciativas do setor sucroalcooleiro, há programas importantes de outros segmentos, como a Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos (FBRER), em boa hora lançada este ano por quatro entidades (Abetre, ABCP, Abiogás e Abrelpe). Estima-se existir potencial de se produzirem 3% do consumo nacional de eletricidade a partir de gases gerados nos aterros sanitários de destinação do lixo.
 
A pegada de CO2 do etanol de cana produzido no Brasil, que já é a mais baixa do mundo, deverá ser cada vez mais otimizada, indo na direção da emissão negativa, quando for computada a incorporação de carbono no solo, uma realidade constatada há décadas, mas ainda não incluída no cálculo. Agora, no contexto de alterações de nossa matriz energética e da mobilidade produtiva relacionada ao álcool hidratado e ao anidro, à bioeletricidade e ao uso do biogás e do biometano, a contínua diversificação do setor sucroenergético coloca-o na vanguarda da sustentabilidade e das exigências contemporâneas relacionadas ao meio ambiente e à saúde.
 
*João Guilherme Sabino Ometto é engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), empresário do setor agrícola e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por João Guilherme Sabino

*

Postagens Relacionadas
Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]