O voto é um direito sagrado! Todos estamos cansados de ouvir isso. O que não ouvimos é que a candidatura é também ela um direito sagrado. Num sistema como o nosso, que faz necessária a filiação partidária e um esforço para se tornar visível para poder se candidatar é praticamente impossível haver pessoas “diferentes” como candidatos.
Na história da democracia brasileira, por exemplo, tivemos apenas dois indígenas no Congresso! Hoje, menos de 20% do Legislativo nacional é constituído por pardos ou negros; já as mulheres são 15% da Câmara Federal. Isso sem falar em pessoas com deficiência (a título de exemplo elegemos em toda a nossa história uma pessoa que não vê).
Mas talvez esta não seja a hora de defender diversidade. Seja a hora de compreender as amálgamas de um sistema que chamamos de maquiavélico — um maquiavelismo de quem leu o clássico “O Príncipe” de Maquiavel, e, na verdade, não entendeu que se trata de uma crítica à oligarquia política.
É verdade que lá vemos frases como “é necessário para um príncipe estabelecer uma base sólida para seu poder, sem a qual seria inevitavelmente destruído”; num sistema político que insiste nessa barganha de cargos, para se manter em poder. Mas é também verdade que ele critica de forma dura quem assim age; afinal ele diz que “os que precisam do apoio dos outros não podem enfrentar seus inimigos no campo de batalha, precisando tomar refúgio atrás dos muros da cidade”. Em outras palavras, chama-os de fracos por não se manterem em pé usando suas virtudes, e covardes por se esconderem por trás de muros e não se pronunciarem perante os erros. Fracos e covardes!
Maquiavel na verdade não faz o manual de como manipular a população. Ele descreve os erros da manipulação! Em outro trecho recorda os romanos que apoiavam lideranças “insignificantes” apenas para impedir que “forasteiros” assumam o podem. Seu empenho era “enfraquecer os mais fortes e cuidar para que, em nenhuma hipótese, um estranho, se for igualmente poderoso, possa entrar naquela província, pois forasteiros nunca são bem recebidos”.
Um forasteiro político é algo perigoso para quem está no poder, pois sente suas tradições ameaçadas. Com frequência vejo essa defesa às tradições. Mas tradição não é necessariamente boa ou má. Há tradições boas que se têm perdido, como sentar na mesa e jantar com toda a família conversando. Perdeu-se por causa dos celulares, por causa do excesso de trabalho, perdeu-se porque muitas famílias têm membros que foram assassinados, perdeu-se porque muitos lares não tem jantar! E há tradições nefastas também. O problema não é a perda de tradições: é a perda de valores!
E quais são os valores que podemos buscar na hora de um processo eleitoral? No livro “O segredo da civilização divina”, publicado primeiro anonimamente por um místico persa, se lê claramente que os primeiros atributos são: aprendizagem e realizações culturais da mente. Quantos de nossos candidatos estão abertos a aprender com seus erros, e quantos têm sempre “razão”? Justiça e imparcialidade é o segundo elemento: quantas candidaturas são alicerçadas em equilíbrios justos de poder, grupos étnicos, gênero (para citar alguns) e quantos preferem atropelar aos que dizem seus, em apoio a terceiros mantendo estruturas de injustiça? O terceiro requisito é sinceridade e pureza de intenção para educar as massas: quantas vezes vemos as pessoas defendendo o que defendem porque querem a melhora do mundo, querem levar avante uma civilização em constante progresso?
Noutras de suas páginas o Místico diz que “os atributos das pessoas de fé são justiça e honestidade; paciência e compaixão e generosidade; consideração pelos outros; franqueza, integridade e lealdade; amor e bondade; devoção e determinação e humanidade”. Então, perante polêmicas que têm surgido no Brasil após as convenções partidárias, eu me pergunto: quais lideranças políticas demonstram esses atributos de fé, liderança, sabedoria e respeito pela população? E se descobrirmos essas lideranças, sabemos apoia-las?
Maquiavel nos diz que uma boa liderança é “como o arqueiro habilidoso que, vendo seu alvo muito distante, e conhecendo o alcance de seu arco, mira um ponto mais alto, não com o objetivo de que a flecha atinja aquele ponto e sim para que, com essa elevação, ela possa atingir o alvo desejado”. E qual é esse alvo senão ser fonte de bem-estar para toda a população?
Então, se você leu Maquiavel e acha que entendeu, releia. Leia autores que o complementem. Entenda. Porque Maquiavel não defende tradições e oligarquias, ele as explica e explica suas quedas: “as mudanças deixam espaço para a edificação de outras mudanças” e, se não soubermos lidar com elas, o edifício da novidade é construído sobre as nossa própria ruína.
*Sam Cyrous é psicólogo, logoterapeuta, psicoterapeuta de casais e família, Storyteller e Curador do TEDxGoiânia.