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A ética e a música na Antiguidade Clássica grega

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29.05.2020 - 17:57:10
A história da música ocidental, em sentido estrito, começa com a música cristã (Grout; Palisca, 2001, p. 16). No entanto, a historiografia musical costuma evidenciar a importância da teoria e ética musicais da Grécia Antiga, para o desenvolvimento não apenas da música medieval, como também das outras fases de desenvolvimento da música (sacra, erudita etc.) europeia (Candé, 2001, p. 184). Mas, o que se entente por “ética musical”?
 
O termo “ética” – do vocábulo grego “ethos” -, significa “modo de ser” ou “caráter”. É relevante mencionar que o ethos grego corresponde ao latim “mos” (ou “moris”), do qual deriva a palavra “moral”. Nesse sentido, Marconi Pequeno (2008, p. 36), professor de filosofia da UFPB, esclarece que ética e moral, embora possam, nos dias atuais, apresentar algumas diferenças conceituais em termos etimológicos, significam a mesma coisa. Em resumo, ambos os substantivos dizem respeito ao modo como os indivíduos devem agir entre si, no espaço em que vivem.
 
Para os filósofos gregos do século VI a. C. (período pré-socrático), o cidadão, ao viver de acordo com as leis e os costumes, podia tornar a sociedade melhor e, por conseguinte, encontrar nela seu abrigo seguro. Aqui, a ética surge como resultado das leis erigidas pelos costumes. O hábito, embora se refira à prática comum de um grupo social, mantém estreita relação com o caráter de cada indivíduo. Assim, depreende-se da exposição de Marconi Pequeno que, não apenas as leis das pólis (cidades-estados) determinavam a excelência moral, mas também as opções de cunho pessoal, as quais poderiam gerar as virtudes e bons hábitos.
 
Naquela conjuntura, o sistema educacional (ver: paideia*) era de fundamental importância. Para Sônia Albano de Lima “a educação para os gregos [daquela época] tinha, entre outras metas, a função de desenvolver o caráter moral do indivíduo”. E  “a música teve importância capital nesse intento” (Lima, 2007, p. 10). É justamente esse comportamento cultural que chamamos de “ética musical”. Nesse diapasão, Najat Nasser (UNICAMP) diz que
 
“A música constitui um dos principais interesses na organização política do estado grego (…). Por isso, a formação musical [na Grécia Antiga] era um requisito básico na educação de qualquer cidadão livre, pois caberia a ela direcionar a conduta moral, social e política de cada indivíduo, para cumprir adequadamente o seu papel junto ao estado” (Nasser, 1997, pp. 241-242).
 
 

Aula de poesia, música (lira), polidez e bom comportamento.

"Uma vez que sejam capazes de tocar, ensina-lhes as canções dos poetas adequados,
incluindo-os em sua lição e deixando no cérebro dos meninos os ritmos e as melodias,
para fazer com que sejam menos indômitos e mais preparados
para o discurso e a ação efetivos…"
(Levi, 2008, p. 154)
 


 
Execução musical x música pensada
 
O processo de transição dos tempos mitológicos – representado pelas narrativas de poetas-músicos (Homero, Hesíodo etc.) de inspiração divina – para a instância das descobertas ocorreu com o advento da Filosofia, no início do século VI a. C. Deve-se ter em mente, antes de mais nada, que no transcurso daquele século, aos poucos, acentuou-se a distinção entre o ofício do músico (prática) e a música puramente pensada (filosofia).
 
Conforme atesta o musicólogo italiano Enrico Fubini (2019, pp. 18, 45 e 47), a partir de Pitágoras, a música encontrou um destino “estranho” na história da cultura ocidental. Por um lado, desde a Antiguidade grega – e até mesmo passando pelo Medievo** e Renascimento – a execução musical foi considerada uma arte menor, um “exercício manual sem implicações intelectuais” ou, ainda, como uma “atividade servil e indigna de um homem livre”. Por outro lado, essa mesma música foi “reabilitada até aos mais altos níveis nos seus aspectos não audíveis, não tangíveis, isto é, como pura abstração”. 
 
Diz-se que, nesse segundo patamar, surgiram as especulações científicas, inicialmente envolvendo música, matemática e cosmos, as quais dariam origem ao conceito de “harmonia das esferas”. Aqui, em síntese, costuma-se dizer que os pitagóricos exploraram a “relação física entre as diferentes frequências sonoras [resultante dos movimentos de corpos celestes] e o efeito de suas combinações” vinculando-os ao comportamento humano (Zille, 2016, Prefácio). Para Jacquemard (2007), a partir desse entendimento, a alma seria uma vibração da “harmonia” que rege todo o Universo.  Esse tópico encontra-se melhor detalhado no texto “A música sob a perspectiva dos pitagóricos”.
 
Para a maioria dos historiadores, as ideias pitagóricas teriam favorecido o desenvolvimento da “ética musical”, esta que terá destaque, inclusive, nas doutrinas de Platão (428-348 a. C.) e Aristóteles (384-322 a. C.).
 
 
A educação musical na Grécia Antiga
 
Damon ou Damão de Oa (século V a. C.), um músico pitagórico – conhecido por ter sido, provavelmente, professor de Péricles – foi quem primeiro subscreveu “o princípio ateniense de substituir a ação punitiva das leis pela educação dos costumes” propondo, para tanto, o ensino da música, bem como a educação pela música, como um “instrumento do progresso moral” (Candé, 2001, pp. 72-73). 
 
Especula-se que havia leis sobre a música (instrumental [cítara, lira, aulos etc.] e canto coral) nas primeiras constituições de algumas cidades-estados gregas, tais como Atenas, Tebas e Esparta (Grout; Palisca, 2001, p. 22; Nasser, 1997, pp. 244-245). Nos tempos de Platão, segundo a investigadora Najat Nasser (Ibidem), “na Arcádia, o estado regulamentava que todos os indivíduos, até a idade de trinta anos, deveriam ser submetidos à educação musical”. Nesse novo cenário, “as qualidades místico-religiosas e ritualísticas da música” – próprias dos tempos das narrativas mitológicas – são aqui “substituídas e centradas nas qualidades morais”.
 
Explorando, ainda, o ponto de vista do grego Damon, o historiador Roland de Candé (2001, p. 73) pergunta: “como a música pode servir de intermediária entre a ordem natural e a alma humana?”. A resposta é fornecida pelo próprio Damon: por meio da mímesis, que justifica: “a arte é imitação, e a alma imita, por sua vez, os simulacros da arte”. 
 
A chamada “doutrina da imitação” também foi apreciada, a posteriori, nos trabalhos de Platão (428-348 a. C.) e Aristóteles (384-322 a. C.). Os historiadores Grout e Palisca, comentando os escritos de Aristóteles, dizem que “a música imita (isto é, representa) as paixões ou estados da alma – brandura, ira, coragem, temperança, bem como os seus opostos e outras qualidades”; daí que, quando ouvimos um trecho musical que imita uma determinada paixão, somos induzidos a essa mesma paixão. Consequentemente, “se ouvirmos música inadequada, tornar-nos-emos pessoas más; em contrapartida, se ouvirmos a música adequada, tenderemos a tornar-nos pessoas boas”. (Grout; Palisca, 2001, pp. 20-21).
 
Será que existe realmente uma relação íntima entre música e paixões, entre a música e as fortes emoções do espírito? Poderia a música, verdadeiramente, “exprimir, representar, encarnar, transmitir emoções e paixões? Essas perguntas foram elaboradas pelo musicólogo italiano Enrico Fubini em seu livro “Estética da Música” (p. 25), escrito em 1995. 
 
Na prática, a educação grega com base na música exigiu que “uma casta erudita, tendo aprofundado seus segredos”, definisse “o etos dos modos e dos ritmos (…)” (Candé, 2001, p. 73). Com efeito, o repertório tradicional deveria passar por uma severa seleção. Enquanto isso, novas composições deveriam ser “melodicamente e ritmicamente regidas por um conjunto de regras e normas preestabelecidas”, tendo como princípio a manutenção das antigas tradições (Nasser, 1997, pp. 244-245). Na opinião de Candé (Ibidem) vai-se constituir, assim, uma verdadeira teoria da “boa”, mais do que da “bela” música.
 
Quais sentimentos podem ser suscitados pelos diferentes modos? 
A relação entre “modos” – equivalentes às nossas escalas musicais – e ética musical será abordada no próximo texto. 

NOTAS: 

 
* Em resumo,  paideia é a denominação do sistema de educação e formação ética da Grécia Antiga. É verdade que uma educação (nesses moldes), abarcando noções relativas à educação, cultura, civilização, tradição etc., nos remete aos tempos homéricos (1200-800 a. C.). No entanto, ao que parece, a palavra  paideia ("criação de meninos") aparece apenas no século V a. C. Na paideia, era estimulado o conhecimento da literatura, da gramática, da música e das artes. 

** O teórico romano Anício Severino Boécio (c. 480-524) fez a seguinte divisão: 1) “música mundana” (ou cósmica ou música das esferas), como sendo a harmonia que ocorre em nível macrocósmico; 2) “música humana”, que seria a harmonia que ocorre no homem, no equilíbrio (ou consonância) entre seu corpo e sua alma, resultando na razão e sensibilidade; 3) “música instrumental”, ou seja, a música sonora propriamente dita (Bergonso, 2013, pp. 34, 38 e 40).
 

LEIA TAMBÉM:

1) A música sob a perspectiva dos pitagóricos – postado em 21/05/2020;
2) Harmonia: filosofia e música – postado em 17/06/2020;
3) Orfeu e os "modos" musicais gregos primitivos – postado em 14/07/2020;
4) O "éthos" dos modos musicais – postado em 19/07/2020;
5) Poeta-músico (aedos, bardos) – postado em 21/08/2015;
6) O poder da música – postado em 05/06/2015.

 

REFERÊNCIAS:

Bergonso, Melissa Carla Chornobay. (2013). Número, som e beleza: a estética musical em Boécio. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil).
 
Candé, Roland de. (2001). História Universal da Música. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes.
 
Grout, Donald Jay; Palisca, Claude V. (2001). História da Música Ocidental. 2. ed. Lisboa: Gradiva.
 
Jacquemard, Simonne. (2007). Pitágoras e a Harmonia das Esferas. Trad. Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: DIFEL.

Levi, Peter. (2008). Grandes Civilizações do Passado – A Civilização Grega. Barcelona: Ediciones Folio.

 
Lima, Sonia Albano de. (2007). Música e Cosmologia. In Sonia Albano de Lima (org.). Uma leitura transdisciplinar do fenômeno sonoro, pp. 09-36. São Paulo: Editora Som – Faculdade de Música Carlos Gomes.
 
Nasser, Najat. (1997, jul/dez). O ethos na música grega. In Boletim do CPA – Centro de Estudos e Documentação sobre o Pensamento Antigo Clássico, Helenístico e sua Posteridade Histórica, Ano II, n. 4, pp. 241-254, Campinas/SP, IFCH-UNICAMP.
 
PEQUENO, Marconi (2008). Ética, Educação e Cidadania. In Maria de Nazaré Tavares Zenaide, et. al., Direitos Humanos: capacitação de educadores, vol. 1, pp. 35-39. João Pessoa/PB: Editora da UFPB. ISBN: 978-85-7745-246-0.

Zille, J. A. B. (2016). In Edite Rocha e José Antônio Baêta Zille (orgs.), Musicologia[s] – Série Diálogos do Som. Ensaios (Vol. 3, Prefácio). Barbacena, MG: Editora da Universidade de Minas Gerais.

MÚSICA NA ANTIGA ÍNDIA:

Música Indiana: uma criação dos deuses (20/9/2022);
Ravanastron: o ancestral mais antigo do violino (22/6/2022).

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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