Logo

Perigo: Diabolik é o melhor filme de super-herói da história

WhatsAppFacebookLinkedInX
06.04.2019 - 08:16:00

A bilheteria de “Capitã Marvel” ultrapassa 1 bilhão de dólares. Divulgado há poucos dias, o trailer de “Coringa” – novo filme da DC – viraliza na internet e divide a opinião de nerds planeta afora. Assim é a vida em um mundo sem adultos.
 
Espero dos filmes de super-herói o mesmo que espero de um gibi do gênero: entretenimento ligeiro. Mas não sou idiota a ponto de não compreender o estrago que sua hegemonia provoca no campo do cinema. Dito isso, afirmo sem medo de errar: “Diabolik” (“Danger: Diabolik”, no original) é o melhor filme de super-herói da história. E foi lançado em 1968.
 
O espectador mediano do cinema super-heroístico deve estar se perguntando: quem diabos é esse tal Diabolik? Esclareço: o personagem é um clássico dos fumetti – nome das histórias em quadrinhos na Itália –, criado em 1962 pelas irmãs Angela e Luciana Giussani. Percebendo a dificuldade de se manusear jornais no exíguo espaço dos trens, Angela teve a ideia de publicar um gibi em formato diminuto (12 x 17 cm), que coubesse no bolso dos passageiros. O gênero da HQ foi definido após encontrar um exemplar do romance policialesco Fantômas largado por ali. Marshall McLuhan não falha: o meio é a mensagem.
 


 

Diabolik é tipo o Batman: não tem super-poderes. Conta apenas com uma mente brilhante e as extraordinárias capacidades atléticas de seu corpo. Usa roupa preta tanto para se camuflar à noite, quanto para meter medo nos inimigos. Curte um carrão: está sempre pilotando um Jaguar envenenado. Também mestre dos disfarces, invariavelmente tem à mão tecnologia de ponta. E é rico pacas. Mas as semelhanças param por aí.  
 
Ao contrário de Bruce Wayne, que herdou sua fortuna, Diabolik é rico porque é um ladrão. Seu pitoresco senso moral, todavia, só permite que ele roube gente como o próprio Bruce Wayne – isto é, gente podre de rica. Ou o próprio Estado.
 
Diferença fundamental em relação a seu congênere de Gotham City é a escolha do parceiro de aventuras – e de cama. Ao invés de partir para a ação ao lado de um pré-adolescente cheio de espinhas, Diabolik tem como aliada a gatíssima Eva Kant, numa eterna relação de tórrida (e absolutamente fiel) paixão. Batman – como todos nós sabemos – é assexuado. Isso na melhor das hipóteses. A outra alternativa para a sua sexualidade obrigatoriamente envolveria o tal “menino-prodígio”. E não serei eu a colocar mais farinha nesse angu.
 
“Pô! Esse Diabolik então não é herói, é bandido!” – diria o nerd incauto. Mas não são bandidos todos aqueles que ferem a lei ao tomar a justiça nas próprias mãos? (Ainda mais escondido detrás de uma máscara…) Bandido por bandido, prefiro aqueles que atacam a propriedade privada, ao invés de defendê-la. E isso Diabolik faz como ninguém, tanto nos quadrinhos quanto na fidelíssima película dirigida pelo mestre Mario Bava.
 
Bava (1914 – 1980) é uma legenda do cinema italiano. E um patrimônio do cinema mundial. Esteta de uma época que não dispunha de recursos digitais, notabilizou-se em filmes de horror. Estabeleceu os parâmetros do giallo (suspense policial carregado de violência). Foi pioneiro do slasher (terror urbano centrado em assassinos seriais). Uma de suas obras mais emblemáticas deu nome àquela soturna banda de Birmingham: Black Sabbath.   Fotógrafo de mão cheia, criava ambiências surreais valendo-se apenas de luz, cor e fumaça. Gênio da raça.
 
Foi graças à sua fabulosa expertise em efeitos especiais que o lendário produtor Dino De Laurentiis convidou Bava para a direção de “Danger: Diabolik”. Entregou uma obra-prima camp – que coincidentemente remete ao seriado de TV Batman, estrelado por Adam West, nos anos 60. Sequer torrou todo o orçamento. Dos 3 milhões de dólares disponibilizados por De Laurentiis, Bava gastou apenas 400 mil. Foi então sugerido que, com o restante da grana, fizesse uma sequência. O diretor declinou. Não se sentia confortável com a pressão de grandes orçamentos. 
 
John Phillip Law e Marisa Mell encarnam à perfeição o casal Diabolik e Eva Kant. Lindos de morrer, destilam rara química na tela. Reza a lenda que Eva seria vivida pela deusa platinada Catherine Deneuve. Após uma semana de filmagens, tiveram que dispensar a bela da tarde. Faltou tesão.
 
O filme começa com uma complexa operação policial onde o Inspetor Ginko – eterno arqui-rival de Diabolik, vivido pelo francês Michel Piccoli – comanda o transporte de 10 milhões de dólares. Ginko é jacaré em filme de Tarzan. De forma espetacular, o super-ladrão (que pra mim é super-herói) e sua amada botam a mão da grana. Para comemorar, uma noite de luxúria em meio a milhares de cédulas. Dinheiro serve é pra isso.
 
O esconderijo secreto de Diabolik deixa a Batcaverna no chinelo. Robin se rasgaria de inveja. É de lá que surge o novo plano do casal: o roubo do mais impressionante colar de esmeraldas já feito. Afinal, estavam a apenas dois dias do aniversário de Eva. Pobre Ginko. Lutar contra super-hedonistas não é moleza.
 
Em dada altura, explodem – literalmente – o sistema financeiro francês. Só por diversão. Lembrem-se: naqueles idos, não havia arquivos digitais. E lá vai o ministro de finanças – hilariamente vivido pelo saudoso Terry-Thomas – para a TV, pedir aos contribuintes que paguem seus impostos segundo a própria consciência. Aprende, Paulo Guedes.
 
O arrocho econômico faz com que a França precise abrir mão de parte substancial de suas reservas de ouro. Surge então a brilhante ideia de fundir o lastro restante num único lingote de 10 toneladas. Nem Diabolik seria capaz de roubar algo assim. Sei.
 
Para além do roteiro bizarramente inventivo, “Diabolik” tem a potência narrativa e visual de Bava. Planos incríveis, sequências arrebatadoras e delirantes. Trucagens do mais hábil artesão da imagem em movimento. A relação entre cinema e quadrinhos é tão próxima quanto complexa. Mario Bava lida com isso de modo inaudito. Sequer vou entrar nessa seara – que por si só valeria uma Guerrilha Pop (ou artigo acadêmico) exclusiva.
 
Mas há, ainda, a trilha sonora. De autoria de ninguém menos que o maestro absoluto Ennio Morricone. “Deep Down”, o tema principal, é uma pérola que se transubstancia em diversas versões ao longo do filme, dando vida a climas e atmosferas que agem sempre em favor da narrativa. Não por acaso, Mike Patton – mais conhecido como vocalista da banda Faith No More –, em seu projeto de música italiana Mondo Cane, adota a canção como carro-chefe. Ao menos pra mim.
 
Ainda sobre as convergências de “Diabolik” com o universo sonoro, vale lembrar que o impagável videoclipe de “Body Movin’”, dos fantabulásticos Beastie Boys, deriva diretamente da película ítalo-francesa. Coisa fina. Confira agora:

Assisti “Diabolik” pela primeira vez poucos anos atrás, no Fantaspoa – o maior festival de cinema fantástico da América Latina. O filme compunha uma mostra especial inteiramente dedicada a Mario Bava. Na ocasião, seu filho Lamberto – também ele um diretor responsa de cinema de terror, com clássicos oitentistas como “Demons” no currículo – estava presente. Em um jantar, falamos sobre “Diabolik”, do qual assina a assistência de direção, como em tantos outros filmes do pai. E ainda ganhei um belíssimo pôster autografado, que muito em breve receberá uma moldura à altura.
 
Mas você, leitor esperto, não precisa disso. É fácil encontrar o filme na internet. Ou ainda, se você for mesmo dos bons, adquirir a edição especial em DVD lançada no Brasil pela London Films. O acabamento não é de primeira – faltam, por exemplo, legendas nos imperdíveis extras. Em compensação, acompanha um disco extra contendo a trilha sonora do filme. (Por favor, desconsidere o adesivo toscamente colado sobre a superfície do CD.)
 
Importante assinalar que os quadrinhos de Diabolik voltaram recentemente a ser publicados no país. A Editora 85 é a responsável pela proeza. O preço não é muito convidativo, mas a edição é decente. Um tijolinho contendo quatro aventuras distribuídas em quase 500 páginas.
 
De modo que eu só posso dizer uma coisa: esqueça um pouco Marvel e DC. Nos gibis e nas telas. Conheça “Diabolik”. É diversão diabólica. O pior que pode acontecer é você crescer um pouco.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]