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A dança dos não famosos: uma obra-prima que nasce anacrônica

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19.01.2019 - 12:02:24

Goiânia – Sou da velha guarda: sigo acreditando que um dos papéis da arte é produzir e instigar reflexões – estetizadas e estetizantes – acerca do mundo e da vida. Tenho sérias dificuldades em dar crédito a “artistas” de mãos limpas, unhas feitas, cutículas bem cuidadas. Daí minha gigantesca expectativa em ouvir o que Fred Zero Quatro e seu mundo livre s/a tinham a dizer acerca deste inferno astral que, nos últimos anos, insistimos em chamar de Brasil. Não foi em vão. Tampouco foi suficiente.  

Fundado em 1984 e pilar do mangue bit – ou beat, a depender do paladar do cliente –, o mundo livre s/a (assim mesmo, em minúsculas) não lançava um álbum inédito desde o inovador Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa. Era 2011. O Brasil era outro. Começo do primeiro mandato Dilma. As coisas pareciam bem, na inércia dos indiscutíveis avanços propiciados pelo presidente anterior – aquele mesmo que hoje puxa uma etapa em Curitiba (graças, principalmente, a um certo ministro recém-empossado).  

De lá pra cá, da lama ao caos. Em 2013, o gigante acordou – e para bom entendedor, já se revelava fascistóide. Em 2014, com placar apertadíssimo, a Dilma levou a faixa. Uns tucanos não aceitaram o resultado do campeonato e foram para o tapetão. Eu chamo de golpe – e imagino que quando a Terra voltar a ser redonda, os livros de História dirão o mesmo.  

A coisa não parou por aí. Um vampiro assumiu o Palácio do Planalto, prometendo sugar o sangue do país. Foi diligente nesta função. Apesar de todos os escândalos, sua casa não caiu. Estudantes ocuparam escolas país afora – e foram recebidos à base de porrada.  

Em São Paulo, quiseram alimentar os mais pobres com ração. Tiveram que se contentar com jatos d’água em mendigos. Como um raio, negros, nordestinos, indígenas, a comunidade LGBT e demais minorias voltaram a ser tratados com distinto preconceito. E então chegou 2018 – e com ele, A Dança dos Não Famosos. Fácil fácil um dos melhores discos do ano.  

A capa dá o tom da empreitada político-sonora: com design fragmentário, mostra o exato instante em que o manifestante goiano Matheus Ferreira da Silva foi violentamente agredido com um golpe de cassetete – que se espatifou! – pelo capitão da PM Augusto Sampaio de Oliveira Neto. (Chega a dar um orgulho reverso, não é mesmo?)  Prenuncia-se ali, naquela imagem, a crônica mordaz – mas nada lacradora – que só o mundo livre s/a seria capaz de produzir acerca do período.  

O disco começa com a hecatômbica “Batismo NukGruuvk”, metralhando trocadilhos cínicos como “Criança-Nazi-Esperança” e “Jovem em Situação de Rico”. Difícil não pensar no então prefeito João Doria. Ou ainda na truculência exercida pelas polícias militares dos Estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo durante as manifestações populares da época. Alguém se lembra o que elas tinham em comum?  

Zero Quatro destila irônico veneno ao longo do álbum. E mais uma vez confirma sua posição de mais brilhante mente do movimento musical que tomou Recife – e o resto do país – nos anos 90 do século passado. Afiado como uma navalha, eviscera a incestuosa relação entre política e religião no Brasil em “Meu Nome Está no Topo da Sagrada Planilha”, disparando versos deste gabarito: “Obrigado, Senhor / Pelo pozinho do bem / Abençoada seja nossa mãe gentil / O sacramento rentista sempre me elevou / Louvado seja o juiz / E a virgem santa que o pariu”. Me remeteu, também, a um ex-governador mineiro.  

Nem de longe A Dança dos Não Famosos se restringe à impressionante capacidade lírica de Zero Quatro. Uma densa sonoridade atravessa as 12 faixas do álbum, em rica variação de nuances. É pesado, ainda que não centrado em guitarras. Mas também dançante. É percussivo e eletrônico. Orgânico e cheio de camadas. Tudo isso graças à espetacular produção obtida no Casona Estúdio, em Recife. Não deixa de ser emocionante ver uma banda com mais de 30 anos de estrada entregar, a esta altura do campeonato, um trabalho tão potente e vital. E o que é melhor: lançando pela nossa querida Monstro Discos.  

“Eletrochoque de Gestão” evoca os melhores momentos do Clash – influência confessa do mundo livre s/a –, além de condensar a perfeita síntese do disco: letra afiada (ironizando o malfadado governo Temer e sua patética renúncia em não renunciar), samples, groove sacolejante, pegada eletrônica, refrão matador. Na dramática “O Passo do $angue: Na Vidraça”, outra das obsessões da banda vem à tona: a mídia.  

Não pense, porém, que A Dança dos Não Famosos se restringe a temas políticos. “Bailei de Calção – Um Zero a Mais” passa a limpo a carreira do líder Fred Zero Quatro – e, consequentemente, do próprio mundo livre s/a – com uma inusitada pegada Jovem Guarda. (Atenção aos timbres do teclado, inspirados no notório Lafayette, parceiro do Roberto do Carlos nos tempos em que o Roberto Carlos era legal.)  

Zero Quatro empresta seu forte sotaque pernambucano a serviço de dois outros idiomas – sempre com resultados de intensa carga poética. Primeiro na bela “Special Manguechild”, escrita para o filho, sob o impacto da morte de David Bowie. E depois na francesa “Je Vais Danser… Nu”. Melancolia em estado de arte.  

Ainda que poético, ácido e dançante, A Dança dos Não Famosos é, acima de tudo, um disco sombrio, nada solar. E se resta alguma dúvida, “Vem Pra Rua Tomar na Cabeça – Um Passo Novo” é a definitiva pá de cal, com seu clima fúnebre e assustador.    

Como eu disse lá em cima, a espera pelo álbum não foi em vão. Mas também não foi suficiente. Quando finalmente veio à público, em agosto último, a vertiginosa política brasileira já o havia ultrapassado.  

Trancaram o sapo barbudo e apostaram muitas fichas num sujeito mais sem-graça que picolé de chuchu. Não colou. Para não perder a aposta, o capital internacional mudou de cavalo. E um político ordinário, do baixo clero, vulgar e abominável, acabou vencendo as eleições mais deprimentes de nossa História. De modo que o mundo livre s/a conseguiu uma proeza absolutamente improvável: criar uma obra-prima que, em certo sentido, já nasce anacrônica.  

Só espero que Zero Quatro e seus mangue boys não demorem outros sete anos para lançar um novo álbum. Sua voz, mais que nunca, é necessária. E conforme o andar da carruagem, pode ser que não tenhamos mais um país até lá.

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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